Os Miseráveis
VIII — Muitos pontos de interrogação a respeito de um certo Le Cabuc, que não se chamava talvez assim
Gavroche que presenciara toda esta cena, aprovando-a com um silencioso movimento de cabeça, aproximou-se de Javert e disse-lhe:
— Foi o rato que apanhou o gato.
Isto fora tão rapidamente feito, que já estava tudo concluído quando notaram que Javert não soltara um grito, Courfeyrac, Bossuet, Joly, Combeferre e os mais que estavam na rua, avistando Javert amarrado, correram todos para verem de que se tratava.
Javert, encostado ao poste e tão enleado de cordas que não podia fazer o mínimo movimento, ergueu a cabeça com a intrépida serenidade do homem que nunca mentiu.
— É um espião — disse Enjolras. E voltando-se para Javert: — Dois minutos antes de tomada a barricada será fuzilado.
Javert replicou no tom mais imperioso:
— Porque não há-de ser já?
— Porque precisamos poupar a pólvora.
— Então acabem isto com uma facada.
— Espião — disse o belo Enjolras — nós somos juízes e não assassinos.
Em seguida chamou Gavroche,
— Não fazes o que te disse?
— Vou já! — gritou Gavroche.
E, parando um instante antes de partir, acrescentou:
— É verdade, não me dá a espingarda? Deixo-lhe o músico, mas quero O fagote.
O gaiato fez uma con nência militar e saiu alegremente pela abertura da grande barricada.
VIII — Muitos pontos de interrogação a respeito de um certo Le Cabuc, que não se chamava talvez assim
A pintura trágica que empreendemos não ficaria completa, se o leitor não apreciasse em seu relevo exacto e real, os grandes momentos de parto social e de nascimento revolucionário, em que há convulsão de envolta com o esforço, se omi ssemos no esboço aqui traçado, um incidente cheio de horror épico e feroz, que sobreveio logo após a partida de Gavroche.
Os ajuntamentos, como é sabido, tornam-se uma espécie de bolas de neve e aglomeram rolando um montão de homens tumultuosos. Estes homens não perguntam uns aos outros de onde vêm. Entre os indivíduos que se nham juntado ao grupo conduzido por Enjolras, Combeferre e Courfeyrac, havia um homem com um jaquetão de moço de fretes, coçado nos ombros, que ges culava, vociferava e nha a fisionomia de uma espécie de bêbado selvagem. Este homem, chamado ou alcunhado Le Cabuc, e de todo desconhecido dos que pretendiam conhecê-lo, muito embriagado ou fingindo que o estava, sentara-se com alguns outros a uma mesa que nha puxado para fora da taberna. Este tal Cabuc, ao passo que instava os que lhe faziam companhia, para que bebessem, parecia observar com ar de reflexão o grande prédio que ficava ao fundo da barricada, cujos cinco andares dominavam toda a rua e faziam frente para a de S. Diniz.
De repente, ele exclamou:
— Sabem uma coisa, camaradas? Daquela casa é que devemos fazer fogo. Em nós estando naquelas janelas, os diabos me levem se há alguém capaz de entrar na rua!
— Sim, mas a casa está fechada — disse um dos bebedores.
— Batamos.
— Não nos abrirão.
— Arrombamos a porta.
Cabuc corre à porta, que tinha uma forte argola de ferro, e bate.
A porta não se abre. Bate segunda vez. Ninguém responde. Terceira vez. O mesmo silêncio.
— Está aqui alguém? — grita Cabuc.
Não se ouve o mínimo rumor.
Então deita a mão a uma espingarda e começa às coronhadas à porta. Era uma velha porta cintada de ferro, baixa, estreita, sólida, toda de carvalho, e forrada por dentro com uma folha de ferro; verdadeiro postigo de uma bastilha.
Todavia, é de crer que os habitantes vessem por fim ouvido, porque se viu enfim
aparecer luz numa fresta quadrada, no terceiro andar e pouco depois mostrar-se nela uma vela e o rosto beato e assustado de um velho, que era porteiro do prédio.
O homem que estava batendo interrompeu-se.
— O que querem os senhores? — perguntou o porteiro,
— Abre! — ordenou Cabuc.
— Ó senhores, isso não pode ser!
— Já te disse que abras!
— É impossível, senhores!
Cabuc meteu a espingarda à cara e fez pontaria ao porteiro, mas como estava em baixo e a noite era muito escura, não foi visto por ele.
— Queres abrir ou não queres?
— Não, senhores!
— Dizes que não?
— Digo que não, meu ami...
O porteiro não terminou a palavra. Disparado o ro entrara-lhe a bala por baixo do queixo e saíra-lhe pela nuca, depois de lhe ter atravessado a jugular. O velho caiu sobre si mesmo sem soltar um suspiro. A vela caiu e apagou-se e não se viu mais do que uma cabeça imóvel pousada sobre o parapeito da fresta e um pouco de fumo esbranquiçado que se elevava acima do telhado.
— Aí tens! — disse Cabuc, deixando cair no chão a coronha da espingarda.
Mal nha pronunciado estas palavras sen u pousar-lhe no ombro uma mão com o peso de uma garra de águia, e ouviu uma voz que lhe dizia:
— Ajoelha!
O assassino voltou-se e viu diante de si o rosto alvo e frio de Enjolras, que nha na mão uma pistola.
Ouvindo a detonação acudira logo.
Com a mão esquerda agarrara no pescoço, na blusa, na camisa e no suspensório de Cabuc.
— Ajoelha! — repetiu-lhe ele.
E o débil mancebo de vinte anos, dobrou como um junco o mariola membrudo e robusto, obrigando-o a ajoelhar na lama.
Cabuc tentou resis r, mas pareceu-lhe que nha sido agarrado por um pulso sobrenatural.
Enjolras, pálido, com o pescoço nu, os cabelos despenteados e o seu rosto feminino!
apresentava naquele momento certo aspecto da an ga Themis. As ventas dilatadas e os olhos baixos, davam-lhe ao implacável perfil grego a expressão de cólera e da cas dade, que segundo o modo de ver do antigo mundo, convinha à justiça.
Toda a gente da barricada correra para o mesmo ponto, dispuseram-se em círculo a certa distância, conhecendo que era impossível pronunciar uma palavra em face do que iam presenciar.
Cabuc, subjugado, já não tentava resis r e tremia como varas verdes. Enjolras largou-o e puxou pelo relógio.
— Recolhe-te em ti — disse-lhe ele — e pede perdão a Deus. Tens um minuto.
— Perdão! — balbuciou o assassino. Depois curvou a cabeça e balbuciou alguns juramentos inarticulados.
Enjolras não afastou os olhos do relógio; deixou passar um minuto e meteu-o em seguida no bolso. Feito isto, deitou a mão aos cabelos de Cabuc, que se lhe enovelava nos joelhos e apoiou-lhe no ouvido a boca da pistola. Muitos daqueles homens intrépidos, que nham entrado com a maior tranquilidade na mais medonha das aventuras, voltaram a cabeça.
Ouviu-se a detonação, o assassino caiu, batendo com a fronte na calçada e Enjolras endireitou-se, lançando à roda de si um olhar de severa convicção.
Depois deu com o pé no cadáver, dizendo:
— Deitem isto fora.
Três homens ergueram o corpo do miserável, que se agitava com as úl mas convulsões maquinais da vida ex nta e lançaram-no por cima da barricada pequena, para a rua Mondétour.
Enjolras ficara pensa vo. Sob a sua terrível serenidade, espalhavam-se vagarosamente não sei que grandiosas trevas. De repente ergueu a voz. Tudo ficou silencioso.
— Cidadãos — disse Enjolras — o que esse homem fez é medonho, o que eu fiz é horrível. Matei-o; porque matou. Tive que o fazer porque é necessário manter a disciplina dentro da insurreição; o assassínio aqui é maior crime do que em qualquer outra parte; estamos sob as vistas da revolução, somos os sacerdotes da república, somos as hós as do dever, é necessário que não possam caluniar o nosso combate.
Julguei e condenei à morte esse homem. Quanto a mim, constrangido de fazer o que fiz, mas aborrecendo-o, julguei-me também e dentro em pouco verão ao que me condenei.
Os que estavam escutando estremeceram.
— Participaremos da tua sorte! — exclamou Combeferre.
— Pois seja — tornou Enjolras. — Ainda uma palavra. Punindo esse homem, obedeci à necessidade, mas a necessidade é um monstro do velho mundo; a necessidade chama-se Fatalidade. Ora, a lei do progresso é que os monstros desapareçam diante dos anjos e que a Fatalidade se desvaneça em presença da Fraternidade. Não haverá no futuro trevas nem raios, nem a ignorância feroz, nem o talião sanguinário. Como deixará de haver Satanás, não haverá Miguel. No futuro ninguém matará o seu semelhante, a terra resplandecerá, o género humano amará. Chegará o dia, cidadãos, em que tudo será amor, luz, alegria e vida; há-de chegar e é para que chegue que nós vamos morrer!
Enjolras calou-se. Os seus lábios de virgem cerraram-se: depois permaneceu por algum tempo de pé no lugar em que derramara o sangue, numa imobilidade de mármore. O
seu olhar fito fazia que todos falassem baixo em torno dele.
Jean Prouvaire e Combeferre apertaram-se silenciosamente as mãos e encostados um ao outro ao ângulo da barricada, contemplavam com assombro em que havia compaixão, o grave mancebo algoz e sacerdote, de luz como o cristal, mas também de rocha.
Sem nos reservarmos para mais tarde, diremos já que, no fim da acção, quando os
cadáveres foram recolhidos e apalpados, para serem em seguida enterrados, foi achada em Cabuc uma nomeação de agente de polícia. O autor deste livro teve em suas mãos, em 1848, o relatório especial que foi apresentado sobre este assunto ao prefeito de polícia em 1832.
Acrescentamos que, dando-se crédito a uma tradição de polícia, estranha, mas provavelmente bem fundada, Le Cabuc era Claquesous. Este malfeitor não deixou O
mínimo rasto do seu desaparecimento: pareceu ter-se amalgamado com o invisível. A sua vida compusera-se de trevas; o seu fim foi a noite.
Ainda o grupo insurgente estava todo sob a impressão do trágico processo, tão rapidamente instaurado e tão depressa terminado, quando Courfeyrac tornou a ver na barricada o rapaz que, de manhã procurara Mário em sua casa.