Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 48 de 359

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Os Miseráveis

X — Continuação do bom êxito

— Às vezes digo para comigo que, dormindo só cinco horas e empregando o resto do tempo na costura, sempre chegaria a ganhar quase para comer. E demais, quando se está triste, come-se menos. Por isso, com sofrimentos e inquietações, com um bocado de pão de um lado e cuidados de outro, a gente vai vivendo.

No meio desta penúria, a presença da filha ter-lhe-ia sido um anjo de consolação, um raio de felicidade nas trevas daquela miséria. Lembrou-se, pois, de a mandar vir Mas quê! Obrigar a inocente a provar tão cedo o amargor do fel da miséria!? E demais, como havia de pagar o que devia aos Thenardier? Como arranjar o dinheiro para a jornada da filha?

A velha, que lhe dera o que se poderia chamar lições de vida indigente, era uma bondosa mulher chamada Margarida, devota, mas de uma devoção em termos, pobre e caridosa com os pobres, e até mesmo com os ricos, sabendo apenas o necessário para escrever o seu nome, e crendo em Deus, que é no que consiste a verdadeira sabedoria.

Existem muitas virtudes assim na terra, atascadas no lodaçal da miséria; um dia, porém, virá em que da terra subirão muito mais alto. Sim, porque a esta vida ergue-se outra.

Tal fora a vergonha que se apossara de Fan ne nos primeiros tempos, que a pobre rapariga não ousava sair de casa. Quando ia por uma rua, adivinhava que todos se voltavam para a olhar e que a apontavam a dedo; toda a gente olhava para ela e ninguém a cumprimentava. Este desprezo mordaz e frio dos transeuntes penetrava-lhe na alma e na carne com a aspereza de uma rajada do nordeste.

Uma infeliz, nas terras pequenas, parece que anda nua diante do sarcasmo e da curiosidade de todos. Em Paris, ao menos, ninguém a conhece, e essa mesma obscuridade serve-lhe de vestuário. Como desejava voltar para Paris! Impossível, porém!

Fora-lhe indispensável habituar-se à desconsideração, do mesmo modo que se afizera à indigência. A pouco e pouco foi-se tornando mais resoluta e decorridos dois ou três meses expeliu de si toda a vergonha, começando a sair como se lhe fosse a coisa mais natural.

«Ora, que me importa!», dizia ela. Andava já de um para outro lado, de cabeça erguida, com um sorriso amargo nos lábios e conhecendo que se tornava descarada.

A senhora Victurnien, da sua janela, via-a às vezes passar e, notando a miséria da pobre rapariga, felicitava-se por ver «aquela criatura» ocupando o lugar que lhe competia, graças aos seus piedosos esforços. Os maus têm bem negras satisfações.

O excesso de trabalho veio a fa gar Fan ne, de modo que aquela tossezinha seca, que ela nha, aumentou. Às vezes, ela dizia à sua vizinha Margarida: «Olhe, veja como tenho as mãos quentes».

Todavia, quando pela manhã se punha a pentear, com um pente quebrado, os seus belos cabelos, que ondulavam qual seda aveludada, nha um momento de feliz garridice.

X — Continuação do bom êxito

Fan ne havia sido despedida da fábrica pelos fins do Inverno; o Verão (passou, mas o Inverno tornou a voltar. Nos dias pequenos trabalha-se menos. No Inverno não há calor,

não há luz, não há sol, a manhã parece tocar com a noite, o nevoeiro é con nuo, o crepúsculo interminável, os dias pardos, quase não se vê. O céu é uma fresta. Durante o dia parece estar-se num subterrâneo. O sol tem o aspecto de um pobre. Medonha estação! O Inverno transforma em pedra a água do céu e o coração do homem.

Os credores não deixavam Fan ne nem um só instante. Era demasiado pouco o que ganhava e as dívidas nham aumentado Os Thenardier, mal pagos, escreviam-lhe sucessivas cartas, cujo conteúdo a enchia de aflição, e o porte do correio lhe aumentava a miséria Um dia escreveram-lhe, dizendo que a sua Cose e andava nua de todo, numa quadra em que fazia tanto frio, que precisava de uma saia de lã e para isso era necessário que ela lhes mandasse dez francos. Fan ne recebeu a carta e consumiu todo o dia em amarrotá-la nas mãos. No dia seguinte, entrando na loja de um barbeiro que morava à esquina da rua, soltou os admiráveis cabelos loiros que lhe caíram pelas costas abaixo.

— Que lindos cabelos! — exclamou o barbeiro.

— Quanto me dá por eles? — perguntou Fantine.

— Dez francos.

— Então, corte-os.

Comprou em seguida uma saia de malha e mandou-a aos Thenardier, que ficaram furiosos com isso. O que eles queriam era dinheiro. Todavia, deram a saia a Eponine e a pobre Cotovia continuou a tiritar.

Entretanto, Fantine dizia consigo:

— Agora já a minha querida filha não terá frio. Vesti-a com os meus cabelos.

E para ocultar a cabeça rapada, começou a usar umas toucas muito simples, que nem mesmo assim a desfeavam.

No coração de Fan ne começou então a travar-se tenebrosa luta. Quando viu que já não podia pentear-se, começou a odiar tudo o que a rodeava. Por muito tempo par cipara da veneração geral pelo senhor Madelaine; todavia, à força de repe r a si mesma que fora ele quem a expulsara, e que era ele o causador da sua desgraça, passou a odiá-lo também. Quando passava em frente da fábrica à hora do descanso dos operários, fingia rir e cantarolar.

Uma operária, já velha, que um dia a viu rir e a cantar daquela maneira, exclamou:

— Aquela rapariga por força acabará mal!

Fan ne arranjou um amante, o primeiro homem que encontrou e a quem não amava, mas aceitou-o por despeito, com a raiva no coração. Era um miserável, uma espécie de músico mendigo, um gatuno ocioso, que a moeu de pancadas e por fim a deixou como ela o aceitara, com indiferença.

Ela porém, adorava a filha.

Quanto mais fundo descia, quanto mais sombrio se tornava tudo em roda dela, mais aquele anjo lhe resplandecia no fundo da alma. Dizia para consigo: «Quando eu for rica, Cosette estará sempre na minha companhia!»

E desatava a rir. A tosse, porém, não a abandonava e o suor corria-lhe pelas costas quase continuamente.

Um dia recebeu uma carta dos Thenardier, concebida nestes termos: Cose e foi atacada por uma doença que anda por estes sí os e a que chamam febres biliares. Os remédios precisos são muito caros e não os podemos pagar. Se não manda quarenta francos por estes oito dias, a pequena decerto morre.

Fantine, após a leitura, desatou a rir às gargalhadas, dizendo para a velha, sua vizinha:

— Que graça eles têm! Quarenta francos! Nem mais nem menos do que dois napoleões? Onde querem eles que os vá buscar? Esta gente do campo sempre é muito estúpida!

Subiu entretanto a escada e foi ler a carta outra vez à luz de uma trapeira. Desceu-a depois e saiu a correr, saltando e rindo sempre. Uma vizinha, encontrando-a naquele desatino, perguntou-lhe:

— Porque está tão alegre?

— Por causa duma tolice que acabam de me escrever umas pessoas do campo —

respondeu ela. — Então não me pedem quarenta francos? Sempre são muito estúpidos!

Ao passar na praça, viu muita gente rodeando uma carruagem de forma extravagante, em cima de cujo tejadilho, de pé, arengava um homem todo ves do de vermelho. Era um den sta charlatão que oferecia ao público dentaduras completas, pós den fricos e elixires.

Fan ne introduziu-se no grupo e começou a rir, como todos os outros, daquela arenga, em que havia gíria para a gente baixa e fraseado para a gente de bem. O

dentista, vendo aquela formosa rapariga a rir-se, exclamou de repente:

— Que bonitos dentes a menina tem! Se me quiser vender as suas duas palhetas, dou-lhe um napoleão em oiro por cada uma.

— Mas o que são as palhetas? — perguntou Fantine.

— As palhetas — tornou o dentista — são os dentes da frente, os dois de cima.

— Que horror! — exclamou Fantine.

— Dois napoleões! — rosnou uma velha desdentada, que ali se encontrava. — Esta é uma criatura feliz!

Fan ne deitou a fugir, tapando os ouvidos para não ouvir a voz rouquenha do homem, que continuava a gritar-lhe.

— Pense bem, minha flor, olhe que dois napoleões podem servir para muita coisa. Se acaso se resolver, encontrar-me-á à noite na estalagem do Convés de Prata .

Fantine regressou a casa, furiosa, e contou o caso à sua vizinha Margarida.

— Já viu uma coisa assim? Não é abominável o demónio do homem? Consen rem que semelhante gente ande assim a correr as terras! Arrancar-me os meus dois dentes da frente! Ficaria horrível! Os cabelos tornam a crescer, mas os dentes! O maldito do homem! Antes queria deitar-me de um quinto andar, de cabeça para baixo! Disse-me que à noite estaria no Convés de Prata!

— Quanto lhe ofereceu ele? — perguntou Margarida.

— Dois napoleões.

— São quarenta francos.

— É verdade — disse Fantine — são quarenta francos!

Ficou pensa va, mas foi pegar na costura. Passado um quarto de hora, pôs de parte a

costura e foi para a escada reler a carta dos Thenardier. Tornando a entrar, voltou-se para Margarida que estava a trabalhar ao pé dela, e perguntou:

— Mas que vem a ser uma febre biliar, sabe?

— Sei — respondeu a velha —, é uma moléstia.

— E é preciso tomar muitos remédios?

— Oh, um horror de remédios!

— E como se manifesta?

— Ora! É uma doença que ataca a gente, como se vê.

— Ataca também as crianças?

— Principalmente as crianças.

— Mas não se morre disso?

— Oh, se morre! — exclamou Margarida.

Nessa mesma noite saiu e várias pessoas a viram dirigir-se para o ponto de Paris onde estão situadas as estalagens.

No dia seguinte, Margarida, ao entrar no quarto de Fan ne antes do amanhecer, pois trabalhavam sempre juntas, para deste modo não gastarem senão uma luz, deu com ela sentada na cama, pálida e gelada. Não se nha deitado. A touca caíra-lhe para cima dos joelhos e a vela, toda a noite a arder, estava quase completamente consumida.

Margarida estacou no limiar, petrificada em presença de tão grande desalinho, e exclamou:

— Valha-me Deus! A vela toda gasta! Sucedeu por força alguma coisa!

Depois olhou para Fan ne, que nha voltado para ela a cabeça desguarnecida de cabelos.

A pobre rapariga havia envelhecido dez anos desde a véspera.

— Santo nome de Jesus! — exclamou Margarida.

— O que é que tem, Fantine?

— Não tenho nada — respondeu ela. — Pelo contrário, estou muito sa sfeita. A minha filha já não morre por falta de socorros.

E, dizendo isto, mostrou à velha dois napoleões que brilhavam em cima da mesa.

— Santo Deus! — exclamou a velha. — Como obteve esse dinheiro?