Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 224 de 359

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Os Miseráveis

II — Formação embrionária dos crimes na incubação das prisões

Não se deve sopor que na sua razão houvesse desconcerto. Pelo contrário. Perdera a faculdade de trabalhar e de se dirigir firmemente para um fim determinado, mas nha mais do que nunca discernimento e rec dão, Mário via a uma luz tranquila e real, ainda que singular, tudo o que lhe passava pelos olhos, ainda mesmo os factos ou os homens mais indiferentes; dava sobre tudo uma opinião justa, com uma espécie de aba mento honesto desinteressadamente cândido. O seu juízo quase desligado de esperança, mantinha-se alto e pairava.

Nesta situação de espírito nada lhe escapava, nada o iludia, e a todos os instantes descobria o fundo da vida, da humanidade e dos des nos. Felizes daqueles, mesmo nas angús as, a que Deus deu uma alma digna do amor e da desventura! Quem não tem visto as coisas deste mundo e o coração dos homens a esta dupla luz, não tem visto

coisa alguma, não tem visto nada verdadeiro.

A alma que ama e sofre está no estado sublime.

No fim de tudo, os dias sucediam-se e não traziam nada de novo. Parecia-lhe unicamente, que cada vez se limitava mais o sombrio espaço que lhe restava a percorrer.

Julgava entrever já indistintamente a beira do precipício sem fundo.

— Meu Deus! — repetia ele consigo. — Pois eu não a tornarei a ver antes disso?

Quem, depois de subir pela rua de S. Tiago, deixa ao lado a barreira, costeando algum tempo à esquerda o an go boulevard interior, entra na rua da Saúde, chega à Glacière pouco para cá do regato dos Gobelinos, encontra um despraiado, que na extensa e monótona cintura dos boulevards de Paris seria o único sí o em que a Ruysdaêl apeteceria sentar-se.

É que naquele local há esse não sei quê que nos torna graciosas as coisas. Um prado verdejante, atravessado por cordas sustentando alguns panos esburacados, que os moradores do lugar ali vêm estender para enxugar ao vento; uma an ga granja de jardineiros, edificada no tempo de Luís XIII, com o seu grande telhado extravagantemente furado de águas-furtadas; algumas sebes arruinadas, uma pouca de água entre choupos, algumas mulheres, um sussurro de vozes e de risadas, no horizonte o Panteon, a árvore dos Surdos-Mudos, o Vale de Graça, negro, colossal, extravagante, diver do, magnífico e, no fundo, o severo coruchéu quadrado das torres de Nossa Senhora.

Como o lugar vale a pena de ser visto, ninguém lá vai; apenas algum carro ou algum carreteiro de quarto em quarto de hora

Sucedeu, porém, que uma ocasião os solitários passeios de Mário o encaminharam para aquele despraiado. Nesse dia via-se no boulevard uma raridade, um viandante, a quem Mário, vagamente, impressionado pelo atrac vo quase selvagem do local, perguntou:

— Como se chama este lugar?

— Campo da Cotovia — respondeu o viandante.

E acrescentou:

— Foi aqui onde Ulback matou a pastora de Ivry.

Mário, porém, depois da palavra Cotovia, nada mais ouvira. Tem destas súbitas congelações o estado medita vo, congelações que uma palavra é suficiente para produzir. O pensamento condensa-se todo repen namente em volta de uma ideia, tornando-se para logo impenetrável a qualquer outra percepção. Cotovia era o nome que Mário, nas fundas e melancólicas cogitações em que se embrenhava, subs tuíra ao de Úrsula.

— Ah, é o campo dela! — disse ele na espécie de pasmo desassisado peculiar a estes misteriosos apartes. — Então saberei aqui onde ela mora.

Tal arrazoado era absurdo, mas irresistível.

E principiou a ir todos os dias ao tal Campo da Cotovia.

II — Formação embrionária dos crimes na incubação das prisões O triunfo obtido por Javert no casebre Gorbeau parecera completo, mas não o fora.

Em primeiro lugar e era esta a principal inquietação de Javert, não prendera o prisioneiro. O assassinado que se evade torna-se mais suspeito do que o assassino; e era provável que aquele personagem, tão preciosa captura para os ladrões, não fosse decerto menos boa presa para a autoridade

Depois, Montparnasse nha escapado a Javert. Era preciso esperar outra ocasião para deitar a mão àquele «peralta do diabo».

Montparnasse, com efeito, tendo encontrado Eponina, que estava de vigia debaixo das árvores do boulevard, levara-a consigo, preferindo ser Némorin com a filha a ser Shinderhannes com o pai. Bem fizera. Estava livre. Quanto a Eponina, Javert fizera-a

«fisgar», o que era medíocre consolação, juntando-a em seguida a Azelma, nas Madelonnetes.

Enfim, no trajecto do casebre Gorbeau para Force, um dos principais presos, Claquesous, nha-se «perdido». Ninguém sabia como se havia operado semelhante coisa; os beleguins «não perceberam nada»; transformara-se em vapor e saíra por entre as algemas, correra pelas fendas do veículo; o fiacre estava rachado e ele fugira; o mais que puderam dizer ao chegar à prisão, foi que era uma vez Claquesous. Ali ou havia bruxaria, ou obra da polícia. Claquesous nha-se fundido nas trevas como um floco de neve na água! Teria havido dissimulada conivência dos beleguins? Aquele pertenceria ao duplo enigma da desordem e da ordem? Seria consen do na infracção e na repressão?

Teria aquela esfinge as patas dianteiras no crime e as traseiras na autoridade? Javert não aceitava combinações destas e ter-se-ia eriçado na presença de tais compromissos, mas a sua esquadra nha outros inspectores além dele, talvez mais iniciados, ainda que seus subordinados, nos segredos da prefeitura, e Claquesous era um celerado de tal espécie que podia ser magnífico agente. Ter tão ín mas relações de empalmação com a noite é uma coisa excelente para a ladroagem e admirável para a polícia. Há nisto tratantes de dois gumes. Fosse como fosse, Claquesous perdido não se tornou a achar. Javert mostrou-se mais irritado do que admirado.

Quanto a Mário, «aquele imbecil advogado», que provavelmente nha medo e de quem Javert esquecera o nome, pouco cuidado lhe dava. Depois um advogado é coisa que se encontra sempre. Mas seria ele só advogado?

A devassa começava.

Como, porém, o juiz de instrução vesse julgado conveniente não meter no segredo algum dos sócios da quadrilha Patron-Mine e, esperando assim aproveitar alguma indiscrição, foi escolhido Brujon, o homem da cabeleira da rua do Pe t-Banquier, para ser encerrado na prisão de Carlos Magno, onde constantemente era vigiado pelos respectivos guardas.

O nome de Brujon é uma das recordações da Force. Há doze anos, na hedionda prisão chamada do Edi cio Novo, que a administração denominava prisão de S. Bernardo e os ladrões Cova dos Leões, via-se grosseiramente gravado com um prego nas pedras do muro coberto de lepra e escamas, que do lado esquerdo se elevava até à altura dos telhados, pouco distante de uma porta de ferro carcomida de ferrugem, que dava para a antiga capela do palácio ducal da Force, convertida depois em dormitório de salteadores, via-se gravado, dizíamos, uma espécie de castelo, com a seguinte assinatura por baixo: Brujon, 1811.

O Brujon de 1811 era o pai do Brujon de 1832.

Este úl mo, a quem os leitores mal entreviram na cilada do casebre Gorbeau, era um galã sobremodo destro e astucioso, apesar do seu ar de basbaque e choramingas. Foi por causa desse seu ar de basbaque que o juiz de instrução o não mandara fazer companhia aos consócios, julgando-o mais ú l na prisão de Carlos Magno do que na célula do segredo.

Os ladrões não interrompem os seus trabalhos por estarem em poder da jus ça. Não se embaraçam com semelhante bagatela. Estar preso por um crime não obsta a que se dê princípio a outro. São ar stas que têm um quadro em exposição num salão, sem deixar por isso de se ocupar em novo trabalho no seu atelier.

Brujon parecia ter ficado estupefacto com a sua prisão. Viam-no às vezes horas seguidas na prisão de Carlos Magno, de pé junto ao pos go do taberneiro, contemplando com ar idiota a suja lista dos preços da taberna, que principiava por: alho 62 cên mos e acabava por: cigarros 5 cêntimos. Outras vezes, porém, passava ele o tempo a tremer, batendo com os dentes uns nos outros, clamando que estava a arder em febre e perguntando se alguma das vinte e oito camas de enfermaria dos doentes de febre estava devoluta.

De súbito, por meados do mês de Fevereiro de 1832, soube-se que Brujon, o indolente, dera a quem lhe nha ido fazer três recados diferentes, não de mando dele, mas de mando de três dos seus camaradas, cinquenta soldos, despesa exorbitante que atraiu a atenção do carcereiro da prisão.

Procedeu-se a informações, e consultando-se a tabela dos preços dos recados, pregada no parlatório dos presos, conseguiu-se saber que os cinquenta soldos se decompunha do seguinte modo: — Três recados: um ao Panteon, dez soldos; outro ao Vale de Graça, quinze; e outro à barreira de Grenelle, vinte e cinco. Este era o recado de maior preço na tabela. Ora, no Panteon, no Vale de Graça e na barreira de Grenelle, ficavam justamente os domicílios de três temerosíssimos vagabundos das barreiras, Kruideniers ou Bizarro, Glorieux, forçado livre, e Barre-Carrosse, sobre os quais este incidente atraiu as vistas da polícia.

Supunha-se, segundo as aparências, que estes homens estavam filiados na quadrilha Patron-Mine e, dois chefes da qual, Babet e Gueulemer, nham sido agarrados. Supôs-se mais que os recados, mandados a pessoas que esperavam na rua e não dirigidos a tal ou tal casa, nham por fim avisá-las para alguma malévola maquinação, para alguma planeada malfeitoria Havia ainda outros indícios, em virtude dos quais se procedeu à captura dos três malfeitores acima indicados, julgando-se haver assim destruído a desconhecida maquinação de Brujon.

Uma semana, pouco mais ou menos, depois de tomadas estas precauções, um dos guardas nocturnos que inspeccionava o dormitório inferior do Edi cio Novo, na ocasião em que ia a deitar o seu horário na respec va caixa era o meio empregado para se saber se os guardas eram exactos no serviço que nham a sa sfazer; de hora em hora devia

cair um horário em todas as caixas pregadas nas portas dos dormitórios um guarda, dizíamos, viu, pelo ralo do dormitório, Brujon sentado na cama a escrever o que quer que fosse ao clarão do candeeiro. O guarda entrou, Brujon foi me do na enxovia, onde esteve um mês, mas o que ele escrevera não foi possível apanhá-lo. A polícia nada mais soube a tal respeito.

O que é certo é que, ao outro dia, da prisão de Carlos Magno para a Cova dos Leões foi a rado «um pos lhão» por cima do edi cio de cinco andares que separava as duas prisões.

Chamam os presos pos lhão a uma bolazinha de pão ar s camente endurecida, que se envia «para a Irlanda», quer dizer, por cima dos telhados de uma prisão, de um ponto para outro. Etimologia: por cima da Inglaterra, de uma terra para outra; «para a Irlanda».

A bola de pão cai na prisão, o que a encontra abre-a e encontra um bilhete dirigido a algum dos presos. Se algum preso a encontra, faz chegar o bilhete ao seu des no; se é algum guarda ou algum desses presos secretamente vendidos, chamados nas prisões

«carneiros» e nas galés «raposas», o bilhete é levado ao carcereiro que o entrega à polícia.

Desta feita, porém, chegou o pos lhão ao seu des no, apesar de, nessa ocasião, se achar incomunicável aquele a quem ia dirigido. O des natário era nada menos que Babet, um dos quatro cabeças de Patron-Minette.

Encerrava o postilhão um papel enrolado, que apenas continha estas duas linhas:

« Babet . Há um negócio a fazer na rua de Plumet. Uma grade que deita para um jardim».

Era a tal coisa que Brujon fora visto a escrever na noite antecedente.

Apesar dos guardas e das guardas, que revistavam tudo, Babet conseguiu fazer passar o bilhete da Force para a Salpêtrière, onde nha uma «boa amiga» encarcerada. Esta transmi u também o bilhete a uma sua conhecida, chamada Magnon, que a polí-cia trazia de olho constantemente, mas que ainda não nha sido presa. Esta Magnon, cujo nome já não é desconhecido para o leitor, nha com os Thenardier relações que serão explicadas mais tarde, e podia, pretextando que ia visitar Eponina, servir de ponte entre a Salpêtrière e as Madelonnetes.

Justamente nesta ocasião, Eponina e Azelma eram postas em liberdade, por falta de provas no processo intentado contra Thenardier. Quando Eponina saiu, Magnon, que estava de vigia à porta das Madelonnetes, entregou-lhe o bilhete de Brujon para Babet, encarregando-a de «esclarecer o negócio».