Os Miseráveis
VIII — Os artilheiros fazem-se tomar a sério
— Tornemos a carregar! — disse Enjolras,
De que modo se comportaria o reves mento da barricada sob o impulso das balas?
Abriria brecha? Eis qual era a questão.
Enquanto de um lado os insurgentes carregavam de novo as armas, carregavam os artilheiros do outro lado a peça.
Profunda ansiedade se via pintada nos rostos dos insurgentes.
No mesmo instante, os ar lheiros chegaram. O morrão à peça, ao que se seguiu uma tremenda detonação.
— Presente! — exclamou uma voz em tom galhofeiro.
Era Gavroche, caindo na barricada ao mesmo tempo que a bala.
Vinha do lado da rua do Cisne e havia saltado ligeiramente por cima da barricada acessória, que fazia frente para o dédalo da Pequena Truanderie.
Gavroche produziu mais efeito na barricada do que a bala, que se foi sumir num monte de entulho, quebrando apenas uma roda ao ónibus e fazendo algum destroço no carro que fora apreendido ao fabricante de cal Anceau.
À vista disto, toda a barricada desatou a rir e Bossuet exclamou:
— Pois não, senhores artilheiros, continuem!
VIII — Os artilheiros fazem-se tomar a sério Mal os insurgentes viram entrar Gavroche, rodearam-no logo, porém o gaiato nem tempo: teve para contar coisa nenhuma, porquanto Mário o levou imediatamente consigo, sem poder dominar o tremor que lhe causara a presença do gaiato.
— Que vens tu cá dizer? — disse-lhe ele.
— Ora essa! — respondeu a criança. — E o senhor?
E, ao dizer isto, fitou Mário com o seu olhar de épico desgarre. Parecia que os seus olhos se dilatavam com a luz que continham.
Mário prosseguiu em tom severo:
— Quem te mandou voltar? Levar-me-ias tu, ao menos, a carta ao seu destino?
A respeito da carta, Gavroche sen a a consciência a guilho nada de um tal ou qual remorso. A sua pressa de voltar para a barricada fizera com que ele mais se desfizesse dela do que a entregasse. Via-se, pois, obrigado a concordar consigo mesmo que andara um tanto levianamente, entregando-a àquele desconhecido, cujo rosto nem sequer pudera dis nguir bem. Verdade é que o homem estava em cabelo, mas não bastava isso.
Finalmente, quanto a este ponto, Gavroche censurava-se a si próprio no seu foro ín mo e estava com receio das repreensões de Mário. Para sair deste estado, pois, adoptou o expediente mais simples: mentiu abominavelmente.
— Cidadão, entreguei a carta ao porteiro, porque a senhora já estava a dormir. Disseme que lhe seria entregue apenas ela acordasse,
Mário vera em vista dois fins, mandando aquela carta a Cose e: despedir-se dela e salvar Gavroche, porém teve de se contentar apenas com a sa sfação de metade dos seus desejos.
O incidente da carta fez-lhe vir ao espírito a presença de Fauchelevent na barricada, e a tal ponto o impressionou esta coincidência, que perguntou a Gavroche, apontando-lhe o pai de Cosette:
— Conheces aquele homem?
— Não, senhor — respondeu Gavroche,
Efec vamente, como ainda agora acabamos de dar a entender, Jean Valjean era completamente desconhecido para o gaiato, por isso que este só o vira de noite.
A resposta de Gavroche fez dissipar as confusas e pouco sensatas conjecturas que a presença do senhor Fauchelevent naquele local tinha suscitado no espírito de Mário.
Que mo vo nha ele para estranhar a sua presença ali, se não sabia quais eram as suas opiniões? Não podia dar-se o caso que o senhor Fauchelevent fosse também republicano? Decerto. Nessa hipótese, então, que coisa mais natural do que acudir ele ali, onde se achavam tantos outros que professavam as mesmas ideias?
Ao mesmo tempo que Mário se entregava a todas estas cogitações, correra o gaiato à outra extremidade da barricada, onde reclamava em altos gritos a sua espingarda, que, por ordem de Enjolras, lhe foi imediatamente entregue.
Após isto, Gavroche par cipou aos seus «camaradas», como ele os apelidava, que se achava cercada a barricada, tendo ele próprio experimentado não pequenas dificuldades para penetrar até junto deles. Por qualquer dos lados se achava tomada a passagem. Na pequena Truanderie, achava-se um batalhão de linha, com as armas ensarilhadas e em observação para a rua do Cisne; do lado oposto, estava a rua dos Pregadores ocupada pela guarda municipal. A frente era tomada pelo corpo do exército.
Dada esta informação, Gavroche acrescentou: