Os Miseráveis
I — Alguns esclarecimentos sobre a origem da poesia de Gavroche. Influência de um académico sobre essa poesia
Se tinham tempo de falar, perguntavam uns para os outros:
— Em que virá a parar isto?
De instante a instante, à medida que ia sobrevindo a noite, assim Paris se ia colorindo, cada vez mais lugubremente, do temeroso e coruscante fulgor da revolta.
LIVRO DÉCIMO PRIMEIRO — O ÁTOMO CONFRATERNIZANDO COM O
FURACÃO
I — Alguns esclarecimentos sobre a origem da poesia de Gavroche. Influência de um académico sobre essa poesia
O refluxo produzido pela insurreição, quando rebentando do choque entre o povo e a tropa, em frente do Arsenal, determinou um movimento retrógrado na mul dão que seguia o coche, e que, para assim dizer, como que pesava, em toda a extensão dos boulevards, sobre a cabeça do prés to, foi terrível. Agitou-se a turba em confusão, romperam-se as fileiras, dispersaram, debandaram, deitaram todos a correr, uns soltando gritos de ataque, outros levando nos rostos a palidez do medo. Num abrir e fechar de olhos, dividiu-se o grande rio que cobria os boulevards, transbordando para um outro lado, e espalhando-se em torrentes impetuosas por duzentas ruas ao mesmo tempo, como uma larga represa a que vessem repen namente soltado todos os diques Nessa ocasião, um rapaz esfarrapado que vinha descendo pela rua Menilmontant, trazendo na mão um ramo de codeço florido que havia colhido junto a Beleville, ao avistar no mostrador de uma loja de adelo uma pistola usada, a rou fora o ramo de codeço que trazia na mão e exclamou, pegando na pistola e deitando a fugir:
— Ó tia coisa! A pistola cá vai!
Dois minutos depois, era o gaiato encontrado por uma onda de assustados burgueses, que vinham, fugindo pelas ruas Atnelot e Basse. O gaiato brandia alegremente a pistola que roubara na loja de adelo e ia cantando estes versos:
De noite ninguém vê nada,
Mas de dia vê-se bem
Por qualquer escrito falso
O burguês sente desdém
Da virtude segue o estudo
Tu! Tu! Tu! Chapéu bicudo.
Era Gavroche de caminho para a campanha.
Ao chegar ao boulevard, deu fé que a pistola não tinha gatilho.
Quem era o autor daquela copla, que lhe servia de regular a marcha, e de todas as mais canções que ele, em se lhe oferecendo ensejo, costumava cantar? Ignoramo-lo.
Quem sabe? Talvez fosse ele mesmo. Quanto mais, Gavroche sabia toda a colecção de can gas em voga e punha-lhes de sua casa o seu próprio chilrear. Diabrete e gaiato, formava um «pot-pourri» das vozes da natureza e das vozes de Paris, combinando o reportório das aves com o reportório das oficinas. Man nha relações com estudantes de pintura, tribo con gua à sua, e temos alguns dados para afirmar que es vera três meses numa pografia, aprendendo o o cio de impressor. Uma ocasião, fizera um recado ao senhor Baour Lormlan, membro da academia. Por consequência, Gavroche era um gaiato literato.
Mal imaginava porém Gavroche que aqueles dois rapazinhos, a quem ele, na invernosa noite em que os encontrou, oferecera a hospitalidade do seu elefante, fazendo para com eles o papel de Providência, eram seus próprios irmãos. De modo que, na mesma noite, nha socorrido seu pai e seus irmãos. Gavroche, apenas se despediu dos bandidos, voltara apressadamente ao elefante, ajudou-os a sair o melhor que pôde