Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 206 de 359

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Os Miseráveis

XII — Em que foi empregada a moeda de cinco francos do senhor Leblanc

De súbito sentiu-se violentamente arrancado à sua meditação.

Ouvira a voz alta e áspera de Jondre e pronunciar as seguintes palavras, que encerravam para ele o mesmo extraordinário interesse:

— Digo-te que tenho toda a certeza de que o reconheci!

De quem falava Jondre e? Quem nha ele reconhecido? O senhor Leblanc? O pai da

«sua Úrsula»? O quê! Pois Jondre e conhecia-o! Iria acaso por modo tão abrupto e inesperado obter todas as informações sem as quais a sua vida era para si mesmo

obscura? Iria, enfim, saber a quem amava, quem era aquela jovem, quem era seu pai?

Estaria a ponto de se dissipar a sombra espessa que os envolvia? Acaso se rasgaria o véu? Oh, Deus!

Não subiu, pulou para cima da cómoda, foi novamente aplicar um olho no buraco do tabique, e tornou a ver o interior da pocilga dos Jondrette.

XII — Em que foi empregada a moeda de cinco francos do senhor Leblanc Não houvera a mínima mudança no aspecto da família, salvo a de terem a mãe e as filhas ves do e calçado as camisolas e meias de lã, que acharam na trouxa. Em cada uma das camas via-se um cobertor novo.

Jondre e acabava evidentemente de entrar para casa; estava ainda afadigado. Suas filhas estavam ao pé da chaminé sentadas no chão, a mais velha a tratar da mão da mais nova. A mulher achava-se como prostrada sobre a cama próximo da chaminé, mostrando na fisionomia uma expressão de pasmo. Jondre e percorria o quarto a passos largos de um a outro extremo, com extraordinária expressão nos olhos.

A mulher que parecia mida e cheia de espanto na presença do marido, arriscou-se a dizer-lhe:

— O quê! Pois estás realmente certo disso?

— Cer ssimo! Já lá vão oito anos, mas reconheci-o logo! Não me engano, não!

Reconheci-o assim que entrou. Pois isto não te salta aos olhos?

— A mim, não.

— Eu bem te disse: repara nele! É a mesma figura, a mesma cara, a mesma voz; o que tem é estar mais velho. Não sei o que certa gente faz para não envelhecer. A maior diferença é andar mais bem vestido. Até que te apanhei, misterioso velho do diabo!

Nisto parou e disse às filhas:

— Vão-se daqui, vocês. Parece impossível que te não saltasse aos olhos!

As raparigas levantaram-se para obedecer.

A mãe balbuciou:

— Com a mão ferida?

— O ar há-de fazer-lhe bem — disse Jondrette. — Saiam daqui!

Era visível ser este homem daqueles a quem se não replica. As duas raparigas saíram.

No momento em que iam a transpor a porta, o pai deteve a mais velha pelo braço e disse-lhe em tom particular:

— Hão-de estar aqui às cinco horas em ponto, ambas. Devo precisar muito de vocês.

Mário cada vez prestava maior atenção.

Depois que as duas crianças saíram, deixando Jondre e a sós com a mulher, tornou aquele a passear no quarto. Ao cabo de duas ou três voltas, parou e pôs-se a meter por dentro das calças a fralda da camisa de mulher que trazia ves da, no que gastou alguns minutos.

De repente, voltou-se para a mulher, cruzando os braços, e exclamou:

— E queres que eu te diga uma coisa? A pequena...

— Que tem a pequena? — disse a mulher, vendo que ele se calara nomeio do que ia a dizer.

Não podiam restar dúvidas a Mário; era dela com certeza que Jondre e falava. O

jovem escutava, pois, com ardente ansiedade a menor palavra daquele homem. Como que nos ouvidos se lhe concentrara a vida toda. Infelizmente, Jondre e curvara-se para falar em voz baixa a Sua mulher, após o que se endireitou, terminando em tom que Mário ouviu perfeitamente.

— É ela!

— Será? — disse a mulher.

— É! — respondeu o marido.

Não há frases que traduzam fielmente toda a expressão daquele — será? — dito pela mulher de Jondrette.

Era a surpresa, a raiva, o ódio, a cólera, juntas e combinadas numa entoação monstruosa. Bastaram algumas palavras, um nome talvez , que o marido lhe nha dito ao ouvido, para que aquela mulher colossal despertasse do seu entorpecimento e de repelente que já era se tornasse horrorosa.

— É impossível! — exclamou ela. — Pois lembrar-me eu que minhas filhas andam por essas ruas descalças e não têm um farrapo de um ves do, e ela de mantelete de ce m, de chapelinho de veludo, bo nhas e tudo mais! Para Cima de duzentos francos em roupa! De tal modo que parece mesmo uma senhora! Nada, menino, olha que estás enganado; bem vês que a outra era feia como um bode e esta, vamos andando, ainda não é muito de fazer fugir! Nada, não pode ser ela!

— Digo-te que é ela! Senão tu verás.

A esta afirma va tão absoluta, a mulher de Jondre e levantou a enorme cabeça, povoada de cabelos ruivos, e fitou os olhos no tecto da mansarda com hedionda expressão. Naquela ocasião ainda o seu aspecto pareceu ao rapaz mais temível do que o do marido. Era uma porca com olhar de pantera!

— Pois esse estafermo dessa linda rapariga que aí esteve, fitando-me as filhas com olhar de compaixão, seria aquela desavergonhada?! Oh, a minha vontade era desfazê-la a pontapés!

E, ao dizer isto, saltou abaixo da cama e ficou um instante de pé no meio da casa, com os cabelos desgrenhados, as ventas dilatadas, a boca meia aberta, os punhos cerrados, a tude ameaçadora e convulsos pelo tremor da raiva, que se lhe azedava no peito.

Depois a rou-se de novo para cima da cama. O marido, esse con nuava a passear, sem prestar atenção aos movimentos furibundos da mulher.

Após alguns instantes de silêncio, Jondre e aproximou-se de sua mulher, estacou diante dela com os braços cruzados, como há um instante, e exclamou:

— Mas queres que te diga uma coisa?

— Que é? — perguntou ela.

— É que está feita a minha fortuna! — respondeu ele rapidamente e em voz baixa.

A mulher encarou-o com um olhar que queria dizer: «Tu endoidecerias?»

— Apre! Com um raio de diabos! Não há já tão pouco tempo que eu faço cruzes na boca e jejuo mesmo nos dias em que o Papa não manda guardar jejum! Basta de miséria! É ainda, de mais a mais, com a carga que eu tenho às costas! Já basta de graças,

que o caso não é para rir; basta de calemburgos, Deus do céu! Basta de cartas, Padre Eterno! Quero matar esta fome, saciar esta sede, dormir, passear, andar com as mãos debaixo dos braços! Também quero ter a minha vez! Que diabo! Antes de estalar, preciso ser por algum tempo milionário!

E depois de dar uma volta pela mansarda, acrescentou:

— Como os outros!

— Mas que queres tu dizer? — perguntou-lhe a mulher.

Jondre e abanou a cabeça, piscou um olho e levantou a voz como um ilusionista de feira, que se prepara para fazer uma demonstração,

— O que quero eu dizer? Escuta!

— Schiu! — resmungou a mulher. — Fala mais baixo! É preciso que ninguém oiça falar de negócios como este!

— Ora! Quem é que pode ouvir? O vizinho? Vi-o sair ainda agora. Como se aquele papalvo ouvisse alguma coisa! E depois, já te disse que o vi sair.

Entretanto, por uma espécie de ins nto, baixou a voz, mas não tanto que as suas palavras não fossem ouvidas por Mário. Uma circunstância favorável e que permi a a Mário não perder uma sílaba daquela conversação, fora a espessura de neve que estava caindo e que atenuava o ruído das carruagens que passavam pelo boulevard.

Eis o que Mário ouviu:

— Escuta bem. Está filado o Creso! É como se já es vesse tudo feito. Tenho tudo arranjado; já falei com alguém. Às seis horas vem ele. Vem trazer os sessenta francos, canalha! Viste como deixei sair pela boca fora toda aquela can ga? Os sessenta francos, o senhorio, o 4 de Fevereiro? E do que se trata agora mais é da renda da casa! Que estupidez! Vem àsseis horas; é ahora a que o vizinho vai jantar. A a Bourgon vai a uma casa, longe daqui, lavar a loiça. O vizinho nunca volta para casa antes das onze horas. As pequenas pôr-se-ão de vigia Tu ajudar-nos-ás e ele não terá remédio senão tratar de espigar.

— E se não espigar? — perguntou a mulher.

— Espigamo-lo nós!

E soltou uma gargalhada.

Era a primeira vez que Mário o via rir; um riso frio e suave, que fazia estremecer.

Jondre e abriu um armário junto da chaminé e rou um boné velho, que pôs na cabeça depois de o ter escovado com a manga do casaco.