Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 219 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

III — Luís Filipe

1830 é uma revolução de da a meia encosta. Metade de progresso; quase direito.

Ora, a lógica ignora isto, absolutamente como o Sol ignora a existência da candeia.

Quem detém as revoluções a meia encosta? A burguesia.

Porquê?

Porque a burguesia é o interesse sa sfeito. Ontem era o ape te, hoje é a abundância, amanhã será a saciedade.

O fenómeno de 1814, depois de Napoleão, reproduz-se em 1830, depois de Carlos X.

Quis-se, erradamente, fazer da burguesia uma classe.

A burguesia é simplesmente a porção contentada do povo. O burguês é um homem que já tem tempo para se sentar.

Uma cadeira não é uma casta.

Mas, por querer sentar-se demasiadamente cedo, pode até fazer parar a marcha do género humano. Tem sido esta, muitas vezes, a culpa da burguesia.

Não se é uma classe por se ter come do uma falta. O egoísmo não é uma das divisões da ordem social.

No fim de tudo é necessário ser justo, mesmo para com o egoísmo; o estado a que aspirava, depois da comoção de 1830, a parte da nação a que chamam burguesia, não era a inércia, que contém indiferença e preguiça e que envolve certa vergonha, não era o sono que supõe um esquecimento momentâneo acessível aos sonhos; era a paragem no fim da marcha

Esta expressão encerra dois sen dos singulares e quase contraditórios: mul dão em marcha, quer dizer movimento; estação, quer dizer repouso.

Esta paragem é a reparação das forças, é o repouso armado e acordado, é o facto consumado que posta sen nelas, e que se conserva em armas. A paragem supõe o combate de ontem e o combate de amanhã.

É o intermédio de 1830 e de 1848.

Ao que aqui chamamos combate pode também chamar-se progresso.

Era necessário à burguesia como aos homens de estado, um homem que desse a voz de paragem: uma individualidade composta, significando revolução e significando estabilidade: noutros termos, consolidando o presente pela compa bilidade evidente do passado com o futuro.

Este homem estava encontrado. Chamava-se Luís Filipe de Orleãs.

Os 221 fizeram Luís Filipe rei. Lafaye e encarregou-se da sagração. Denominou-a a melhor das repúblicas. O palácio da municipalidade de Paris subs tuiu a catedral de Reims.

Esta substituição de um trono completo por um meio trono foi «a obra de 1830».

Quando os hábeis terminaram, apareceu o vício imenso da sua solução. Tudo isto era feito fora do direito absoluto. O direito absoluto gritou: Protesto! E depois, temível coisa!, tornou a esconder-se na sombra.

III — Luís Filipe

As revoluções têm o braço terrível e a mão certeira; ferem com firmeza e escolhem bem. Mesmo incompletas, mesmo adulteradas e reduzidas ao estado de revolução mais nova como a de 1830, resta-lhes sempre bastante lucidez providencial, para que não possam cair mal. O seu eclipse não é nunca uma abdicação.

Contudo, não nos vangloriemos demasiadamente; as revoluções também se iludem, e têm-se visto graves enganos.

Voltemos a 1830, que foi feliz na sua aberração. No estabelecimento do que se chamou ordem depois da revolução interrompida de repente, o rei valia mais do que a

realeza. Luís Filipe era um homem raro.

Filho de um pai ao qual a história concedera certamente as circunstâncias atenuantes, mas tão digno de es ma quanto seu pai fora merecedor de censura; tendo todas as virtudes par culares e muitas das virtudes públicas; cuidando da sua saúde, da sua fortuna, da sua pessoa e negócios; conhecendo o preço de um minuto e nem sempre o de um ano; sóbrio, sereno, pacífico, paciente; bom homem e bom príncipe; dormindo com sua mulher, e tendo em seu palácio criados encarregados de mostrar aos burgueses o seu leito conjugal, ostentação da alcova regular, tornada ú l após as an gas pompas ilegí mas do ramo mais velho; sabendo todas as línguas da Europa, e, o que é mais raro, falando as linguagens de todos os interesses; admirável representante da «classe média», mas ultrapassando-a e de todos os modos superior a ela; tendo o excelente no, mesmo apreciando-se o sangue donde provinha, de se contar sobretudo intrínseco, e, sobre a questão muito par cular da sua raça, declarando-se Orleãs e não Bourbon; muito primeiro príncipe de sangue enquanto não fora mais do que altezasereníssima, mas franco burguês no dia em que se tomou majestade; difuso em público, conciso na in midade; com fama não provada de avaro, e no ín mo um desses económicos facilmente pródigos para com a sua fantasia ou dever; letrado e pouco sensível às letras; gen l-homem, mas não cavalheiro; simples, sossegado e forte; adorado por toda a sua família e criados; sedutor na conversação, homem de estado sem preocupações, interiormente frio, dominado pelo interesse imediato, governando sempre ou pouco menos, tão incapaz de rancor como de reconhecimento, aplicando desapiedadamente as superioridades sobre as mediocridades, hábil em derrotar pelas maiorias parlamentares as unanimidades misteriosas que rugem surdamente sob os tronos; expansivo às vezes, imprudente na sua expansão, mas de maravilhosa destreza nessa imprudência; fér l em expedientes, em fisionomias, em máscaras; metendo medo àFrança com a Europa, e à Europa com a França; incontestavelmente afeiçoado ao seu país, mas preferindo-lhe a sua família; prezando mais a dominação do que a autoridade, e esta mais do que a dignidade; disposição funesta, por isso que atendendo só aos resultados, admite a astúcia e não repudia de todo a baixeza; mas valiosas, porque preserva a polí ca de combates violentos, o Estado de fracturas, e a sociedade de catástrofes; minucioso, correcto, atento, sagaz, infa gável; contradizendo-se e desmen ndo-se algumas vezes; atrevido contra a Áustria em Ancona, teimoso contra a Inglaterra em Espanha, bombardeando Anvers e pagando Pritchard; cantando com convicção a Marselhesa; inacessível ao aba mento, a cansaço, ao gosto do belo e do ideal, às generosidades temerárias, à utopia, à quimera, à cólera, à vaidade, ao receio; tendo todas as formas da intrepidez pessoal; general em Valmy, soldado em Jemmapes; oito vezes apalpado pelo regicídio, e sempre risonho; bravo como um granadeiro, corajoso como um pensador, inquieto unicamente na presença das probabilidades de um abalo europeu, e impróprio para as grandes aventuras polí cas; sempre pronto a arriscar a sua vida e nunca a sua obra; disfarçando a sua vontade em influência, a fim de ser mais depressa obedecido como inteligência do que como rei; dotado de observação e não de divinação; pouco atento aos espíritos, mas muito conhecedor dos homens, isto é, tendo necessidade de

ver para julgar; bom senso pronto e penetrante, sabedoria prá ca, palavra fácil, memória prodigiosa; recorrendo sem cessar a essa memória, ser único ponto de semelhança com César, Alexandre e Napoleão; conhecendo os factos e os seus pormenores, sabendo as datas, os nomes próprios, ignorando as tendências, as paixões, as índoles diversas da mul dão, as aspirações interiores, as agitações ocultas e obscuras das almas, numa palavra, tudo o que poderia chamar-se correntes invisíveis das consciências; aceito pela super cie, mas pouco de acordo com a França dos planos inferiores; saindo destes embaraços pela finura; governando demasiadamente e reinando pouco; primeiro ministro de si mesmo; primando em fazer da pequenez das realidades um obstáculo para a imensidade das ideias; aliando a uma verdadeira faculdade criadora de civilização, de ordem e de organização, certo espírito de chicana; fundador e procurador de uma dinas a; tendo alguma coisa de Carlos Magno e o que quer que fosse de um advogado; em suma, vulto elevado e original, príncipe que soube exercer o domínio apesar da inquietação da França, e o poder a despeito do ciúme da Europa. Luís Filipe será classificado entre os homens eminentes do seu século, e seria colocado entre os governantes mais ilustres da história, se prezasse um pouco a glória e se vesse o sen mento do que é grande no mesmo grau em que nha o sen mento do que é útil.

Luís Filipe fora belo, e, envelhecendo, conservara-se gracioso; nem sempre aceito pela nação, era-o sempre pela mul dão; agradava. Tinha o dom do encanto. A majestade não se dava bem com ele; não usava a coroa, ainda que rei, nem nha os cabelos brancos, conquanto fosse velho. As suas maneiras eram do an go regime, e os seus hábitos da actualidade; mistura do nobre e do burguês, que convinha a 1830. Luís Filipe era a transição reinante; conservara a an ga pronúncia e a an ga ortografia, que ele punha ao serviço das opiniões modernas; era afeiçoado à Polónia e à Hungria, mas escrevia polonois, e pronunciava hongrais. Usava a farda da guarda nacional como Carlos X, e o cordão da Legião de Honra como Napoleão.

Ia pouco à capela, pouquíssimo à caça e à Ópera, nunca. Era incorrup vel aos sacristães, aos moços das ma nhas e às dançarinas; o que entrava em grande parte na sua popularidade burguesa. Não tinha corte. Saía com o seu chapéu de chuva debaixo do braço: o chapéu de chuva fez por muito tempo parte da sua auréola. Era um tanto pedreiro, um tanto jardineiro e um tanto médico: sangrava um pos lhão caído do cavalo; Luís Filipe não andava mais sem a sua lanceta do que Henrique III sem o seu punhal. Os realistas zombavam deste rei ridículo, o primeiro que derramou sangue para dar vida.

Nas queixas da história contra Luís Filipe, há a fazer um desconto; há as que acusam a realeza, as que acusam o reinado e as que acusam o rei; três colunas dando cada uma delas um total diferente. O direito democrá co confiscado, o progresso tornado interesse de segunda ordem os protestos da rua reprimidos violentamente, a execução militar das insurreições, a revolta passada pelas armas, a rua Transnonain, os conselhos de guerra, a absorção do país real pelo país legal, e o governo em relações com trezentos mil privilegiados, é o que diz respeito à realeza; a Bélgica recusada, Argel conquistada

com demasiada dureza, e como a Índia pelos ingleses, com mais barbárie do que civilização, a falta de palavra a Abdel-Kader, Blaye, Deutz comprado e Pritchard pago, pelo que toca ao reinado; a polí ca mais familiar do que nacional, é o que diz respeito ao rei.

Como se vê, feito o desconto, diminui a carga feita ao rei.

A sua grande falta, ei-la: Foi modesto em nome da França.

Donde provém essa falta?

Digamo-lo.

Luís Filipe foi um rei demasiadamente paternal; esta incubação que se quer transformar em dinas a tem medo de tudo e não quer ser incomodada; daqui a sua midez excessiva, importuna para o povo, que tem o 14 de Julho na sua tradição civil e Austerlitz na sua tradição militar.

No fim de tudo, abstraindo-se dos deveres públicos, que exigem ser preenchidos em primeiro lugar, a profunda ternura de Luís Filipe pela sua família, era por ela merecida.

Era um grupo domés co admirável. Os talentos encontravam-se ali a par das virtudes.

Uma das filhas de Luís Filipe, Maria de Orleãs introduzia o nome da sua raça entre os ar stas, como Carlos de Orleãs o introduzira entre os poetas. Maria de Orleãs fizera da sua alma um mármore a que pusera o nome de Joana d’Arc. Dois dos filhos de Luís Filipe nham arrancado a Me ernich este elogio demagógico: São mancebos como se vêem poucos, e príncipes como se não vêem nenhuns.

Eis aqui, sem dissimular, mas sem agravar coisa alguma, a verdade sobre Luís Filipe.

Ser o príncipe «Igualdade», ter em si a contradição da restauração e da revolução, ter o lado inquietador do revolucionário que se torna tranquilizador no governo, foi a fortuna de Luís Filipe em 1830; nunca um homem se adaptou mais completamente a um acontecimento; entrou um no outro e operou-se a incarnação. Luís Filipe é 1830 feito homem. Além disso nha a seu favor grande designação para o trono: o desterro. Fora proscrito, errante, pobre. Vivera do seu trabalho. Na Suíça, o proprietário dos mais ricos senhorios de França, vera de vender um velho cavalo para ter de comer. Em Reicheau dera lições de matemá ca, enquanto sua irmã Adelaide bordava e cosia. Estas recordações ligadas a um rei entusiasmavam a burguesia. Demolira pelas suas próprias mãos a úl ma gaiola de ferro do Monte S. Miguel, construída por Luís XI e u lizada por Luís XV. Era o companheiro de Dumouriez, era o amigo de Lafaye e; pertencera ao clube dos jacobinos; Mirabeau batera-lhe no ombro; Danton chamara-lhe rapaz! Aos vinte e quatro anos, em 93, sendo senhor de Chantres, do fundo de um recanto escuro da Convenção assis ra ao julgamento de Luís XVI, tão acertadamente apelidado de pobre tirano. Vira a cega perspicácia da revolução, destruindo a realeza, sem quase contar o homem na feroz esmagação da ideia, a vasta tempestade da assembleia-tribunal, a cólera pública interrogando, Capeto não sabendo que responder, a assustada vacilação estupefacta daquela cabeça régia sobre tão sombrio sopro, a inocência rela va de todos naquela catástrofe, tanto dos que condenavam como do que era condenado; tudo ele vira, contemplara aquelas ver gens, vira os séculos comparecerem à barra da Convenção, vira por trás de Luís XVI, desventurado transeunte responsável, erguer-se nas

trevas a formidável acusada, a monarquia, e gravara-se-lhe na alma o espanto respeitoso das imensas justiças do povo, quase tão impessoais como a justiça de Deus.

O ves gio que a revolução deixara nele era prodigioso. A sua memória era como uma impressão viva daqueles grandes anos, minuto por minuto. Um dia, diante de uma testemunha de que nos é impossível duvidar, rec ficou, de memória, toda a letra A da lista alfabética da Assembleia Constituinte.

Luís Filipe foi um rei de dia claro. Durante o seu reinado foram livres a imprensa, a tribuna, a consciência e a palavra. As leis de Setembro são de clarabóia. Conquanto conhecesse o poder destruidor da luz sobre os privilégios, deixou o trono exposto à luz.

A história há-de levar-lhe em conta esta lealdade.

Luís Filipe, como todos os homens históricos saídos da cena, é hoje chamado a juízo pela consciência humana.

O seu processo está ainda apenas na primeira instância.

A hora em que a história fala com o seu acento venerável e livre não soou ainda para ele; não chegou o momento dela pronunciar sobre este rei o seu veredicto defini vo; ainda não há muito que o austero e ilustre historiador Luís Blanc modificou o seu primeiro juízo sobre ele; Luís Filipe foi escolhido das duas aproximações denominadas 221 e 1830, isto é, de um meio parlamento e de uma meia revolução; de qualquer modo, no ponto superior em que a filosofia se deve colocar, não o poderíamos nós julgar aqui, como se pode entrever, senão com certas reservas em nome do princípio democrá co absoluto; aos olhos do absoluto, fora dos dois direitos: o direito do homem, em primeiro lugar, e depois o direito do povo, tudo é usurpação; mas o que podemos desde já dizer, apontadas estas reservas, é que no fim de tudo, e qualquer que seja o modo porque se olhe, Luís Filipe, considerado em si mesmo, pelo lado da bondade humana, ficará sendo, para nos servirmos da velha linguagem da an ga história, um dos melhores príncipes que ocuparam um trono.