Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 6 de 359

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Os Miseráveis

VI — Quem guardava a casa do prelado

Como queria que as ba nas lhe durassem muito tempo, nunca saía a passear pela cidade senão com a capa roxa, o que de Verão não deixava de o incomodar.

Depois voltava a casa para jantar. O jantar assemelhava-se ao almoço.

Às oito e meia da noite, ceava em companhia da irmã, servidos por Magloire, que se conservava de pé por trás deles. Nada mais frugal do que esta refeição, excepto quando o bispo nha algum hóspede, porque então Magloire arranjava pretexto para apresentar na mesa algum peixe ou alguma peça de caça. A isto, que se repe a sempre que havia hóspedes no paço, o bispo nada dizia. Fora destas ocasiões, as refeições habituais constavam sempre de legumes ou de alguma simples sopa. Deste frugal modo de viver originava-se o seguinte dito, já proverbial na cidade:

— Hóspede no paço édomingo gordo em casa de jornaleiro.

Depois da ceia, demorava-se ainda meia hora a conversar com Bap s na e com Magloire, recolhendo-se em seguida ao seu quarto, onde se punha a escrever em folhas

soltas ou na margem de algum in fólio. Carlos Myriel era instruído e alguma coisa versado nas ciências, como o provam os cinco ou seis curiosos manuscritos por ele deixados, entre os quais se conta uma dissertação sobre o versículo do Génesis: No princípio do mundo o espírito de Deus pairava sobre as águas. Comeste versículo confronta o árabe que diz: Sopravam os ventos de Deus. Outro de Flávio José: Um vento vindo do alto precipita-se sobre a terra. E finalmente a paráfrase caldaica de Onkelos, onde se lê: Um vento mandado por Deus soprava sobre a super cie das águas. Noutra dissertação examina as obras teológicas de Hugo, bispo de Ptolomeida, o em terceiro grau do autor deste livro, concluindo que se devem atribuir a esse bispo os diversos opúsculos publicados no século passado sob o pseudónimo de Barleycourt.

Às vezes, qualquer que fosse o livro que vesse entre mãos, parava subitamente de ler e caía em profunda meditação, finda a qual se punha a escrever algumas linhas, nas próprias páginas do volume, sem, muitas vezes, aquilo que escrevia ter relação alguma com o que dizia o livro. Temos a seguir uma nota escrita por ele na margem de um livro: Correspondência de Lord Germai com os generais Clinton, Cornwalis e com os almirantes da estação da América. Versailles, em casa do livreiro Poinçoi; e em Paris, na do livreiro Pissot, cais dos Agostinhos.

A nota diz:

«Oh, vós quem sois!?

«O Eclesiastes chama-vos Todo Poderoso; os Macabeus, Criador; a Epístola aos Éfesos, Liberdade; Baruch, Imensidade; os Salmos, Sabedoria e Verdade; Jean, Luz; o Livro dos Reis, Senhor; o Êxodo, Providência; o Leví co, San dade; Esdras, Jus ça; a criação, Deus; o homem, Pai; Salomão, porém, chama-vos Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes».

Às nove horas, as duas mulheres re ravam-se para os seus quartos, que ficavam no primeiro andar, deixando o bispo sozinho, até de madrugada, no rés-do-chão.

Agora é necessário dar a exacta ideia da habitação do bispo de Digne.

VI — Quem guardava a casa do prelado

A casa que o bispo habitava compunha-se de rés-do-chão e primeiro andar; o rés-do-chão era dividido em três salas, o andar superior em três quartos, por cima dos quais ficava um sótão. Nas traseiras da casa havia um pequeno jardim. As duas mulheres ocupavam o primeiro andar, o bispo o rés-do-chão. A primeira sala, cujas janelas deitavam para a rua, servia-lhe de sala de jantar, a segunda de quarto de dormir e a terceira de oratório. Não se podia sair deste sem passar pelo quarto de dormir, nem do quarto de dormir, sem passar pela sala de jantar. No fundo da sala que servia de oratório havia uma alcova fechada, com uma cama de reserva para os hóspedes, que o bispo oferecia aos párocos de aldeia que os seus próprios negócios ou as necessidades das suas paróquias obrigavam a vir a Digne.

A farmácia do hospital, pequeno compar mento ao fundo do jardim, servia de cozinha e dispensa.

Havia, além disso, também no jardim, um estábulo, que em tempos fora a cozinha do hospício e onde agora o bispo guardava duas vacas. Por pouco que fosse o leite que elas dessem, mesmo assim, todos os dias pela manhã, o prelado mandava entregar metade aos doentes do hospital, ao que ele chamava «pagar o seu dízimo».

Como o seu quarto, demasiadamente grande, era muito frio de Inverno e a lenha em Digne fica por elevado preço, lembrou-se de mandar fazer no estábulo das vacas um

compar mento de madeira, onde passava as noites mais frias. Chamava-lhe ele o seu salão de Inverno.

Os móveis do salão de Inverno consis am apenas, como os da sala de jantar, numa mesa quadrada de pinho e quatro cadeiras de palhinha. Na sala de jantar apenas havia mais um velho bufete, pintado de vermelho. De um bufete igual, convenientemente adornado de toalhas e rendas de pouco custo, fizera o bispo o altar que decorava o oratório.

Por várias vezes, as confessadas ricas do bispo e outras devotas da cidade se haviam quo zado entre si para, à sua custa, lhe mandarem fazer no oratório um altar mais asseado, mas, de todas as vezes, o prelado dera o dinheiro aos pobres.

— O melhor de todos os altares é — dizia ele — é a alma de um infeliz agradecendo a Deus o alívio do seu infortúnio!

No oratório nha dois genuflexórios de palhinha e no quarto de dormir uma cadeira de braços, também de palhinha. Quando acontecia sete ou oito pessoas virem-no visitar ao mesmo tempo, o prefeito, o general, o estado-maior do regimento que fazia a guarda da cidade, ou os alunos do seminário, era preciso ir ao estábulo buscar as cadeiras do salão de Inverno, os genuflexórios ao oratório e a cadeira de braços ao quarto de dormir, conseguindo-se, deste modo, reunir até onze assentos, se tantas eram as visitas. À

medida que iam chegando, ia-se desguarnecendo de móveis cada sala.

Sucedia algumas vezes serem doze as visitas; então o bispo dissimulava o embaraço da situação, conservando-se em pé junto do fogão, se era de Inverno, ou passeando no jardim, se era de Verão.

Havia ainda na alcova uma cadeira de palhinha, mas como, além de ter o assento arrombado, só nha três pernas, não podia servir senão encostando-a à parede. A senhora Bap s na nha também no seu quarto uma grande poltrona com dourados, que já mal se conheciam, mas como a escada era demasiado estreita, não pudera ser conduzida para o primeiro andar, senão içando-a pela janela, resultando daí que não se podia contar com o seu auxílio para as ocasiões de apuro.

Bap s na vera sempre a ambição de poder comprar uma mobília completa de acajú, para ornamentar devidamente aquela modesta casa Mas para tal ser-lhe-iam necessários, pelo menos, quinhentos francos, e vendo que durante cinco anos não conseguira economizar mais de cinquenta francos, renunciara tristemente ao seu projecto

Nada mais simples de imaginar do que o quarto de dormir do bispo. Uma janela rasgada, que deitava para o jardim; defronte, uma cama de ferro de hospital, com cor nado de sarja verde; junto da cama, encobertos por uma cor na, vários objectos de toucador, denunciando ainda os hábitos elegantes do homem de boa sociedade; duas portas, uma junto do fogão, que dava para o oratório, a outra próxima da estante, dando para a casa de jantar. A estante, grande armário envidraçado cheio de livros; o fogão, guarnecido de madeira pintada a fingir mármore, quase sempre apagado, com trempe de ferro ornada de dois vasos cheios de plantas e embu dos, primi vamente prateados a fosco, o que cons tuía certo luxo episcopal; por cima do fogão via-se um

crucifixo de cobre desprateado, assente sobre um pedaço de veludo preto já muito velho, num caixilho que fora dourado; junto da janela, uma espaçosa mesa com um nteiro ao centro, pejada de volumosos livros e papéis em confusão. Ao pé da mesa a cadeira de palhinha e ao pé da cama um genuflexório, pertencente ao oratório.

De cada lado da cama, viam-se dois retratos em caixilhos ovais, pendurados na parede. Algumas inscrições gravadas em letras de oiro no fundo escuro de cada tela. por baixo das figuras, indicavam que os retratos representavam, um o abade de Chaliot, bispo de S. Cláudio, o outro, o abade Tourteau, vigário geral de Agde e abade de Grand-Champs, da ordem de Cister, na diocese de Chartres.

Quando o bispo fixara a sua residência naquela casa, que fora o hospital, encontrara ali aqueles retratos e deixara-os ficar no mesmo lugar, porque eram de sacerdotes e talvez de benfeitores, duas razões para que ele os respeitasse. Tudo o que ele sabia acerca destes dois personagens era que ambos nham sido providos, um no seu bispado, outro no seu bene cio, por nomeação régia datada do mesmo dia, 27 de Abril de 1785. Soubera esta circunstância por a ter encontrado escrita em caracteres que já mal se liam, num quadradinho de papel, amarelado pela acção do tempo, pregado com quatro obreias na parte posterior do retrato do abade de Grand-Champs, numa ocasião em que Magloire tirara os dois quadros para os limpar do pó.

Pendia da larga janela uma cor na de grosseiro tecido de lã muito an go, que Magloire para evitar a despesa de uma nova, se viu na necessidade de lhe fazer uma grande costura no centro. Como a costura apresentava exactamente a forma de uma cruz, o bispo indicava-a às vezes, dizendo:

— Nunca houve costura com aspecto mais agradável.

Os quartos, tanto os do rés-do-chão como os do primeiro andar, eram todos caiados de branco, como era habitual nos hospitais e nos quartéis.

Muitos anos depois, porém, Magloire encontrou por baixo do papel caiado várias pinturas que ornavam o quarto de Bap s na. Antes de ser hospital, aquela casa fora centro de reunião dos burgueses e daí provinha a decoração. Os quartos eram ladrilhados de jolos, que todas as semanas se lavavam, e aos pés de cada cama havia uma esteira. Numa palavra, a humilde habitação do bispo, a cargo das duas mulheres, respirava o perfume da mais esmerada limpeza. Era o único luxo que ele consentia.

— Com isto não se tira nada aos pobres! — costumava ele dizer.

Convém, contudo, dizerque lhe restava ainda, do que outrora possuíra, seis talheres de prata e uma colher de sopa, que Magloire via todos os dias, com o maior prazer, reluzir sobre a alva toalha de linho grosso que cobria a mesa.

E já que aqui pintámos o bispo de Digne tal qual era, devemos acrescentar que mais de uma vez se lhe ouvira dizer:

— Há-de custar-me muito comer com um talher que não seja de prata!

A esta baixela acrescentaremos também dois cas çais de prata maciça, que herdara de uma a. Estes cas çais que nham duas velas de cera, figuravam habitualmente sobre o fogão. Quando havia algum hóspede, Magloire acendia as velas e colocava os cas çais sobre a mesa. No quarto do bispo, junto à cabeceira da cama, havia um

pequeno armário onde Magloire todas as noites fechava os talheres, mas sem nunca tirar a chave.

O jardim, um tanto prejudicado pelas feias construções de que já falámos, era dividido por quatro caminhos em cruz, com um tanque no centro Ao longo do muro caiado que fechava o jardim, havia outro caminho que o circundava. Estas ruas eram separadas por canteiros orlados de buxo, em três dos quais Magloire cul vava legumes, ficando ainda outro, onde o bispo nha as suas flores e onde plantara também algumas árvores de fruto.

Numa ocasião, a criada dissera ao bispo, sorrindo com ar de afectuosa malícia:

— Monsenhor, que de tudo ra proveito, não sei como tem no jardim um canteiro inutilizado. Não seria melhor semear nele alfaces em vez de flores?

— Está enganada, Magloire — respondeu ele. — O agradável é tão ú l como o ú l. —

E, após um momento de silêncio, acrescentou: — Ou talvez mais.

O canteiro, que era dividido em quatro alegretes, ocupava a atenção do bispo, tanto como os seus livros. Sempre que podia, passava ali uma ou duas horas, cortando, sachando, mondando e lançando à terra novas sementes. Menos hos l com os insectos do que seria para desejar num jardineiro, o bispo também não nha aspirações a botânico; desconhecia os grupos e as famílias, não se lembrando sequer de decidir entre Tournefort e o método natural, nem de tomar par do pelos utrículos contra os cotyledonios ou por Jussieu contra Limeu. Não estudava as plantas, amava as flores.

Respeitava muito os sábios, respeitava ainda mais os ignorantes e, sem nunca deixar de respeitar uns e outros, no Verão regava todas as tardes os seus alegretes com um regador de lata pintado de verde.