Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 98 de 359

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Os Miseráveis

VII — Cosette no meio da escuridão ao lado dum desconhecido

Por volta das seis horas da tarde estava a diligência em Chelles. O cocheiro parou, para deixar resfolegar os cavalos, à porta da estalagem de carreteiros instalada nos antigos edifícios da abadia real.

— Eu desço aqui — disse o homem.

Pegou no embrulho e na bengala e saltou abaixo da diligência.

Daí a um instante havia desaparecido, mas não tinha entrado para a estalagem.

Quando ao cabo de alguns minutos a diligência seguiu para Lagny, não o encontrou na estrada real de Chelles. O cocheiro voltou-se então para os viajantes de dentro e disse:

— Este homem não é daqui, eu não o conheço. A julgar pela figura, parece um pobretão, mas não tem amor ao dinheiro; paga para Lagny e não vem senão até Chelles.

É noite, as casas estão todas fechadas, ele não entrou para a estalagem nem o tornámos a encontrar na estrada; o diabo do homem meteu-se, decerto, pela terra dentro!

O homem não se nha me dopela terra dentro, mas nha percorrido veloz-mente no meio da escuridão a estrada que atravessava Chelles, e depois tomara à esquerda, antes de chegar à igreja, o caminho vicinal que conduz a Mon ermeil, como quem já conhecia a terra e tinha ido a ela.

Seguiu, pois, este caminho rapidamente, e, como no sí o onde ele é cortado pela an ga estrada orlada de árvores que vai de Gagny para Lagny ouvisse passos que se aproximavam, escondeu-se precipitadamente num valado à espera que se afastassem as pessoas que iam a passar. A precaução era aliás quase supérflua, pois, como já dissemos, fazia uma escuríssima noite de Dezembro. Apenas no céu se viam duas ou três estrelas.

É naquele lugar que começa a encosta da montanha. O homem não se meteu no caminho de Mon ermeil; tomou à direita, pelo meio dos campos, e principiou a caminhar com ligeireza na direcção do bosque.

Chegado ali, afrouxou o passo e pôs-se a olhar com cuidado para todas as árvores, avançando passo a passo como se procurasse e seguisse um caminho misterioso só dele conhecido. Em certa ocasião pareceu que se perdera, a julgar pelo modo como parou indeciso. Por fim, de apalpadela em apalpadela, chegou a uma clareira, onde havia um montão de grandes pedras esbranquiçadas, e, depois de se dirigir com presteza para elas, examinou-as com atenção por entre a neblina da noite, como se as quisesse passar em revista. Depois foi direito a uma árvore coberta dessas excrescências que são as verrugas dos vegetais, que estava a alguns passos dele, e correu-lhe a mão pela casca do tronco, como se pretendesse conhecer e contar todas as verrugas.

Defronte desta árvore, que era um freixo, havia um castanheiro com um bocado descascado, o qual por aparelho desta ferida nha pregada uma faixa de zinco, que o homem tocou, depois de se pôr em bicos de pés.

Em seguida pôs-se a bater com o pé no chão durante algum tempo, no espaço compreendido entre a árvore e as pedras, como que assegurando-se se a terra não teria sido movida de fresco.

Feito isto, orientou-se e tornou a seguir o seu caminho pelo meio do bosque.

Era este o homem que acabava de se encontrar com Cosette.

Ao caminhar por entre o mato em direcção a Mon ermeil, avistara aquela sombra pequenina que se movia com um gemido, que pousava um objecto pesado no chão, e que depois tornava a pegar nele e continuava o seu caminho.

Aproximara-se, pois, e reconhecera que era uma tenra criancinha carregada com um enorme balde de água e encaminhando-se para ela pegou silenciosamente na asa do balde.

VII — Cosette no meio da escuridão ao lado dum desconhecido Como já dissemos, Cosette não se assustara.

O homem dirigiu-lhe a palavra: falava com voz grave e quase baixa:

— Minha filha, o que aí levas é pesado de mais para ti.

Cosette ergueu a cabeça e respondeu:

— Isso é, meu senhor.

— Dá-mo cá então — tornou o homem — que eu levo-o.

Cosette largou o balde e o homem principiou a caminhar ao lado dela.

— Com efeito, é muito pesado! — disse ele por entre dentes, e depois acrescentou: —

Que idade tens tu, pequena?

— Oito anos, meu senhor.

— E vens assim de muito longe?

— Ali da fonte do bosque.

— E é muito distante o lugar para onde vais?

— A um bom quarto de hora daqui.

O homem esteve um momento sem falar e depois disse precipitadamente:

— Então tu não tens mãe?

— Não sei — respondeu a criança. — E acrescentou antes do homem ter tempo de retomar a palavra: — Julgo que não. As outras têm, mas eu não. — Após uma pausa, continuou: — Eu julgo que nunca a tive.

O homem parou, pousou o balde no chão, baixou-se e pôs as mãos nos ombros da criança, forcejando por a examinar e ver-lhe o rosto no meio da escuridão.

Ao lívido clarão do céu desenhava-se vagamente a figura magra e doente de Cosette.

— Como te chamas? — disse o homem.

— Cosette.

O homem teve como que um choque eléctrico. Contemplou-a outra vez, rou as mãos de cima dos ombros de Cosette, pegou no balde e continuou a caminhar.

Ao cabo de um instante, perguntou:

— Onde moras tu, pequena?

— Em Montfermeil, não sei se o senhor sabe onde é.

— E é para lá que nós vamos?

— É, sim, senhor.

O homem fez ainda outra pausa e depois continuou:

— Quem foi que te mandou à água ao bosque a semelhante hora?

— Foi a senhora Thenardier.

O homem replicou com um tom de voz que forcejava por tornar indiferente, mas em que, não obstante, havia um tremor singular:

— Quem é essa senhora Thenardier?

— É a minha patroa — disse a criança —, a dona da estalagem.

— Da estalagem? — disse o homem. — Então vou lá pernoitar hoje. Ensina-me o caminho.

— Nós para lá vamos — disse a criança.

O homem caminhava bastante depressa, Cose e, porém, seguia-o sem custo e sem sen r cansaço. De espaço a espaço levantava os olhos para este homem com uma espécie de tranquilidade e abandono inexprimível. Nunca ninguém a ensinara a voltar-se para a Providência e a orar, porém ela sen a em si o que quer que fosse que se parecia com a esperança e com a alegria, e que se dirigia para o céu.

Decorridos alguns minutos, o homem tornou:

— Então a senhora Thenardier não tem criada?

— Não, senhor.

— Então és tu só?

— Sou, sim, senhor.

Houve ainda outra interrupção, depois da qual Cosette elevou a voz:

— Isto é, lá em casa há duas meninas.

— Que meninas são essas?

— Ponina e Zelma.

Era assim que a criança simplificava estes romanescos nomes tão caros à estalajadeira.

— Que vem a ser isso de Ponina e Zelma?

— São as filhas da senhora Thenardier.

— E que fazem elas?

— Oh! — disse a criança. — Têm lindas bonecas, coisas de ouro, nem sabem para onde se hão-de voltar! Jogam, brincam, fazem o que querem.

— Todo o dia?

— Sim, senhor.

— E tu?

— Eu cá trabalho.

— Todo o dia?

A criança ergueu os seus grandes olhos, nos quais havia uma lágrima, que por causa da escuridão não se via e respondeu com doçura:

— Sim, meu senhor. — E, após um intervalo de silêncio, prosseguiu: — Às vezes também brinco, quando acabo o serviço e me deixam.

— E com que brincas?

— Com o que posso. Ninguém se importa. Mas eu não tenho muitos brinquedos, e Ponina e Zelma não querem que eu brinque com as bonecas delas. Não tenho senão uma espadita de chumbo, que não é maior do que isto.

E a criança mostrava o dedo mínimo.