Os Miseráveis
V — Caem vários raios sobre «Mame» Bougon
Mário ultrapassou o banco, foi até à extremidade da álea, que ficava muito próxima, e voltou de novo, para passar ainda pela frente da jovem. Desta vez estava em extremo pálido. Mas afinal não experimentava senão uma sensação muito desagradável. Afastou-se do banco e da jovem; e mesmo voltando as costas, imaginava que ela o observava, e isto fazia-o tropeçar.
Não intentou mais aproximar-se do banco; parou no meio da álea e ali, coisa que nunca fizera, sentou-se, olhando de revés, e pensando, nas profundidades menos dis ntas do seu espírito, que no fim de tudo era di cil que as jovens de quem ele admirava o chapéu branco e o ves do preto, fossem absolutamente insensíveis às suas
calças lustrosas e ao seu casaco novo.
Passado um quarto de hora levantou-se, como se fosse recomeçar o passeio para o lado do banco, que parecia rodeado por uma auréola. Contudo ficou de pé e imóvel.
Pela primeira vez, ao cabo de quinze meses, disse consigo que o sujeito que ali ia sentar-se todos os dias com a jovem, nha já, decerto, reparado nele e provavelmente achado estranha a sua assiduidade.
Pela primeira vez também achou que era de pouca reverência designar o desconhecido, mesmo no segredo do seu pensamento, pela alcunha de senhor Leblanc.
Conservou-se assim por alguns instantes cabisbaixo, e fazendo desenhos na areia com uma varinha que tinha na mão.
Depois voltou de repente pelo lado oposto ao banco, onde estavam o senhor Leblanc e a filha e regressou a casa.
Naquele dia esqueceu-se de jantar. Só às oito horas da noite deu pelo esquecimento; e como era demasiadamente tarde para ir à rua de S. Jacques, disse para consigo: «Ora adeus!» E comeu um pedaço de pão.
Não se deitou porém senão depois de ter escovado e dobrado o casaco com todo o cuidado.
V — Caem vários raios sobre «Mame» Bougon
No dia seguinte, mame Bougon, como Courfeyrac, que não respeitava coisa nenhuma, chamava à velha porteira principal locatária e criada do casarão Gorbeau, cujo verdadeiro nome, como já dissemos, era Madame Bougon mame Bougon, estupefacta, reparou que Mário tornava a sair de casaco novo.
Efec vamente, o mancebo voltou ao Luxemburgo, porém não passou além do seu banco do meio da álea, no qual, como no dia antecedente, se sentou, contemplando de longe e vendo dis ntamente o chapelinho branco, o ves do preto e especialmente o clarão azul. Não se mexeu do lugar em que estava, recolhendo a casa somente quando se fecharam as portas do Luxemburgo. Como não vesse visto o senhor Leblanc e sua filha re rar-se, concluiu que nham saído pela grade que fica do lado da rua de Oeste.
Passado tempo, quando tudo o que passara então lhe veio ao pensamento, não pôde, por mais que fizesse, lembrar-se onde fora jantar nesse dia.