Os Miseráveis
III — Uma pena pesada para quem levantou o carro de Fauchelevent
— Também não dou nada por ele! — retrucou o porteiro.
A mulher pôs-se a arrancar com uma faca velha a erva que crescia por entre as pedras do que ela chamava sua calçada, e, ao mesmo tempo que se ocupava neste serviço, ia dizendo por entre dentes, falando a sós consigo:
— É uma pena! Um velho tão asseado!
Nisto, avistou ao fundo da rua um médico da vizinhança, que ia a passar, e resolveu pedir-lhe para que subisse a ver o velho.
— Mora no segundo andar — disse-lhe ela. — Não tem mais do que empurrar a porta
e entrar, porque, como o pobre homem já se não levanta da cama, tem-na sempre apenas cerrada.
O médico subiu, esteve com Jean Valjean, fez-lhe o seu interrogatório! e tornou a descer.
— Então, senhor doutor, que lhe parece o doente? — perguntou-lhe a porteira, quando ele descia o último degrau.
— Não está nada bom.
— Então que tem?
— Tudo e nada. Segundo parece, aquele homem perdeu alguma pessoa a quem queria muito, o que também é moléstia, e moléstia que mata.
— Que lhe disse ele?
— Que não tinha nada.
— Não volta, senhor doutor?
— Voltarei — respondeu o médico. — Mas será necessário que venha mais alguém.
III — Uma pena pesada para quem levantou o carro de Fauchelevent Uma tarde, vendo Jean Valjean que só a muito custo pudera levantar-se, firmando-se no cotovelo, tomou a si mesmo o pulso e não o sen u, notou que a respiração se lhe tornava di cil, chegando às vezes a parar-lhe de todo, e reconheceu que nha chegado a um extremo grau de fraqueza que nunca a ngira. Dominado então, ao que parece, por alguma suprema preocupação, fez um esforço para se sentar na cama e principiou a vestir-se.
O vestuário por ele preferido, agora que já não saía, era o seu an go trajo de operário.
Por umas poucas de vezes, porém, teve de parar no meio do seu intento, que para ele não era tão fácil que só o esforço de enfiar as mangas da jaqueta lhe não fizesse escorrer o suor pela testa abaixo. Logo em seguida ao casamento de Cose e, Jean Valjean arvorara a sala de entrada em seu quarto de dormir para não habitar o interior daquele aposento deserto, o que o forçaria a ver todos os dias, na passagem para o seu primi vo quarto, lugares para ele de angustiosa recordação.
Apenas concluída a di cil tarefa de se ves r, Jean Valjean abriu o baú, seu inseparável companheiro, e rou para fora a roupa de Cose e, que estendeu sobre a cama. Em seguida, rou de uma gaveta duas velas de cera, meteu-as nos cas çais do bispo, que onde quer que chegava costumava pôr logo em cima da pedra do fogão, e acendeu-as, posto que fosse ainda dia claro, por isso que se estava no Verão.
Dir-se-ia, ao ver aquelas duas velas acesas à hora do dia, que se achava decerto ali em exposição algum corpo, à espera que, noite fechada, o conduzissem para a igreja.
Cada passo que o infeliz dava de um para outro móvel extenuava-o por tal modo, que se via obrigado a sentar-se.
Não era o cansaço ordinário que exaure as forças para as renovar; era a vida ex nta esvaindo-se em esforços aflitivos que extenuam e não mais se repetem.
Uma das cadeiras em que se tinha deixado cair estava colocada diante do espelho, tão fatal para ele, tão providencial para Mário onde nha sido inver da no mata-borrão a
escrita de Cose e. Viu-se no espelho e não se reconheceu. Contava oitenta anos; antes do casamento de Mário ter-se-lhe-iam apenas suposto cinquenta: aquele ano valera por trinta. O que se lhe via na fronte não era a ruga da idade, era a marca misteriosa da morte.
Sen a-se ali o raspar da implacável unha. As faces descaíam-lhe, a pele do rosto nha uma cor que fazia julgar haver já por baixo dela terra; os dois cantos da boca pendiam como na máscara que os an gos esculturam sobre os túmulos; fitava o vácuo com certo ar de repreensão; parecia um dos grandes entes trágicos, que têm de que queixar-se de alguém.
Estava nesta situação, úl ma fase do aba mento, em que a dor já não circula; em, que está, para assim dizer, coagulada, e em que há sobre a alma uma como sensação de desespero.
Tinha anoitecido.
Jean Valjean arrastou penosamente uma mesa e a velha poltrona para junto do fogão, e pôs sobre a mesa uma pena, tinteiro e papel.
Feito isto, desmaiou. Quando voltou a si sentiu sede.
Não podendo levantar a bilha da água, inclinou-a com dificuldade para a boca e bebeu um golo.
Depois voltou-se para a cama; e mesmo sentado, porque não podia ter-se em pé, contemplou o vestidinho preto e todos os outros objectos queridos.
Contemplações como estas duram horas, que parecem minutos. De repente teve um estremecimento, sen u-se esfriar; encostou-se à mesa, alumiada pelos cas çais do bispo
.e pegou na pena.
Como a pena e a nta havia muito não serviam, a pena nha o bico recurvado, o nteiro estava seco; teve portanto de levantar-se e de deitar uns pingos de água no nteiro, o que não pôde fazer sem descansar duas ou três vezes, e viu-se obrigado a escrever com as costas da pena. De vez em quando limpava a testa.
A mão tremia-lhe; contudo escreveu muito vagarosamente as seguintes linhas: Eu te abençoo, Cose e, nesta extrema hora a que sou chegado! Junta, porém, com a minha bênção, quero dar-te a explicação de alguns pormenores que tu ignoras. Teu marido teve razão para me fazer ver que devia ser estranho à vossa ventura; todavia, há algum erro tolo que ele supôs, mas teve razão. Devo confessar que é um excelente rapaz. Ama-o sempre muito, depois que eu cessar de exis r, e a ele Peço-lhe igualmente que ame sempre a minha querida filha! Cose e, quando leres este papel que deixo aqui para te ser entregue, já eu não exis rei! Eis o que quero dizer-te; vou apresentar algarismos, se a memória nesta hora ainda me ajudar. Peço-te que atendas bem; esses seiscentos mil francos que cons tuem o dote que levaste a teu marido são muito meus. Eu te vou explicar como.
O azeviche branco vem da Noruega, o preto da Inglaterra e os avelórios escuros da Alemanha. O azeviche é mais leve, mais precioso e mais caro, mas pôde ser imitado entre nós, como o é na Alemanha. Para isto é necessário uma bigorna do tamanho de duas polegadas quadradas e uma lâmpada de álcool para derreter a solda. A solda que dantes se fazia com resina e pós de sapatos, vindo a ficar por quatro francos cada arrátel, imaginei fazê-la de goma laca e terebin na. Deste modo, vinha a custar apenas trinta soldos e ficava muito melhor. As fivelas fazem-se com um vidro roxo e unem-se por meio desta solda sobre uma armaçãozinha de ferro envernizado, O vidro deve ser roxo para os objectos de ferro e preto para os de ouro. A Espanha consome grande quantidade destes artigos. É o país do azeviche...