Os Miseráveis
VIII — A onda e a sombra
profundo conhecimento das iniquidades sofridas, a reacção mesmo contra os bons, contra os inocentes e os justos, se é que os havia.
A origem e o alvo de todos os seus pensamentos era o ódio contra a lei humana, ódio que, não sendo sustado no seu desenvolvimento por algum acaso providencial, se transforma, chegado certo tempo, em ódio contra a sociedade, depois em ódio contra a humanidade, em seguida em ódio contra a criação, e se traduz por um vago, incessante e brutal desejo de fazer mal, seja a quem for, a um ser animado qualquer.
A vista disto, não era, pois, sem razão, que o passaporte classificava Jean Valjean de
«homem perigosíssimo». De ano para ano, aquela alma fora-se dissecando cada vez mais, lenta mas fatalmente. Para corações insensíveis, olhos enxutos Quando saiu das galés, havia dezanove anos que Jean Valjean não vertera uma lágrima.
VIII — A onda e a sombra
Homem ao mar!
Que importa? O navio não pára. O vento é fresco e o navio tem um rumo que é obrigado a seguir. Não pode deter-se. Segue sempre.
O homem que caiu ao mar desaparece, torna a aparecer, mergulha, sobe à super cie, estende os braços, chama. Ninguém o ouve. O navio, balouçado pelas vagas, obedece ao impulso da manobra de quem o dirige; equipagem e passageiros nem sequer divisam já o homem submergido; a cabeça do infeliz é apenas um ponto escuro na imensidade do mar. No espaço retumbam os seus gritos desesperados ao ver o espectro daquela vela que lhe foge. Contempla-a, crava nela os olhos com frenesi. E ela afasta-se, vai decrescendo, vai-se esfumando, confundida no ambiente nebuloso do horizonte. Há pouco ainda que ele ia dentro desse navio, que fazia parte da sua equipagem, que passeava no convés com os outros, que nha a sua parte de respiração e de sol, que era um vivo. Agora, que foi que sucedeu? Escorregou, caiu, acabou-se.
Ei-lo em luta com a voracidade da água. Tenta firmar os pés e não encontra um ponto de apoio; estende os braços e não encontra a que se apegar. As ondas revoltas e retalhadas pelo vento rodeiam-no medonhas. As vagas envolvem-no, sacudidas pelo vento em pavorosos escarcéus; as ondulações impetuosas e desencontradas do abismo fazem dele seu ludíbrio; a espuma das ondas fus ga-lhe a cara, como se fora a lava deste vulcão líquido, como se fora um escarro de pungente ironia a rado às faces do infeliz por aquele povoléu de vagas indómitas; a cada passo o dragão imenso abre as fauces de chofre e subverte-o, devora-o; e ele, de cada vez que mergulha, avista precipícios de trevas cerradas; medonhas vegetações desconhecidas o enleiam, emaranham-se-lhe nos pés, o atraem para si; sente que se torna abismo, faz parte da espuma, as vagas trazem-no aos repelões, bebe a amargura, o oceano porfia cobardemente no intento de o afogar, a imensidade zomba da sua agonia. Parece que toda aquela água lhe tem ódio.
E ele luta sempre! O infeliz tenta defender-se, tenta suster-se, esbraceja, emprega todos os esforços, consegue nadar Ele, pobre força de repente exausta, combate a que é inexaurível.
Onde está o navio? Muito longe. Mal se avista nas lívidas sombras do horizonte.
O vento con nua em rajadas; a espuma das ondas vence-o. Ergue os olhos e vê