Os Miseráveis
IX — O carácter do irmão descrito pela irmã
Mas terei gozado. Assim, pois, a minha escolha está feita. É indispensável dominar ou ser dominado. Prefiro dominar! É preferível ser martelo a ser bigorna. É esta a minha teoria.
No fim de tudo isto está o coveiro, que é para nós o Pantheon e está tudo arrumado.
Finis. Liquidação total. Some-se tudo para nunca mais aparecer. Creia-me, a morte é a morte e, por mais que me digam, não posso deixar de rir quando penso nela. É uma invenção de amas de crianças; para estas é o papão, para os homens é Jeová! Além do túmulo, há a igualdade do nada. Sardanapalo ou Vicente de Paula, quem quer que tenhais sido, o mesmo nada vos caberá em sorte. Aqui está a verdade! Portanto, vivamos, dê por onde der. Façamos uso do nosso eu , enquanto o possuímos. Repito-lhe, senhor bispo, tenho a minha filosofia e os meus filósofos e não me deixo engrinaldar com patranhas. Todavia, alguma coisa hão-de ter os que rastejam na lama, os pés-descalços, os miseráveis. Dão-se-lhe a engolir as lendas, as quimeras, a alma, a imortalidade, o paraíso, as estrelas. E eles lá vão mas gando tudo. Quem não tem nada, tem Deus. Pouco é, mas valha-nos isso. Da minha parte não lhe ponho obstáculos, mas guardo Naigeon para mim. Quanto a Deus, deixo-o ao povo.
— Ora isso é que se chama falar! — exclamou o bispo, batendo as palmas. —
Excelente! É realmente maravilhoso o seu materialismo, senhor conde! Quem o professa está livre de cair em logros; não se deixa desterrar estupidamente como Catão, nem apedrejar como Santo Estêvão, nem queimar vivo como Joana d’Arc! Quem consegue
chegar a possuir tão admirável materialismo tem o prazer de conseguir a irresponsabilidade e adquirir a convicção de que tudo pode devorar sem susto, empregos, sinecuras, dignidades, palinódias lucra vas, traições úteis, saborosas capitulações de consciência e que descerá ao túmulo, depois de bem feita a digestão.
Que agradável coisa! Eu não digo isto por V. Ex.ª, senhor senador. Todavia, não posso deixar de lhe dar os parabéns! Os fidalgos, como V. Ex.ª disse, têm uma filosofia própria, sub l, requintada, unicamente acessível aos ricos, óp mo condimento para guisar com todas as voluptuosidades da vida! É uma filosofia desenterrada das profundidades por inves gadores especiais. Porém, magnates de bom coração, não levam a mal que a crença em Deus seja a filosofia do povo, do mesmo modo, por assim dizer, como a açorda é o peru do pobre.
IX — O carácter do irmão descrito pela irmã
Para dar ideia mais perfeita da vida íntima do bispo de Digne e do modo como as duas mulheres subordinavam os hábitos e intenções do prelado as suas acções, pensamentos e até ins ntos de mulheres assustadiças, sem que ele vesse sequer o trabalho de falar para as exprimir, nada melhor do que transcrever uma carta escrita por Bap s na à viscondessa de Boischevron, sua amiga de infância.
Digne, 16 de Dezembro de 18...
Minha querida amiga:
Não se passa um só dia em que não falemos a seu respeito. Isto é um hábito an go, mas, além disso, há ainda outra razão. Imagine que a Magloire andando a lavar e a limpar os tectos e as paredes da casa, fez uma grande descoberta; agora os nossos quartos forrados de papel an go e caiado por cima, não fariam má figura num palácio do género do seu. Magloire rasgou todo o papel e encontrou por baixo uma infinidade de coisas.
A minha sala, que não tem móveis, e de que nós nos servimos para estender roupa, tem quinze pés de altura e dezoito de largura. Vê-se agora que o tecto foi forrado de lona, no tempo em que isto era hospital, an gamente era pintado e dourado e nha até trabalho de talha, enfim, um tecto à an ga. Porém, o que é digno de se ver é o meu quarto. Por baixo de uma camada muito densa de papéis colados, Magloire descobriu várias pinturas, as quais, sem serem boas, são muito suportáveis.
Uma representa Telemaco a ser armado cavaleiro por Minerva; outra representa-o nos jardins não sei de que... onde as damas romanas só iam uma vez. Como lhe hei-de dizer tudo? Tenho romanos e romanas (nesta passagem da carta há uma palavra ilegível) e toda a sua comi va. Magloire limpou e lavou tudo e este Verão, reparadas algumas pequenas avarias, o meu quarto ficou um verdadeiro museu. Encontrou também num canto do sótão, duas consolas muito an gas. Pediram doze francos para as restaurar, mas é preferível dar este dinheiro aos pobres, porque, afinal de contas, são dois objectos muito feios, que eu de boa vontade trocaria por uma mesa redonda de acajú.
Eu continuo a ser muito feliz pela bondade de meu irmão. Dá tudo quanto tem aos pobres e enfermos. Os Invernos aqui são muito rigorosos, de maneira que é indispensável fazer alguma coisa pelos infelizes. Nós vivemos muito apoquentados, mas, graças a Deus, não temos falta de lenha nem de luz. Bem vê que estas coisas não são dadas a todos.
Meu irmão está habituado a certas coisas e diz sempre que um bispo deve ser como ele. Imagine que a porta da nossa casa nunca se fecha a chave. Meu irmão não tem medo de nada, nem mesmo de noite.
Segundo ele diz, um sacerdote não deve ter medo.
Não quer que eu nem Magloire nos preocupemos por causa dele. Expõe-se aos maiores perigos e não podemos sequer demonstrar que isso nos assusta. É necessário saber compreendê-lo.
A chuva não o impede nunca de sair, chegando no Inverno a fazer longas jornadas a pé, debaixo de água, sem temer as estradas nem recear qualquer mau encontro.