Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 192 de 359

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Os Miseráveis

II — O «Bas-fond»

Quantos são os andares subterrâneos, outros tantos trabalhos diferentes, outras tantas extracções diversas. Que sai de todas estas subterrâneas escavações? O futuro.

Quanto mais vai afundando o edi cio, mais misteriosos são os operários. Até certo degrau que o filósofo social sabe conhecer é bom o trabalho; desse degrau para baixo torna-se duvidoso e misto; quanto mais fundo mais terrível. A certa profundidade já as escavações não são penetráveis ao espírito de civilização, acaba o limite respirável ao homem; principiam a ser possíveis os monstros.

É singular a escala descendente, mas cada um desses degraus corresponde a um andar, em que a filosofia pode firmar-se e onde sempre se encontra algum desses obreiros, umas vezes divinos, outras disformes. Por baixo de Jean Huss está Lutero; por baixo de Lutero está Descartes; por baixo de Descartes, Voltaire; por baixo de Voltaire, Condorcet; por baixo de Condorcet, Robespierre; por baixo de Robespierre, Marat; por baixo de Marat, Babeuf. E assim por diante. Mas no fundo, confusamente, no limite que separa o indistinto do invisível, divisam-se outros homens sombrios que talvez ainda não existam. Os de ontem são espectros; os de amanhã são larvas Obscuramente os dis nguem os olhos do espírito. O trabalho embrionário do futuro é uma das visões do filósofo.

Que singular aspecto o de um mundo nos limbos em estado de feto!

Nesse mundo existem também em minas laterais Saint-Simon, Owen, Fourier.

Com efeito, posto que uma divina cadeia invisível una uns aos outros, sem que eles o saibam, esses viandantes subterrâneos, que quase sempre se julgam isolados e não o estão, os seus trabalhos são muito diversos e a luz de uns contrasta com o resplendor dos outros. Uns são paradisíacos, os outros trágicos. Contudo, por maior que seja o contraste, todos estes obreiros, de cima até baixo, desde o mais ajuizado até ao mais tolo, têm entre si a semelhança do desinteresse. Marat olvida o que é, como Jesus Põem-se a si de lado, omitem-se, não se lembram de si, vêem outra coisa sem ser as suas próprias pessoas. Olham, mas o seu olhar procura o absoluto. O primeiro tem o céu todo nos olhos; o úl mo, por mais enigmá co que seja, ainda assim tem por baixo do sobrolho o pálido clarão do infinito. Faça ele o que fizer, venerai sempre o que ver este sinal a pupila estrela.

A pupila sombra é o outro sinal.

Nela tem seu princípio o mal. Fronte sem olhar, tremei e fugi dela. A ordem social também tem mineiros negros.

Há um ponto, porém, em que o afundar é cavar uma sepultura em que a luz se apaga.

Por baixo de todas estas minas de que acabamos de fazer menção, de todas estas galerias, de todo este imenso sistema venoso, subterrâneo do progresso e da utopia, bem pela terra dentro, abaixo de Marat, abaixo de Babeuf, mais abaixo, muito mais, e sem nenhuma relação com os andares superiores, existe a úl ma cova Lugar formidável, que é ao que nós demos o nome de entresolo. É o fosso das trevas, a cova dos cegos.

Inferi.

Isto comunica com os abismos.

II — O «Bas-fond»

Aí desaparece o desinteresse e divisa-se o vago esboço do demónio; içada qual para si. O eu sem olhos uiva, procura, apalpa e rói. Existe nesse pego o Ugolino social.

As figuras ferozes que giram nessa cova, quase animais, quase fantasmas, não se ocupam do progresso universal, cuja ideia ignoram; só cuidara de saciar-se cada uma a si mesma Quase lhes falta a consciência, e parece haver uma espécie de amputação terrível dentro delas. São duas as suas mães, ambas madrastas: a ignorância e a miséria. O seu guia é a necessidade; e para todas as formas da sa sfação, o ape te. São brutalmente vorazes, quer dizer, ferozes; não à maneira de rano, mais a maneira do gre. Do sofrimento passam estas larvas ao crime; filiação fatal, geração aterradora, lógica das trevas. O que roja pelo entresolo social não é a reclamação sufocada do absoluto; é o protesto da matéria. Torna-se aí dragão o homem. Ter fome e sede, é o ponto de partida; ser Satanás, é o ponto de chegada. Esta cova produz Lacenaine Viu-se há pouco no livro quarto, um dos compar mentos da mina superior, da grande cova polí ca, revolucionária e filosófica, onde, como acabou de ver, é tudo nobre, puro, digno, honesto; onde, sem dúvida, é possível um engano, e efec vamente se dão; mas onde o erro se torna digno de respeito, tão grande é o heroísmo a que anda anexo. O