Os Miseráveis
XII — Solidão de Monsenhor Bemvindo
Em nove anos, a poder de acções piedosas e maneiras afáveis, o bispo Myriel granjeara na cidade de Digne uma espécie de afectuosa e filial veneração. O seu
procedimento para com o imperador foi-lhe como que tacitamente perdoado pelo povo, bom e fraco rebanho que, se idolatrava o seu imperador, também amava o seu bispo.
XII — Solidão de Monsenhor Bemvindo
Há quase sempre em torno de um bispo tão grande quan dade de clérigos como de oficiais em volta de um general. Todas as carreiras têm seus aspirantes, que fazema corte aos que se encontram colocados nos lugares superiores. Não há potência que não tenha seu séquito, nem fortuna que não tenha seu cortejo. Em torno do presente esplêndido volteiam os especuladores do futuro. Toda a metrópole tem o seu estado-maior. Todo o bispo influente é cercado por um esquadrão de querubins seminaristas, que guarda e mantém a boa ordem no paço episcopal e faz sen nela em torno do prelado. Possuir as suas boas graças é meio caminho andado para um subdiaconato. Cada um faz o que pode para adiantar-se e o apostolado não desdenha o canonicato.
Do mesmo modo que há grandes influentes na polí ca, assim há grandes influentes na igreja. São os bispos bem aceites no mundo social, ricos, desfrutadores de boas rendas, hábeis, que decerto sabem rezar, mas que também sabem solicitar, pouco escrupulosos em fazer esperar na sua antecâmara uma diocese inteira, traços de união entre a sacris a e a diplomacia, mais abades do que padres, mais prelados do que bispos. Felizes dos que se lhes aproximam! Homens de valimento incontroverso, fazem chover em torno de si, sobre os pretendentes seus apaniguados e sobre toda essa mul dão de jovens que lhes sabem agradar os bene cios rendosos, as prebendas, as capelanias e as funções nas catedrais, enquanto esperam as dignidades episcopais. À