Os Miseráveis
IX — O imprevisto
Notando então ao pé desta trincheira a capela de S. Nicolau, caiada de branco, a qual fica na volta do atalho que vai para Braine-l’Alleud, curvou-se e falou a meia-voz ao guia Lacoste, que fez um sinal de cabeça negativo, decerto pérfido.
Depois endireitou-se e tornou a embrenhar-se nas suas cogitações.
Wellington nha recuado. Restava, pois, acabar aquele retrocesso por uma derrota completa.
De súbito, Napoleão voltou-se e expediu para Paris um correio a toda a brida, encarregado de anunciar que estava ganha a vitória.
Napoleão, que era um desses génios de que sai o trovão, acabava de encontrar o seu raio, dando ordem aos couraceiros de Milhaud para tomar o alto do Mont-SaintJean.
IX — O imprevisto
Eram três mil e quinhentos gigantes montados em cavalos colossos, que, formados em linha, ocupavam um quarto de légua de terreno; eram vinte e seis esquadrões, protegidos pela retaguarda, pela divisão de Lefebvre-Desnoue es; cento e seis gendarmes escolhidos, mil cento e oitenta e sete caçadores e oitocentos e oitenta lanceiros. Traziam capacetes sem penacho e couraças de ferro ba do, com pistolas de arção nos coldres e o comprido sabre-espada.
Às nove horas da manhã, admirou-os todo o exército, quando no meio do clangor das trombetas e das harmonias das músicas que cantavam:
— Velemos pela salvação do império Vieram em coluna cerrada e com uma das baterias ao lado e a outra no centro, formar-se em duas filas, entre as estradas de Genappe e a de Frischemont, e tomar o seu lugar para a batalha nessa valente segunda linha, tão sabiamente composta por Napoleão, a qual, para assim dizer, nha duas alas de ferro, porque na extremidade esquerda ficavam-lhe os couraceiros de Kellermann e na extremidade direita os couraceiros de Milhaud.
Recebida a ordem do imperador, que lhes foi levada pelo ajudante de campo Bernard, Ney desembainhou a espada e pôs-se à frente dos enormes esquadrões, que levantaram campo.
Toda aquela cavalaria, de sabres em punho, estandartes e trombetas ao vento, formada em duas colunas, desceu com movimento uniforme, parecendo um só homem, e com a exac dão de um aríete aferindo uma brecha, a colina de Belle Alliance, entranhou-se no terrível vale, onde já tantos homens haviam caído, e desapareceu por entre o fumo, saindo em seguida daquela sombra para reaparecer do outro lado, ainda cerrada e compacta, subindo a galope, por entre um chuveiro de granadas, que lhe rebentavam por cima, a medonha rampa de lama, que conduzia ao alto do Mont-SaintJean. Eles subiam, graves, ameaçadores, imperturbáveis; nos intervalos da mosquetaria e da ar lharia, ouvia-se aquele mover de pé~colossal. Eram duas divisões, formando duas colunas, à direita, a divisão de Wathier, à esquerda; a divisão de Delord.
Quem via de longe, pareciam-lhe duas imensas cobras de aço, estendendo-se para o alto do Mont-Saint-Jean. Aqueles homens atravessaram o campo de batalha como um prodígio.
Desde a tomada do grande reduto de Moskowa pela grossa cavalaria, não se tornara a ver coisa semelhante; faltava ali Murat, mas estava Ney. Parecia que aquela massa se nha conver do num monstro com uma só alma. Por entre uma nuvem de fumo,
rasgada aqui e além, viam-se os esquadrões estendendo-se, ondulando, como os anéis de um pólipo. Era uma confusão de capacetes, gritos e sabres, de saltos impetuosos dos cavalos, jogando de garupa, ao estrondo do canhão e ao tanger das trombetas, um tumulto disciplinado, mas terrível, e por cima de tudo isto as couraças, como as escamas sobre a hidra.
Parece um conto de outros tempos isto que narramos. Só nas antigas epopeias órficas, em que se descrevem os homens-cavalos, os an gos hipantropos, tãs com rosto humano e peitos de cavalo, que escalaram o Olimpo, horríveis, invulneráveis, sublimes; deuses e animais; só nas an gas epopeias órficas, dizemos, é que aparecem coisas semelhantes a esta visão.
Estranha coincidência numérica! Aqueles vinte e seis esquadrões iam ser recebidos por vinte e seis batalhões. Por trás do alto da planura, esperava-os muda, imóvel protegida pela bateria oculta a infantaria inglesa, formada em treze quadrados, a dois batalhões cada um, e em duas linhas, sete na primeira, seis na segunda, de coronhas fincadas ao ombro, fazendo pontaria para o que vinha. Os soldados ingleses, porém, não viam os couraceiros, nem os couraceiros viam os soldados ingleses. Estes ouviam subir aquela maré de homens; ouviam cada vez mais dis nto o ruído de três mil cavalos a trote largo, o bater alternado e simétrico das ferraduras nas pedras da estrada, o atrito das couraças, o nir dos sabres e um como hálito feroz. Após uma pausa terrível, em que tudo era silêncio, apareceu subitamente em cima da esplanada uma comprida fileira de braços erguidos brandindo sabres, uma mul dão de capacetes, trombetas e estandartes, e três mil cabeças de homens de bigode russo, gritando:
— Viva o imperador!
Parecia que tremia a terra, ao desembocar na planície toda aquela cavalaria.
De súbito — trágico sucesso! — do meio da vanguarda da coluna dos couraceiros levantou-se um clamor terrível. Ao chegarem ao alto da encosta, nham dado de chofre com um fosso, uma vala que se estendia entre eles e os ingleses. Era a azinhaga de Ohain.