Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 303 de 359

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Os Miseráveis

XII — A desordem partidária da ordem

Logo por baixo da janela do quarto de Cose e, na an ga e enegrecida cornija, havia um ninho de andorinhas, que formava uma saliência para fora da cornija, de modo que de cima se podia descobrir o interior daquele diminuto paraíso. Naquela ocasião, achava-se no ninho a mãe, cobrindo os filhinhos com as asas, estendidas em forma de leque, e o pai volitava em torno, ia e vinha, trazendo-lhes no bico sustento e beijos.

A este espectáculo, dourado pelos clarões do Sol nascente, a esta cena em que a sublime lei Mul plicar se apresentava graciosa e augusta, Cose e debruçou-se como que maquinalmente, os cabelos inundados pelos reflexos do Sol, a alma absorta em quimeras, interiormente iluminada pelo amor, exteriormente pela aurora, e, quase sem ousar a si mesma confessar que, ao mesmo tempo que nha os olhos naquele ninho, nha o pensamento em Mário, deixou-se ficar em contemplação diante daqueles passarinhos, daquela família, daquele macho e fêmea, daquela mãe e seus filhinhos, na profunda perturbação de espírito que a vista de um ninho produz numa virgem.

XI — Pontaria certeira que não mata ninguém

A este tempo, con nuava na barricada o fogo dos assaltantes. Alternava-se a mosquetaria com a ar lharia, porém, em verdade, com pouco sucesso. O único destroço produzido pelo fogo dos inimigos era o que sofria a parte superior da casa de pasto, para o lado da frente, onde a janela do primeiro andar e as águas-furtadas, debaixo de um chuveiro de balas e biscainhos, se iam gradualmente desmoronando, de modo que os combatentes, que ocupavam estes dois postos, houveram por bem re rar-se. Tác ca é essa sempre seguida no ataque de todas as barricadas: — Oprimir os insurgentes debaixo de um fogo con nuo, de modo a fazer-lhes esgotar as munições, se eles caem no erro de responder com igual roteio. Conhecido, pelo afrouxar deste, que lhes vão

escasseando as munições, dá-se então o assalto.

Enjolras, porém, que conhecia o laço, ordenara que a barricada se conservasse silenciosa.

A cada descarga, cuja detonação se ouvia, dava Gavroche um estalido com a língua, como indício de profundo desprezo, e dizia:

— Muito bem; rasguem mais pano, que temos cá precisão de fios!

Courfeyrac exprobrava à metralha o seu diminuto efeito e dizia para a peça:

— A modo que te vais tornando difusa, pobre pateta!

Este silêncio da parte do reduto principiava, sem dúvida, a dar cuidado aos si antes e a fazer-lhes temer algum inesperado incidente. Era natural, portanto, que eles, convencidos da necessidade de saber o que realmente se passava por trás daquela muralha, que recebia impassível os abalos sucessivos de tão repe das descargas, tratassem de, por qualquer modo, o levar a cabo. Assim foi, porque, de súbito, os insurgentes avistaram no telhado de uma casa próxima, um capacete brilhando ao reflexo do Sol. Era um bombeiro encostado a uma chaminé, de onde, olhando a prumo para a barricada, observava tudo o que nela se passava.

— Ali está uma sentinela realmente incómoda — disse Enjolras.

Jean Valjean, que nha res tuído a clavina ao mancebo, mas que conservava ainda a sua espingarda, ajustou-a, sem proferir uma palavra, contra o bombeiro, e um instante depois caía o capacete com estrondo no meio da rua, e o soldado fugia a toda a pressa, espavorido pelo risco que correra.

O seu lugar foi logo ocupado por segundo observador. Este era um oficial. Jean Valjean, que tornara a carregar a espingarda, fez nova pontaria ao segundo curioso e mandou a barre na do oficial juntar-se à do soldado.. O oficial não insis u; e re rou-se apressadamente. Desta vez foi compreendido o aviso. Não tomou a aparecer ninguém sobre o telhado; renunciaram a espionar a barricada.

— Porque não matou o homem? — perguntou Bossuet a Jean Valjean.

Jean Valjean não lhe respondeu.

Bossuet murmurou ao ouvido de Combeferre:

— Não respondeu à minha pergunta.

— É um homem que exerce a bondade a tiro — retorquiu Combeferre.

XII — A desordem partidária da ordem

Os que têm conservado alguma lembrança desta época já afastada, sabem que a guarda nacional do termo era valente contra as insurreições. Nas jornadas de Julho de 1832 foi singularmente intrépida e encarniçada.

Tal ou tal taberneiro de Pan n, das Vertus ou da Cune te, a quem a revolta deixava deserto O «estabelecimento», tornava-se leonino vendo a sua sala de dança abandonada, e fazia-se matar para salvar a ordem representada pela baiuca. Os interesses, naquele tempo burguês e heróico, em presença das ideias que tinham os seus cavaleiros, nham também os seus paladinos. O prosaísmo do móvel não diminuía coisa alguma à bravura do movimento. O decrescimento de uma pilha de escudos fazia com que os baiuqueiros -cantassem a Marselhesa. Derramavam liricamente o seu sangue a

pró do balcão e defendiam com entusiasmo lacedemónio a loja, imenso diminu vo da pátria.

No fundo de tudo isto, digamo-lo, não havia nada que não fosse da maior seriedade.

Eram os elementos sociais que entravam em luta, esperando o dia em que entrarão em equilíbrio.

Outro caracterís co daquele tempo era a anarquia ligada ao governamentalismo (nome bárbaro do par do correcto). Era-se pela ordem com indisciplina. O tambor rufava inopinadamente por ordem de tal ou tal coronel da guarda nacional, fazendo chamadas de capricho; tal ou tal capitão entrava em fogo por inspirações; tal ou tal guarda nacional ba a-se «pela ideia» e por sua própria conta. Nos momentos de crise, nas «jornadas», tomava cada um conselho, menos dos seus chefes do que dos seus ins ntos. Havia no exército da ordem verdadeiros guerreiros, uns de espada, como Fannicot, outros de pena, como Henrique Fonfréde.

A Civilização, infelizmente representada naquela época mais por uma agressão de interesses do que por um grupo de princípios, estava ou julgava estar em perigo, e soltava o grito de alarme; cada um se tornava por si mesmo centro, defendia-a, socorria-a e protegia-a, colocando-se-lhe na frente, e o primeiro que disso se lembrava tomava sobre si o encargo de salvar a sociedade.

O zelo chegava às vezes até ao extermínio. Tal ou tal pelotão de guardas nacionais cons tuía-se por sua autoridade privada conselho de guerra, e julgava e executava em cinco minutos um insurgente prisioneiro. Fora um destes improvisos que produzira a morte de Jean Prouvaire. Feroz lei de Lynch, que nenhum par do tem direito de repreender aos outros, porque é aplicada pela república na América do mesmo modo que pela monarquia na Europa. Esta lei de Lynch não era isenta de enganos.

Num dia de revolta, um moço poeta chamado Paulo-Aimé-Garnier, foi perseguido na Praça Real, à ponta de baioneta, e só pôde escapar-se refugiando-se no vão do portão número 6. Gritavam atrás dele:

— Aqui está ainda um sansimonlano!

E diligenciavam matá-lo.

Ora, Garnier levava debaixo do braço um volume das memórias do duque de Saint-Simon. Um, guarda nacional nha lobrigado, no livro o nome de Saint-Simon, e gritara: