Os Miseráveis
VII — Aventuras da letra U entregue a conjecturas
Giramos em torno a elas, falamos, rimos e de repente sen mo-nos apanhados, e tudo acaba! Travou de nós a máquina, apanhou-nos o olhar. Apanhou-nos, pouco importa porque parte ou como, por qualquer parte do vosso pensamento que andava alheada, por alguma distracção que veste. Estais perdido. Sereis arrebatado em peso por esse olhar. Apoderar-se-á de vós um encadeamento de forças misteriosas. Em vão vos
debateis, que todo o socorro dos homens se vos torna impossível. Ides cair de roda em roda, de angús a em angús a, de tortura em tortura, vós, o vosso espírito, a vossa fortuna, o vosso porvir, a vossa alma; e dessa horrorosa máquina saireis, ou desfigurado pela vergonha ou transfigurado pela paixão, conforme verdes caído, ou em poder de uma criatura má ou em poder de um nobre coração.
VII — Aventuras da letra U entregue a conjecturas
O isolamento, o desapego de tudo, o orgulho, a independência, o amor da natureza, a falta de ac vidade quo diana e material, o viver ín mo, as secretas lutas da cas dade, o êxtase benévolo em presença de todos os objectos da criação, haviam preparado Mário para essa posse chamada paixão. O culto que ele tributava a seu pai pouco a pouco convertera-se em religião, e, como toda a espécie de religião, re rara-se-lhe para o fundo da alma. Era, pois, necessário alguma coisa no primeiro plano. Veio o amor.
Decorreu um mês, durante o qual Mário nem um só dia faltou no Luxemburgo.
Chegada a hora, não havia forças que o retivessem.
— Está de serviço — dizia Courfeyrac.
Mário vivia em sucessivos arrebatamentos, porque é caso averiguado que a donzela lhe fitava os olhos todas as vezes que podia.
Mário, por úl mo, viera a fazer-se ousado, aproximando-se o mais que podia do banco, sem, todavia, tornar a passar por diante dele, no que juntamente obedecia ao ins nto da midez e ao ins nto da prudência dos namorados. Julgando ú l, pois, não atrair a «atenção do pai», combinava as suas paragens por trás das árvores e dos pedestais das estátuas, com profundo maquiavelismo, de modo a tornar-se visível o mais que podia para a jovem e o menos possível ao velho que passava por seu pai. Às vezes permanecia imóvel por mais de meia hora à sombra de um Leónidas ou de um Espártaco, conforme os topava a jeito, segurando na mão um livro, por cima do qual iam os seus olhos meigamente fitar-se na donzela: ela voltava-se para o lado do mancebo com um sorriso vago que lhe expandia em graças o donairoso rosto, e ao mesmo tempo que natural e sossegadamente recreava os ouvidos do ancião com a meiguice das suas palavras, fazia estremecer o mancebo com a sensação que nele ia produzir o seu virginal e apaixonado olhar. An go manejo, de data imemorial, que Eva aprendeu no primeiro dia da existência do mundo e que todas as mulheres sabem desde o primeiro dia da sua vida! Com a boca respondia a um, com os olhos correspondia às mudas falas do coração do outro.
Devemos porém acreditar que o senhor Leblanc viera, por úl mo, a suspeitar de alguma coisa, porquanto às vezes, logo que Mário chegava, ele erguia-se e principiava a passear. Afinal, abandonara o costumado pouso dos seus passeios quo dianos e fora tomar posse do banco que ficava ao pé da estátua do Gladiador, na outra extremidade da rua, como para ver se Mário os seguiria. Mário, que não percebeu o ardil, cometeu, efec vamente, a falta de os seguir e, desde então, «o pai» principiou a ser menos exacto nas regularidades dos seus passeios e a não trazer «a filha» quo dianamente como dantes, vindo algumas vezes só. Nesse caso, Mário não ficava. Outra falta.