Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 232 de 359

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Os Miseráveis

VI — Princípio da batalha

Durante o passeio, Jean Valjean portou-se como de costume, porém de regresso para casa perguntou a Cosette:

— Então tu fazes tenção de não tornar a usar aquele vestido e o chapéu?

Como esta cena se passava no quarto da jovem, esta voltou-se para o cabide do guarda-vestidos de que pendia o seu trajo de recolhida e disse:

— Ora, aquele ves do de máscara! Que quer meu pai que eu faça dele? Não, semelhante coisa ao meu corpo é que não torna! Parecia mesmo a senhora Chienfou com aquela avantesma na cabeça!

Jean Valjean respondeu dando um profundo suspiro.

Desde então ele principiou a notar que Cose e, que dantes preferia sempre ficar com ele em casa, agora preferia sempre sair. E, na verdade, de que serve a qualquer mulher ser bonita e trajar esmeradamente, se não para se mostrar?

Jean Valjean notou também que Cose e já não frequentava tanto o pá o interior.

Actualmente, preferia ir para o jardim, não desgostando de passear por diante da grade.

Jean Valjean, misantropo, não punha nunca os pés no jardim. Permanecia no seu pá o, como o cão.

Apenas Cose e soube que era bela, perdeu a graça de o ignorar, graça extrema, pois a beleza realçada pela ingenuidade é inefável, e não há coisa mais adorável do que uma inocente formosa caminhando com a chave de um paraíso na mão, sem o saber. O que perdeu, porém, em graça ingénua, ganhou-o no encanto da seriedade e do aspecto melancólico. Resultava daquela combinação de inocência, juventude e beleza uma melancolia esplêndida, que se lhe derramava por toda ela.

Foi por essa ocasião que Mário a tornou a ver no Luxemburgo, após seis meses de ausência.

VI — Princípio da batalha

Cose e vivia na sua sombra, como Mário no meio da sua, prestes a incendiar-se à primeira faísca soprada.

O des no, com a sua misteriosa e fatal paciência, aproximava uma da outra aquelas duas criaturas languidamente saturadas das tempestuosas electricidades da paixão, aquelas duas almas que abrigavam o amor, como as nuvens escondem em si o raio, e que haviam de vir a encontrar-se e confundir-se num olhar, como as nuvens num relâmpago.

Tem sido tão frequente o abuso do olhar nos romances de amor, que se acha hoje desconsiderado. Mal se ousa dizer, actualmente, que tal ou tal amor nasceu de um olhar que entre si trocaram dois entes E, todavia, é assim e só assim que nasce o amor. O resto é o resto e só mais tarde vem. Nada há mais real que grandes choques entre duas almas, originados pela combinação daquela faísca. No mesmo momento em que Cose e, sem o saber, lançou a perturbação na alma de Mário com um simples olhar, mal supunha o rapaz que também o seu olhar a tinha perturbado.

A jovem sentiu o mesmo mal e o mesmo bem.

Havia muito tempo já que ela o via e examinava, como costumam examinar e ver as jovens, olhando para outra coisa. Ainda Mário achava Cose e feia, já ela o achava interessante. Mas como ele não reparava nela, tornara-se-lhe indiferente.

Não obstante isto, porém, no recôndito do seu pensamento, ela confessava que aquele rapaz nha uns lindos cabelos, uns lindos olhos, uns belos dentes, um gracioso tom de voz, quando o ouvia a conversar com os seus companheiros, que não nha bonito modo de andar, é verdade, mas que nha nisso, todavia, uma graça par cular, que parecia rapaz esperto, que o seu todo respirava um conjunto de nobreza, afabilidade, simplicidade e al vez, e, finalmente, que inculcava ser pobre, mas que nha maneiras distintas.

No primeiro dia em que os olhos de ambos se encontraram, dizendo-se repen namente essas obscuras e inefáveis coisas que o primeiro olhar balbucia, Cose e não compreendeu imediatamente. Recolheu-se pensa va à casa da rua de Oeste, onde Jean Valjean, segundo o seu costume, nha vindo passar seis semanas. Ao outro dia,

apenas acordou, lembrou-se do rapaz desconhecido, que, após tanto tempo de indiferença e frieza, parecia actualmente, atentar nela, sem que tal circunstância, porém, lhe parecesse lisonjeira, antes sen ndo certos assomos de cólera por causa do aturado desdém daquele desconhecido. In mamente agitada por um sen mento de guerra, pareceu-lhe que ia, finalmente, vingar-se, e esta ideia causava-lhe certa alegria infantil.

A convicção da sua beleza dava-lhe um conhecimento mal dis nto da arma que possuía, arma em que as mulheres se cortam quando brincam com a beleza, como as crianças quando brincam com uma faca.

Lembrados estarão os leitores das hesitações, das palpitações e terrores de Mário, não ousando largar o banco em que costumava ir sentar-se nem aproximar-se dos outros dois passeantes. Este proceder despeitava-a. Um dia ela disse a Jean Valjean:

— Meu pai, vamos passear um bocadinho para aquele lado.

Vendo que Mário a não procurava, procurou-o ela. Em caso análogo, todas as mulheres se parecem com Maomé. Demais, estranha coisa, o primeiro sintoma do amor verdadeiro num rapaz, é a midez, numa rapariga a ousadia. Causa isto admiração e não há nada mais simples. São os dois sexos tendendo a aproximar-se e tomando as qualidades um do outro.

Nesse dia, o olhar de Cosette fez enlouquecer Mário e o olhar de Mário fez estremecer Cose e. Mário par u dali com o coração cheio de confiança, Cose e com ele em anseios de inquietação. Desde esse dia adoraram-se.

A primeira coisa que Cose e sen u foi uma confusa e profunda tristeza. Afigurou-selhe que de um dia para outro se lhe nha coberto a alma de um véu negro, a ponto de a desconhecer. À candidez da alma das jovens, mistura de frieza e alegria, parece-se com a neve. Derrete-se ao contacto do amor, que é o seu sol.

Cose e ignorava o que fosse amor. Até então nunca ouvira pronunciar esta palavra no sen do terreno. Nos livros de música profana, que entravam no convento, a palavra

«amor» era subs tuída por «tambor» ou «rumor», o que dava lugar a enigmas que sobremodo preocupavam a imaginação das «grandes», tais como: «Ah, muito agradável é o tambor!» ou: «A compaixão não é um rumor». Cose e, porém, que saíra do convento demasiado jovem para se preocupar seriamente com a decifração do enigma encerrado na palavra «tambor», nem sabia que nome dar ao que actualmente sentia.

Acaso, porém, depende a gravidade da moléstia do saber-se ou ignorar-se o nome que se lhe deve dar? Cose e amava com a maior intensidade, por isso mesmo que amava ignorando o que sen a. Não sabia se o que experimentava era bom ou mau, ú l ou perigoso, necessário ou mortal, eterno ou transitório, lícito ou proibido: amava. Não pouco a admiraria que alguém lhe dissesse: «A menina não dorme? Olhe que isso é proibido. A menina não come? Olhe que isso é mau. A menina sente opressões no peito e palpitações? Isso não se faz. A menina para que cora e empalidece, quando certa pessoa ves da de preto assoma ao princípio de certa álea verde? Olhe que isso é uma coisa muito feia». A jovem responderia sem entender: «Pois eu tenho culpa numa coisa a que não posso ser superior e que faço sem saber?» Acertou de ser o amor que se representava o que melhor convinha ao estado da alma da jovem. Era uma espécie de adoração longínqua, uma contemplação muda, a deificação de um desconhecido. Era a aparição da adolescência à adolescência, o sonho das noites, feito romance, mas ainda o sonho, o desejado fantasma enfim realizado e feito carne, porém ainda sem nome, sem senão, sem mancha, sem exigência, sem defeito; numa palavra, o amante longínquo, ainda nas regiões do ideal, uma quimera reves da de formas. Qualquer outro encontro mais palpável e próximo, naquela primeira ocasião, teria afugentado Cose e, ainda meio envolta na exageradora névoa do claustro. Dava-se nela uma combinação de todos os medos infan s e de todos os medos monacais. Evaporava-se dela ainda lentamente o espírito do convento, de que em cinco anos se saturara e ainda lhe fazia tremer tudo em roda. Nesta situação, portanto, não era um amante que lhe convinha nem ainda um namorado, era uma visão. Por isso o seu amor a Mário era como a adoração de um objecto belo, luminoso e impossível.