Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 185 de 359

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Os Miseráveis

IV — Princípio de uma grave doença

Que havia desta vez no olhar da jovem? Nem Mário o poderia dizer. Não havia nada e havia tudo. Foi um estranho relâmpago aquele.

Ela baixou os olhos e ele continuou o seu caminho.

O que o mancebo acabava de ver não era o simples e ingénuo olhar de uma criança, era uma misteriosa voragem que se tinha entreaberto e repentinamente fechado.

Há um dia na vida das donzelas em que todas assim olham. Desgraçado então daquele sobre quem esse olhar se fita!

Esse primeiro olhar de uma alma que ainda se não conhece a si mesma é como a aurora no céu. É o despontar de um mistério esplendoroso. Não há palavras que traduzam o perigoso encanto desse inesperado clarão que se derrama, improvisando luz em trevas adoráveis e que se compõem de toda a inocência do presente e de toda a paixão do futuro. É uma espécie de ternura indecisa que se revela ao acaso e que espera.

É um laço que arma sem o saber a inocência e em que sem querer e sem o esperar apanha os corações. É uma virgem com olhar de mulher.

Raro acontece que no coração daquele sobre quem esse olhar se fita não se desenvolva o gérmen de uma melancolia profunda. Nesse raio de luz fatalmente celeste, que melhor do que os mais estudados olhares da coquete possui o mágico poder de fazer subitamente desabrochar no recôndito de uma alma essa misteriosa flor cheia de olores e venenos, chamada amor, encerram-se todas as purezas e canduras.

À noite, ao recolher-se ao seu modesto albergue, Mário deitou os olhos à roupa que trazia, e pela primeira vez reparou que nha a indecência, a inconveniência, a inaudita estupidez de ir passear para o Luxemburgo com o seu trajo «ordinário», quer dizer, com um chapéu amassado, umas botas que pareciam as de um carrejão, umas calças pretas, porém, já todas coçadas nos joelhos, e um casaco preto, também já todo russo nos cotovelos.

IV — Princípio de uma grave doença

No dia seguinte, à hora do costume, o mancebo rou do armário o seu casaco novo, calças novas, chapéu e botas novas, e depois de ves r esta armadura completa e calçar umas luvas, o que nele era um ar go de luxo raras vezes visto, par u para o Luxemburgo.

No caminho encontrou Courfeyrac, e como fez que o não vira, Courfeyrac, quando se recolheu a casa, disse aos seus amigos:

— Encontrei agora o chapéu e o casaco novo de Mário, levando-o a ele dentro. Sem dúvida ia fazer algum exame porque levava mesmo cara de parvo!

Chegando ao Luxemburgo, Mário deu uma volta em redor do lago, pôs-se a observar os cisnes e depois ficou em demorada contemplação diante de uma estátua que nha a cabeça coberta de musgo e um quadril decepado. Ao pé do lago estava um barrigudo burguês de quarenta anos, dizendo para um rapazinho de cinco anos, que trazia pela mão:

— Foge dos excessos, meu filho; conserva-te a igual distância do despo smo e da anarquia.

Mário aplicou o ouvido ao que o burguês dizia, em seguida deu outra volta em redor do lago e por fim dirigiu-se para a «sua álea», porém, lentamente e como que a custo.

Dir-se-ia que uma força oculta o impelia e ao mesmo tempo o re nha. Ele, porém, de nada disto tinha consciência e julgava fazer o que fazia todos os dias.

Desembocando na álea, avistou no extremo oposto e «no seu banco», o senhor Leblanc e a jovem, abotoou a casaca, puxou-a por todos os lados para que não fizesse

rugas, examinou com certa complacência os lustrosos reflexos das calças e dirigiu-se para o banco. O seu andar era como o do soldado que se dispõe para o ataque, pelo menos caminhava com certo ar de conquista. Eu digo que ele se dirigiu para o banco como se dissesse que Aníbal marchou sobre Roma.

No fim de contas, os seus movimentos eram todos maquinais: não interrompera de modo algum as habituais preocupações do seu espírito e dos seus trabalhos. Naquele momento pensava em que o Manual do Bacharelado era um livro estúpido, e que forçosamente fora redigido por verdadeiros e raros cre nos, para que ali se analisassem como obras-primas três tragédias de Racine e apenas uma comédia de Molière. Sen a nos ouvidos uma espécie de agudo assobio. Aproximando-se do banco, desfazia com a mão as rugas do fato e não afastava os olhos da jovem. Parecia-lhe vê-la preencher toda a extremidade da álea com vago clarão azulado.

À medida que se aproximava, demorava cada vez mais o passo. Chegando a certa distância do banco, muito antes do fim da álea, parou, e não pôde saber como foi que voltou para trás. Nem sequer chegou a dizer a si mesmo que não ia até ao fim. A jovem mal o teria podido avistar de longe e ver a bela presença que lhe dava o seu fato novo.

Entretanto, ele conservava-se muito direito, para apresentar bom aspecto, na suposição de que fosse notado por alguém que se lhe achasse pela parte de trás.

Chegou afinal ao extremo oposto, depois voltou, mas então aproximou-se um pouco mais do banco. Chegou mesmo até à distância de três intervalos de árvores; mas ali sen u não sei que impossibilidade de con nuar a adiantar-se e hesitou. Julgara ter visto o rosto da jovem voltar-se para ele. Todavia fez um esforço viril e violento para suplantar a hesitação e con nuou a avançar. Ao cabo de poucos segundos passava pela frente do banco, direito e firme, vermelho até às orelhas, sem olhar para a direita nem para a esquerda, e com a mão me da na abotoadura do casaco, como qualquer estadista. No momento em que passava sob a ar lharia da praça sen u palpitar o coração de um modo medonho. Como na véspera, a jovem nha o seu ves do de damasco e o seu chapéu de tule. Mário ouviu uma voz inefável, que devia ser a «sua voz». Conversava tranquilamente. Era muito linda. Mário conhecia-a, apesar de não intentar vê-la. Ela, contudo, pensava o mancebo, não poderia deixar de ter es ma e consideração por mim, se soubesse ser eu o verdadeiro autor da dissertação sobre Marcos Obregon de la Ronda, que Francisco de Neufchâteau pôs, como sendo sua, na frente da sua edição de Gil Braz.