Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 183 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

II — Lux facta est

Mário examinou durante dois ou três dias este homem idoso, que ainda se não podia chamar velho, e esta jovem, que ainda se não podia chamar mulher, e depois não tornou mais a fazer reparo neles, que pela sua parte parecia que nem sequer viam o mancebo, conversando ambos com perfeita serenidade e indiferença. A jovem tagarelava sempre jovialmente; o velho falava pouco e de quando em quando fitava na donzela uns olhos cheios de uma inefável paternidade.

Mário, que contraíra maquinalmente o hábito de ir passear para esta álea, encontrava-os ali sempre.

Eis como o caso se passava:

O mancebo chegava pela extremidade da álea oposta ao banco em que eles se achavam, caminhava pela álea adiante, passava por eles, depois voltava até à extremidade por onde nha vindo e recomeçava como da primeira vez. Repe a este movimento de vaivém cinco ou seis vezes por semana, sem que entre ele e os dois personagens sentados no banco se chegasse alguma vez a trocar uma saudação.

Conquanto, porém, aquele velho e aquela jovem parecessem, ou talvez por isso mesmo que pareciam evitar os olhares, nham, como era natural, excitado mais ou menos a curiosidade dos cinco ou seis estudantes que de tempos a tempos iam passear para a Pepinière, os estudiosos depois das suas aulas, e outros depois da sua par da de bilhar.

Courfeyrac, que era um dos segundos, observara-os algum tempo; porém, como a jovem lhe parecesse feia, re rou-se apressadamente e com todo o cuidado. Deitara a fugir como um lacedemónio, dardejando-lhes uma alcunha. Impressionado somente do

ves do da jovem e dos cabelos do velho, pusera à filha o nome de Mademoiselle Lanoire, ao pai o de Monsieur Leblanc, e em tal hora foi, que, como ninguém lhes sabia o verdadeiro nome, a alcunha pegou e os estudantes diziam:

— Lá está Monsieur Leblanc sentado no seu banco!

E Mário do mesmo modo que os outros, achava cómodo tratar também por senhor Leblanc aquele desconhecido personagem.

Faremos pois como eles e adoptaremos a alcunha para maior facilidade da nossa narrativa.

Assim os viu Mário quase todos os dias e à mesma hora durante um ano. O velho agradava-lhe, mas achava a jovem desengraçada.

II — Lux facta est

Precisamente no segundo ano, no ponto desta história a que o leitor chegou, sucedeu que Mário sem que mesmo soubesse porquê, interrompeu aquele hábito de ir ao Luxemburgo, estando perto de seis meses sem pôr os pés na sua álea favorita. Um dia, enfim, voltou ali; era uma serena manhã de Verão e Mário sen a-se alegre, como sucede quando o tempo está agradável. Parecia-lhe que nha no coração o canto de todas as aves que ouvia e todas as porções de folhagem do arvoredo.

Foi direito à «sua álea», e quando chegou ao fim, avistou ainda no mesmo banco, o par já conhecido. Quando se aproximou viu que o homem era o mesmo que dantes; a pequena é que lhe pareceu mudada. A jovem que agora via, era uma alta e bela criatura, tendo todas as formas mais encantadoras da mulher no momento preciso em que elas se combinam ainda com as mais ingénuas graças da criança; momento fugi vo e puro, que só se pode traduzir pelas duas palavras: quinze anos. Tinha admiráveis cabelos castanhos escuros com certos cambiantes doirados, uma fronte que parecia de mármore, faces que se diriam compostas de folhas de rosas, mas um tanto pálidas, uma alvura transparente, uma boca primorosa, donde o sorriso saía como uma claridade e a palavra como uma música, uma cabeça que Rafael teria dado a Maria, sobre um pescoço que Jean Goujon teria dado a Vénus. Enfim, para que nada faltasse àquela encantadora fisionomia, o nariz não era belo, era bonito; nem recto nem curvo, nem italiano nem grego; era o nariz parisiense, com o não sei quê de espirituoso, de fino, de irregular e de puro, que desespera os pintores e encanta os poetas.