Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 140 de 359

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Os Miseráveis

VI — Entre quatro tábuas

mas o velho jardineiro deixava na sombra o proverbial quarto de hora, chamado de Rabelais. Quanto a ele, por mais impressionado que es vesse, não lhe dava cuidado saber quem pagaria.

O coveiro, porém, prosseguiu com um sorriso superior:

— A gente precisa de comer. Por isso é que eu aceitei o cargo que nha o senhor Mes enne. Quando qualquer chega quase a concluir os seus estudos, é filósofo. Eu, ao trabalho das mãos, acrescentei o trabalho dos braços. O meu escritório de escrevente público é na feira da rua de Sèvres. Você bem sabe, na feira dos guarda-chuvas. Todas as cozinheiras da Cruz Vermelha se dirigem a mim, quando querem arrumar as suas declarações a algum tunante. Pela manhã escrevo cartas de namoro, de tarde abro covas. A vida é assim, meu amigo.

Cada vez, porém, mais o carro fúnebre se aproximava do lugar do seu destino.

Fauchelevent olhava, no cúmulo da inquietação, para todos os lados em roda de si e o suor escorria-lhe da testa em grossas bagas.

— Contudo — con nuou o coveiro — não se pode servir a duas amas. É-me preciso escolher; ou a pena ou a enxada. A enxada essa faz-me calos nas mãos.

Neste momento parou o carro e da carruagem desceu o menino do coro e em seguida o padre.

Logo após um monte de terra, sobre o qual pousava uma das rodas dianteiras do carro, via-se uma cova aberta.

— Ora aí vai principiar a comédia — disse Fauchelevent, consternado.

VI — Entre quatro tábuas

Quem estava no caixão? Era Jean Valjean, que arranjara maneira de viver dentro daquilo e que mal respirava.

É estranho até que ponto a segurança da consciência dá a segurança de tudo mais.

Toda a combinação premeditada por Jean Valjean caminhava, e caminhava bem, desde o dia antecedente. Contava ele, como Fauchelevent, com o senhor Mes enne, e por isso não duvidava do fim. Jamais se vira situação mais crítica e mais completa tranquilidade.

As quatro tábuas do caixão produzem uma espécie de paz terrível. Parecia que a tranquilidade de Jean Valjean como que par cipava do repouso dos mortos. Do fundo daquele esquife nha ele podido seguir, e seguia todas as fases do temível drama que estava representando com a morte.

Pouco depois que Fauchelevent acabara de pregar a tábua de cima, Jean Valjean sen u levarem-no, depois rolar. Pela diminuição dos solavancos conheceu que passavam da calçada para caminho de terra, isto é, que acabaram as ruas e principiavam os boulevards. Por um ruído surdo que ouviu adivinhou que atravessavam a ponte de Austerlitz. Quando o carro parou a primeira vez conheceu que entrava no cemitério, e da segunda paragem disse consigo: «Aí está a escavação».

Em seguida sen u de chofre pegarem no caixão, e, logo depois, o roçar rouco de um objecto pelas tábuas, que conheceu ser uma corda que lhe atavam em roda do caixão para o descer à cova.

Após isto, ficou como que atordoado.