Os Miseráveis
II — Dois retratos completos
— Olhe, senhor, o estar a erva molhada não lhe faz mal nenhum, antes é melhor de segar. O orvalho é-lhe bom. Mas cá para o nosso caso... eu vou dizer-lhe uma coisa; sim, a erva que diz está ainda muito tenra e não é boa de cortar. Como está muito mole, embaraça-se a foucinha nela e não se faz coisa com jeito.
Cose e estava no seu canto do costume; sentada na travessa da banca da cozinha, ao pé da lareira, maltrapilha, de tamancos nos pés e trabalhando numas meias de lã para as filhas do estalajadeiro, ao clarão projectado pela fogueira que ardia no lar.
Debaixo das cadeiras brincava e pulava um ga nho novo, e na sala próxima ouviam-se as frescas vozes de duas crianças tagarelando e rindo: eram Eponine e Azelma.
A um dos lados do lar viam-se umas disciplinas penduradas num prego.
De espaço a espaço, no meio do alarido de vozes e de ruidosa algazarra que levantavam os joviais convivas da taberna, ouviam-se os gritos de uma criancinha que estava algures dentro de casa. Era um menino que a mulher do estalajadeiro havia dado à luz num dos; Invernos antecedentes «sem saber como, dizia ela; efeitos do frio», e que pouco mais contava do que três anos. Fora a mãe que o amamentara, mas nem por isso lhe consagrava demasiado afecto. Quando o pequerrucho, à força de gritar, se tornava importuno demais, o marido dizia-lhe:
— Olha o teu filho que está a chiar, vai ver o que ele quer.
— Ora! — respondia a mãe. — O rapaz já me aborrece.
E a pobre criança con nuava a gritar nas trevas, abandonada e sozinha, sem que à mãe desse grande cuidado ir indagar a causa dos seus lamentosos choros.
II — Dois retratos completos
Ainda não se viu senão de perfil os estalajadeiros de Mon ermeil, que nesta história figuram debaixo do nome de Thenardier. Chegada é, porém, a ocasião de circunvagar em roda daquele par para o observar por todas as faces.
Thenardier completara, havia pouco, cinquenta anos de existência; a consorte estava a tocar os quarenta, que são para a mulher o mesmo que os cinquenta para o homem; de modo que entre a mulher e o marido havia equilíbrio de idades.
A Thenardier, alta, loura, vermelha, encorpada, fornida de carnes, quadrada, enorme e ágil, pertencia, como já dissemos, a essa raça de colossos selvagens que andam em exposição pelas feiras, sustentando pedras nos cabelos. Era ela quem tudo fazia em casa, que arrumava os quartos, que fazia as camas, a barrela, a comida, a chuva, o bom tempo, o diabo. A sua única criada era Cose e; um rato servindo um elefante. Tudo tremia ao som da sua áspera voz, vidraças, trastes e pessoas. A sua cara larga, crivada de sardas, apresentava o aspecto de uma escumadeira. Para que a coisa ficasse completa, nha barba também. Era o ideal do mais alentado regatão ves do de mulher, soltando pragas como ninguém, gabando-se de quebrar uma noz com um murro. Se não fossem os romances que lera e que às vezes faziam reaparecer a mulher-dengue por baixo da mulher-papão, nunca ninguém se lembraria de dizer dela: «É uma mulher». A Thenardier era como que o produto do enxerto de uma donzela numa peixeira. Ao ouvi-la falar, dir-
se-ia: «É um gendarme»; ao vê-la beber, diriam: «É um carreteiro»; ao presenciar finalmente o modo como ela tratava Cose e exclamariam: «É o carrasco». Quando dormia, saía-lhe da boca um dente.
O marido era um homem baixo, magro, pálido, anguloso, ossudo, fraco, com aspecto de doente, mas gozando de uma saúde de ferro. A sua velhacaria principiava por isto.
Era-lhe habitual o sorriso nos lábios e tratava com polidez quase toda a gente, mesmo o mendigo a quem recusava uma esmola. Tinha olhar de fuinha e gesto de literato.
Parecia-se muito com os retratos do abade Delile. O seu maior gosto consis a em beber com os carreteiros, e nunca ninguém fora capaz de o embebedar. Além disto fumava num grande cachimbo, trajava uma blusa e por baixo da blusa uma velha casaca preta.
Thenardier nha pretensões a literato e materialista, costumando pronunciar frequentes vezes certos nomes para apoiar o que dizia, como Voltaire, Raynal, Parny, e, extravagante coisa, Santo Agos nho. Afirmava ele ter um «sistema». Quanto ao resto, velhaco a não poder mais. Há destas combinações no mundo.
Devem lembrar-se de que pretendia ter sido militar; contava com certo orgulho que em Waterloo, sendo sargento de um regimento, 6.º ou 9.º de infantaria ligeira, nha sozinho contra um esquadrão de hussardos da Morte, coberto com o seu corpo, e salvo através da metralha «um general gravemente ferido». Era daqui que lhe proviera, para a porta, a flamante tabuleta, e para a sua estalagem, em todo aquele sí o, o nome de
«tabernado sargento de Waterloo». Era liberal, clássico e bonapar sta. Subscrevera para o campo de Asilo; e dizia-se na aldeia que estudara para padre. Quanto a nós, julgamos que tinha simplesmente estudado na Holanda para estalajadeiro.
Este tratante de ordem compósita, era, segundo todas as probabilidades, um flamengo de Lille em Flandres, francês em Paris, belga em Bruxelas, comandante a cavalo em duas fronteiras.
A sua proeza em Waterloo já nós conhecemos; como se vê exagerava-a um tanto.
O fluxo e refluxo, a aventura, o intricado, eram os elementos da sua existência; da consciência rasgada resulta a vida descosida; e, como era verosímil, na tempestuosa época de 18 de Junho de 1815, Thenardier pertencia à variedade de vivandeiros ratoneiros de que falámos, que percorriam a estrada, vendendo a estes, roubando àqueles, e que rodavam com toda a família, mulher e crianças, e em qualquer carroça desconjuntada, atrás da tropa em marcha, e com o ins nto de se chegarem sempre para o exército vitorioso. Terminada esta campanha e tendo, como ele dizia, «cum quibus»
fora estabelecer-se em Montfermeil.
Este «cum quibus» composto de bolsas e de relógios, de anéis de oiro e de cruzes de prata, colhidos no tempo da ceifa nas leiras semeadas de cadáveres, não montava a um grande total e não acompanhara até muito longe o vivandeiro transformado em taberneiro.
Thenardier nha nos gestos qualquer coisa de rec líneo, que com uma praga recordava a caserna, e quando se benzia, o seminário. Falava bem e deixava-se passar por erudito. Não obstante, o mestre-escola tinha-lhe notado algumas silabadas.
Escrevia a conta dos seus hóspedes com certa superioridade, mas os olhos exercitados
encontravam-lhe muitas vezes erros de ortografia. Thenardier era um velhaco, guloso e mandrião, mas hábil. Não desprezava as criadas, o que fazia com que sua mulher as não vesse. A gigante era ciosa; parecia-lhe que aquele homenzinho magro e amarelo devia ser objecto de cobiça universal.
Thenardier principalmente homem de astúcia e equilíbrio, era um velhaco de género temperado. Esta espécie é a pior de todas: baseia-se na hipocrisia.
Isto não quer dizer que Thenardier não fosse suscep vel de se encolerizar, chegada a ocasião própria, tanto como sua mulher; mas essas ocasiões eram muito raras; em tais momentos, porém, como ele odiava todo o género humano, como nha em si profunda fornada de ódio, como era dos que se vingam perpetuamente, que acusam quanto lhes passa pela frente, tudo o que se sentem cair-lhes em cima, e que estão sempre prontos a lançar ao primeiro que lhes aparece, como legí ma desforra, a totalidade das decepções, das bancarrotas e das calamidades da sua vida; como todo este fermento se lhe levantava no ín mo, e por assim dizer lhe fervia na boca e nos olhos, tornava-se medonho. Desgraçado daquele que então lhe caía nas mãos.
Além de todas estas qualidades, era Thenardier atento e penetrado, silencioso ou falador, segundo a ocasião, e sempre com alta inteligência. Tinha o que quer que era do olhar dos marinheiros, habituados a aplicar os olhos aos óculos de alcance. Thenardier era um homem de estado.
Todo o recém-chegado que entrava na baiuca dizia, vendo a estalajadeira: Eis ali o dono da casa. Era um erro, nem mesmo era a dona. Dono e dona era o marido: a mulher executava o que ele concebia. O marido dirigia tudo por uma espécie de acção magné ca invisível e con nua. Bastava-lhe uma palavra, muitas vezes um gesto; o mastodonte obedecia. Thenardier era para sua mulher, sem que ela desse por isso uma espécie de ente particular e soberano.
A Thenardier nha as virtudes do seu modo de ser; nunca divergia, sobre qualquer pormenor, da opinião de Thenardier, hipótese completamente inadmissível; e nunca contradizia publicamente o marido sobre o que quer que fosse. Nunca teria come do em presença de estranhos, a falta come da muitas vezes pelas mulheres, e a que se chama em linguagem parlamentar: descobrir a coroa. Ainda que o seu inalterável acordo não vesse nunca em resultado senão o mal, havia contemplação na submissão da Thenardier a seu marido. Aquela montanha de ruído e carne movia-se sob o pequeno dedo do frágil déspota. Era isto, encarado pelo seu lado anão e grotesco, uma coisa grande e universal: a adoração do espírito pela matéria; porque certas fealdades têm a sua razão de ser nas próprias profundezas da beleza eterna. Em Thenardier havia o que quer que era de desconhecido, donde provinha o império absoluto sobre sua mulher, a quem, em certos momentos, se afigurava uma luz, noutros sentia-o como uma garra.
Esta mulher era uma criatura medonha, que não amava senão os filhos e que não temia senão o marido. Era mãe por ser mamífera, Mas ainda assim, a sua maternidade concentrava-se nas filhas; e, como se verá, não se estendia até aos rapazes. O marido, esse, só pensava em enriquecer.
Contudo, não o conseguia. Faltava àquele grande talento um teatro condigno.
Thenardier em Mon ermeil perdia tudo, se a perda é possível em zero; na Suíça ou nos Pirinéus, aquele pobretão tornar-se-ia milionário. Mas o estalajadeiro tem forçosamente de pastar no sítio em que a sorte o prende.
É necessário entender-se que a palavra estalajadeiro é aqui empregada num sen do restrito e que não se estende a uma classe inteira.
Neste mesmo ano de 1823, achava-se Thenardier endividado em perto de mil e quinhentos francos, e com credores inexoráveis, o que lhe causava grande inquietação.
Qualquer que fosse para com ele a injus ça teimosa do des no, Thenardier era um dos homens que compreendiam do modo mais profundo e da maneira mais moderna, uma coisa que é virtude entre os povos bárbaros e mercadoria entre os civilizados: a hospitalidade.
Quanto ao mais, admirável caçador nas matas defesas, citado pela infalível pontaria e possuidor de um certo riso frio e pacífico, que era muito particularmente perigoso.
As suas teorias de estalajadeiro brotavam dele, por vezes, como relâmpagos.
Tinha aforismos profissionais que sem cessar inseria no espírito de sua mulher. «O
primeiro dever do estalajadeiro, lhe dizia ele um dia violentamente e em voz baixa, é vender ao primeiro que aparece, má comida, descanso, luz, fogo, lençóis sujos, pulgas e sorrisos; de fazer parar os transeuntes, de esvaziar as bolsas magras e de aliviar honestamente as gordas, de abrigar respeitosamente as famílias que vão em jornada, de esfolar o homem, de depenar a mulher e de limpar a criança; de meter em conta a janela aberta, a janela fechada, o calor do fogão, a poltrona, a cadeira, o banco, o moxo, o colchão de penas, a enxerga e o feixe de palha; de conhecer quanto a sombra gasta o espelho e de avaliar este gasto; e com quinhentos mil diabos, obrigar o hóspede a pagar tudo, inclusive as moscas comidas pelo seu cão!»
Este homem e esta mulher representavam a aliança da astúcia e da raiva, medonha e terrível parelha.
Enquanto Thenardier ruminava e combinava, a mulher não se lembrava dos credores ausentes, não pensava no dia presente nem no futuro, e vivia arrebatadamente dentro do minuto presente.
Tais eram estes dois entes. Entre eles estava Cose e, sofrendo-lhes a dupla pressão, como uma criatura que fosse ao mesmo tempo triturada por uma mó e despedaçada por uma tenaz. O marido e a mulher nham cada um seu modo diferente de a atormentar: a estalajadeira moía-a com pancadas, o estalajadeiro fazia-a andar descalça no Inverno.
Cose e subia, descia, lavava, esfregava, varria, corria, azafamava-se, suava, carregava com objectos pesados, e pequena como era, fazia toda a espécie de trabalho grosseiro.
Para ela não havia piedade; uma ama feroz e um amo malévolo. A baiuca de Thenardier era uma espécie de teia em que Cose e estava presa e tremia. Esta domes cidade sinistra realizava o ideal da opressão.