Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 243 de 359

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Os Miseráveis

I — Travessura do vento

De vez em quando, o joelho de Mário tocava no de Cosette, e ambos estremeciam.

De espaço a espaço, Cose e gaguejava uma palavra. A alma tremia-lhe nos lábios, como uma gota de orvalho na corola duma flor.

À pouco e pouco foram falando. A expansão sucedeu ao silêncio, que é a plenitude. A noite ostentava-se serena e esplêndida por sobre as suas cabeças. Aqueles dois entes, puros como espíritos, contaram reciprocamente tudo; os seus sonhos, enlevos, êxtases, quimeras, esmorecimentos, o modo porque se nham adorado de longe, como se haviam desejado, e o seu desespero quando nham deixado de se ver. Confiaram um ao outro, numa in midade ideal, o que nham de mais oculto e misterioso. Comunicaram-se, com uma fé cândida em suas ilusões, tudo com que o amor, a juventude e o resto de criancice que ambos nham, lhes ocupava o pensamento. Aqueles dois corações vazaram-se um no outro; de modo que, passada uma hora, era o rapaz quem nha a alma da jovem e a jovem quem possuía a alma do rapaz. Penetraram-se, encantaram-se, deslumbraram-se.

Depois de terem acabado, quando já nham dito tudo, ela pousou a cabeça n o ombro do rapaz e perguntou-lhe:

— Como se chama?

— Mário — respondeu ele. — E a menina?

— Eu chamo-me Cosette.

LIVRO SEXTO — O PEQUENO GAVROCHE

I — Travessura do vento Depois de 1823, enquanto a baiuca de Mon ermeil soçobrava e pouco a pouco desaparecia, não na voragem de uma falência, mas no esterquilínio das pequenas dúvidas, dois filhos, ambos varões, vieram aumentar a família Thenardier. Ficavam sendo cinco, portanto; duas raparigas e três rapazes. Era muito.

Dos dois úl mos desfizera-se a Thenardier, sendo eles ainda pequenos, com singular felicidade.

Desfizera-se é o termo próprio. Aquela mulher possuía apenas um fragmento de natureza, fenómeno de que ela não é o único exemplo. À semelhança da marechala de Lamothe-Houdancoiurt, a mulher do estalajadeiro era mãe somente enquanto às filhas.

Ali findava a sua maternidade, e o seu ódio ao género humano principiava pelos próprios filhos. Deste lado, a maldade daquela mulher era como um rochedo a pique, o seu coração um declive lugubremente escarpado. A Thenardier detestava o mais velho; agora execrava os outros dois. Porquê? Porque sim. O mais terrível dos mo vos e a mais indiscutível das respostas: «Porque sim».

— Para que quero eu semelhante ninhada de filhos? — dizia ela.

Expliquemos como os Thenardier nham chegado a exonerasse dos seus dois úl mos filhos e até a tirar proveito deles.

Aquela Magnon, de quem mais atrás falámos, era a mesma que conseguira que o velho Gillenormand lhe pagasse a alimentação das duas crianças que ela nha. Morava no cais dos Celes nos, à esquina dessa an ga rua do Pe t-Musc, que tem feito o possível para desvanecer a má nota que dantes gozava. Lembrados estão por certo da grande epidemia do garro lho que há trinta e cinco anos devastou Paris nos locais situados junto ao rio, epidemia que a ciência aproveitou para experimentar em larga escala a eficácia das insuflações de pedra-ume, hoje tão u lmente subs tuídas pela ntura externa de iodo. Nessa epidemia perdeu a Magnon, no mesmo dia, um pela manhã, outro à noite, os dois pequenos, ambos ainda de tenra idade. Foi uma desgraça.

Aquelas duas crianças eram preciosas para sua mãe, para quem representavam um valor de oitenta francos mensais Estes oitenta francos eram pagos com a maior pontualidade, em nome de Gillenormand, pelo seu procurador Barge, an go oficial de jus ça, então morador na rua do Rei da Sicília Mortas as crianças, lá se iam os oitenta francos, e por isso a Magnon procurou um expediente. Nesta tenebrosa maçonaria do mal, a que ela pertencia, sabe-se tudo, guarda-se segredo e auxiliam-se os membros uns aos outros.

Magnon precisava de duas crianças; a Thenardier nha duas, do mesmo sexo e idade.

Óp mo arranjo, tanto para uma como para outra. De modo que os pequenos Thenardier ficaram sendo os pequenos Magnon. Esta deixou o cais dos Celes nos e foi morar para a rua de Cloche-Perce. Em Paris, a iden dade que liga um indivíduo a si mesmo quebra-se com a mudança de uma rua para outra.

Como não houve denúncia, a autoridade não reclamou e a subs tuição operou-se com a maior simplicidade imaginável. Thenardier apenas exigiu ,por este trespasse de crianças dez francos por mês, que a Magnon prometeu, e até pagou. É escusado dizer,

que, quanto a Gillenormand, este con nuou a ser demandado pela costumada mesada.

De seis em seis meses vinha ver os pequenos, mas nunca deu pela mudança.

— São mesmo o seu retrato! — dizia-lhe a Magnon.

Thenardier, a quem eram fáceis as metamorfoses, aproveitou o ensejo para se tornar Jondre e. Tanto as duas filhas como Gavroche mal veram tempo de reparar que nham mais dois irmãos. Os que chegam a certo grau de miséria são acome dos por uma espécie de indiferença de espectro, que lhes faz ver os entes como larvas. Os nossos mais próximos parentes tornam-se-nos então muitas vezes apenas umas formas vagas, mal dis ntas no fundo nebuloso da vida e facilmente propensas à desaparição no invisível.

Na tarde do dia em que a Thenardier fizera a entrega das duas crianças à Magnon, com expressa vontade de que ela fosse perpétua, teve ou fez que teve um escrúpulo.

Disse ao marido:

— Valha-me Deus! Isto é deitarmos ao abandono os nossos filhos!

Thenardier tomou um ar magistral e fleumá co e cauterizou o escrúpulo de sua mulher com este dito: «Jean Jacques Rousseau ainda fez mais». Do escrúpulo a mulher passou ao receio:

— Mas se a polícia vem a saber e nós temos que padecer por causa deste arranjo? Ora diga-me, senhor Thenardier, é permitido o que nós fizemos?

— É permi do tudo —, respondeu Thenardier. -Ninguém estranhará o caso, quanto mais que, como se trata de crianças pobres, ninguém se dará ao trabalho de fazer averiguações.

A Magnon era uma espécie de elegante do crime, esmerada no vestuário, como todas as elegantes Morava, conjuntamente com uma sábia inglesa afrancesada, numa casa miserável, mobilada com certa afectação. Esta inglesa, naturalizada parisiense, recomendável pelas suas relações com a riqueza e in mamente ligada com as medalhas da biblioteca e os diamantes de Mademoiselle Mars, veio depois a tornar-se célebre nos registos judiciais. Tratavam-na por Mademoiselle Miss.

Quanto aos dois pequenos cedidos à Magnon mediante os dez francos, não veram de que se queixar da mudança. Recomendados pelos oitenta francos, eram esmeradamente tratados como tudo o que é explorado; bem ves dos, bem alimentados, tratados quase como «fidalguinhos», nham mais que agradecer à mãe mercenária do que à verdadeira. Diante deles, Magnon inculcava ares de senhora e abs nha-se de falar em gíria.