Os Miseráveis
X — Regresso do filho pródigo
Instantes depois, o carro descia pela rampa de que acima falámos e chegava junto do grupo formado pelos três.
Mário foi posto no assento do fundo e Javert sentou-se com Jean Valjean no da frente.
Fechada a por nhola, o carro afastou-se rapidamente, subindo pelos cais em direcção à Bastilha.
Saíram dos cais e entraram nas ruas. O cocheiro parecia apenas um vulto negro fus gando os magros cavalos. Dentro do carro era completo o silêncio. Mário, imóvel, encostado ao fundo, com a cabeça pendida para o peito, os braços caídos, as pernas inteiriçadas, parecia esperar apenas que o metessem em algum caixão; Jean Valjean parecia feito de sombra e Javert de pedra; e naquele carro cheio de escuridão, cujo interior, cada vez que ele passava por algum lampião, aparecia lividamente iluminado, como por um clarão intermitente, o acaso reunia e parecia confrontar lugubremente as três imobilidades trágicas — o cadáver, o espectro e a estátua.
X — Regresso do filho pródigo
A cada balanço do carro, uma gota de sangue caía dos cabelos de Mário.
Era noite fechada quando o carro chegou à casa número 6 da rua das Mulheres do Calvário.
Javert, que foi o primeiro a apear-se, cer ficou-se com um relance de olhos do número da casa, e deitando a mão a um pesado martelo de ferro, adornado, segundo a an ga moda, com um bode e um sá ro em acção de se inves rem, deu com ele uma forte pancada. Uma das meias portas abriu-se, e Javert, empurrando-a, deu com os olhos no porteiro, que acudira, ainda meio Adormecido, com uma vela na mão.
Em casa já todos se achavam deitados.