Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 75 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

VI — Quatro horas da tarde

Uma batalha tem sempre certa semelhança com uma tempestade. Quid obscutum,

quid divinum. Cada historiador traça como lhe apraz os lineamentos desta confusão.

Qualquer que seja a combinação dos generais, o choque das massas armadas tem refluxos que se não podem de antemão calcular; na acção, os dois planos dos dois chefes entram um no outro e deformam-se um pelo outro. A linha de batalha flutua e serpenteia como um fio, corre o sangue em torrentes ilogicamente, ondeiam as frentes dos exércitos, os regimentos formam cabos ou golfos, conforme entram ou saem, agitam-se con nuamente estes escolhos uns por diante dos outros; aonde está a infantaria, aí chega a ar lharia, aonde está a ar lharia aí acorre a cavalaria; parecem nuvens de fumo os batalhões. Havia ali não sei o quê; procurar, desapareceu; deslocam-se as abertas; avançam e recuam aqueles vultos negros em meandros sombrios; um como vento do sepulcro leva, agita, alarga e dispersa aquelas mul dões trágicas. Que é uma peleja Uma oscilação.

A imobilidade de um plano matemá co exprime um minuto e não um dia. Para pintar batalhas é necessário um pintor que saiba formar caos com o pincel; é melhor Rembrandt que Van-Der-Meulen. Este exacto ao meio-dia, às três horas mente. Engana a geometria; só o furacão é verdadeiro, e é isto o que dá a Folard direito para contradizer Polibio. Acrescentemos que há sempre uma ocasião em que a batalha degenera em combate, se singulariza e espalha em mil factos, que formam cada um de per si uma circunstância, e que, para nos servirmos da expressão do próprio Napoleão, «mais pertencem à biografia dos regimentos do que à história do exército». Neste caso, o historiador tem obrigação evidente de ser resumido, porque não pode apanhar senão os contornos principais da luta, e não é dado a nenhum, por mais consciencioso que seja, fixar absolutamente a forma desta nuvem terrível, chamada uma batalha.

O que é verdadeiro a respeito dos grandes choques armados é par cularmente aplicável a Waterloo.

Todavia, de tarde, a batalha, em certa ocasião, fixou-se.

VI — Quatro horas da tarde

As quatro horas, a situação do exército inglês era grave. Ó príncipe de Orange, que comandava o centro, gritava aos holando-belgas, no desvairamento da intrepidez: Nassau! Brunswick! Nada de recuar!

Hill, que comandava a ala direita, vinha encostar-se a Wellington, mas já enfraquecido. Finalmente, Picton, que comandava a ala esquerda, nha morrido. Na mesma ocasião em que os ingleses roubaram aos franceses a bandeira do 15° de linha, os franceses mataram-lhe o general Picton com uma bala na cabeça. Wellington nesta batalha nha dois pontos de apoia Hougomont e Haíe-Sainte; Hougomont resis a ainda, mas estava em chamas: Haie-Sainte estava tomada. Do batalhão alemão que a defendia apenas sobreviviam quarenta e dois homens; os oficiais haviam sido mortos ou feitos prisioneiros todos, menos cinco; o número dos combatentes, ví mas do furor da peleja naquela granja, montava a três mil. Ali morreu às mãos de um pequeno tambor francês um sargento dos guardas ingleses, o primeiro jogador de soco de Inglaterra, reputado invulnerável pelos seus companheiros. Baring re rou, Alten foi morto à espada.

Perderam-se muitas bandeiras, uma das quais pertencia à divisão de Alten e outra ao batalhão de Lunebourg, comandado por um príncipe da família de Deux-Ponts.

Os escoceses bêbados já não exis am; os gordos dragões de Ponsonby nham sido despedaçados; essa valente cavalaria foi derrotada pelos lanceiros de Bro e pelos couraceiros de Travers; de mil e duzentos cavalos restavam seiscentos; de três tenentes-coronéis, dois jaziam por terra, Hamilton ferido, Mater morto. Ponsonby caíra, atravessado por sete lançadas, Gordon fora morto, Marsh morto, e duas divisões, a quinta e a sexta, destruídas.

Tomada Haie-Sainte e aberta brecha em Hougomont, restava um único nó, o centro, que resis a ainda, animado pelo reforço de Wellington, que chamara Hill, que estava em Merbe-Braine, e Chassé, que estava em Braine-l’Alleud.

O centro do exército inglês, um pouco côncavo, densíssimo e compacto, estava situado em posição forte. Ocupava a planura do Mont-Saint-Jean, tendo por trás a aldeia e por diante a encosta, então bastante áspera, e defendido por essa casa forte de pedra, nesse tempo propriedade senhorial de Nivelles, que marca a intersecção das estradas, massa do século dezasseis, tão robusta, que as balas recuavam em ricochete, sem lhe abrir mossa. Em volta da planura, os ingleses haviam cortado as sebes aqui e além, fazendo canhoneiras entre os espinheiros para colocar as bocas das peças entre os ramos e abrindo seteiras entre as sarças. A ar lharia deles estava de emboscada por trás dos tojos. Este trabalho púnico, incontestavelmente autorizado pela guerra, que admite o laço, estava tão bem feito que Haxo, expedido pelo imperador às nove horas da manhã a reconhecer as baterias inimigas, não dera fé de nada e veio dizer a Napoleão que não havia outro obstáculo além das duas trincheiras que obstruíam as estradas de Nivelles e de Genappe. Como era o tempo em que as searas estavam crescidas, facilmente se pôde esconder na espessura do trigo que cobria a orla da planura um batalhão da brigada de Kempt, o 95.º armado de clavinas.