Os Miseráveis
I — Atracção entre a solidão e o quartel
A bolsa caiu aos pés de Mabeuf. Despertado por esta comoção, agachou-se a pegar nela e abriu-a, sem entender o que aquilo significava. Era uma bolsa com duas divisões, uma das quais continha algum dinheiro miúdo e a outra seis napoleões.
Mabeuf, agitado por tão estranho acontecimento, levantou-se, procurou a criada e mostrou-lhe o achado, como pedindo-lhe explicação.
— Foi coisa que caiu do céu! — disse a
a Plutarco, explicando plena e
desassombradamente o fenómeno que o velho não compreendera.
LIVRO QUINTO — O FIM NÃO CONDIZ COM O PRINCÍPIO
I — Atracção entre a solidão e o quartel
A dor de Cose e, tão pungente ainda e tão viva quatro ou cinco meses antes, entrava sem que ela mesmo o suspeitasse, em convalescença. A natureza, a Primavera, a mocidade, o amor que nha a seu pai, a alegria dos passarinhos e das flores, faziam filtrar a pouco e pouco, dia a dia, gota a gota, naquela alma virgem e novel, o que quer que era semelhante ao esquecimento. O fogo apagara-se ali de todo, ou formavam-se unicamente camadas de cinza? O facto é que quase já não sentia ponto algum dorido.
Um dia, repentinamente, lembrou-se de Mário e exclamou consigo mesma:
— É estranho! Já nem me lembro dele!
Nessa mesma semana, andando a jovem a passear no jardim, avistou, ao passar pela grade, um belo oficial de lanceiros, de espada sobraçada, charuto na boca, bigodes retorcidos, cintura de vespa, farda apurada e lustroso schapska. Além disto, nha cabelos louros, olhos azuis à flor do rosto, cara redonda e bonita, ar insolente e vaidoso; o contrário de Mário em tudo. Cose e viu-o e lembrou-se que devia ser algum oficial do regimento aquartelado na rua de Babilónia.
No dia seguinte tornou a vê-lo passar e tomou sentido na hora.
Desde aí por diante, todos os dias seria acaso? Todos os dias via passar o elegante oficial, que para o leitor não há-de ser desconhecido, porque se chamava Teodulo Gillenormand.
Os camaradas notaram que nunca por ali passava o belo tenente que não aparecesse por entre a decrépita grade que defendia o inculto jardim uma jovem, a quem se não podia negar nome de formosa, e diziam-lhe com acento galhofeiro:
— Ó Teodulo, tu nem sequer reparas na pequena do jardim, que se farta de te mirar, quando passas?
— Nem que eu vesse tempo de dar atenção a todas as raparigas que olham para mim!
Era naquela mesma ocasião que Mário se submergia vagarosamente no desespero e pensava: «Se pudesse torná-la a ver antes de morrer!» Se os seus desejos, porém, fossem realizados, se ele visse, naquela ocasião, Cose e olhando para um lanceiro, primeiro expiraria de dor, antes de poder pronunciar uma palavra.
E quem seria o responsável? Ninguém.
Mário era desses temperamentos que, uma vez presos da angús a, por ela se deixam assenhorear completamente; Cose e era dos que, apenas subjugados, sacodem logo o jugo.
Além disto, Cose e achava-se então nessa fase perigosa, nessa época fatal da vida da mulher, em que o coração de uma jovem que vive isolada, se assemelha aos elos da vide enroscando-se à ventura ou no capitel de uma coluna de mármore ou no esteio de uma aramada de taberna. Momento rápido e decisivo, crí co para qualquer órfã, seja pobre ou rica, porque a riqueza não obsta à má escolha; nem as uniões desiguais são priva vas das classes inferiores; a verdadeira desigualdade é a das almas; assim como, pois, alguns rapazes obscuros, sem nome, sem nascimento nem fortuna, são capitéis de mármore,