Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 65 de 359

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Os Miseráveis

I — Em que espelho Madelaine contempla os cabelos

Naquele momento nha ele em si qualquer coisa de divino que fez recuar a mul dão.

Atravessou, pois, vagarosamente por entre ela. Nunca ninguém soube quem abriu a porta, mas é certo que a achou aberta. Chegando ali, voltou-se para trás, dizendo:

— Senhor delegado, fico à sua disposição. — Depois dirigiu-se ao auditório: — Todos me julgam digno de compaixão, não é verdade? Meu Deus, quando penso no que es ve a ponto de fazer, sinto-me digno de inveja. Todavia es mara mais que nada disto sucedesse.

Saiu e a porta fechou-se como se abrira; todos os que pra cam certas acções soberanas, têm sempre a certeza de ser servidos por alguns dos que os admiram.

Ainda não

nha decorrido uma hora quando o veredicto do júri aliviou Champmathieu de todas as acusações. Champmathieu, solto imediatamente, saiu estupefacto, julgando toda aquela gente doida, e sem compreender coisa alguma de tão extraordinária visão.

LIVRO OITAVO — DESFORRA

I — Em que espelho Madelaine contempla os cabelos

O dia começara a despontar. Fan ne passara uma noite de febre e insónia, mas não obstante povoada de felizes imagens; de madrugada adormecera.

A irmã Simplícia, que toda a noite velara junto dela, aproveitou este sono para ir preparar um calmante. A digna irmã de caridade estava, havia alguns instantes, no laboratório da enfermaria, curvada sobre as drogas e sobre os diferentes vidros, observando-os muito de perto, por causa da espécie de nevoeiro que o crepúsculo lança sobre todos os objectos. De repente, voltou a cabeçae soltou um pequeno grito.

Tinha diante de si o senhor Madelaine, que ali entrara silenciosamente.

— Ah! É o senhor maire! — exclamou ela.

Madelaine perguntou em voz baixa:

— Como está essa pobre mulher?

— Agora está menos mal. Mas chegámos a estar bem inquietas.

Depois contou-lhe o que ocorrera: que Fan ne es vera muito mal na véspera, mas que se achara depois melhor porque acreditara que o senhor maire nha ido a Mon ermeil buscar-lhe a filha. A irmã não ousou interrogar o maire, mas bem percebeu que não era dali que ele vinha.

— Fizeram muito bem em não a desenganar — disse ele.

— Sim — tornou a irmã. — Mas vendo-o ela agora e sabendo que não lhe traz a filha, que lhe havemos de dizer?

Madelaine conservou-se por um instante pensativo e depois respondeu:

— Deus nos inspirará.

— Seja como for, não se deve mentir — murmurou a irmã em voz baixa.

Entretanto amanhecera. A claridade iluminava todo o quarto. De súbito, a irmã, levantando os olhos por acaso para Madelaine, a quem a claridade ba a de chapa no rosto, exclamou:

— Jesus! Que foi que lhe sucedeu? Tem os cabelos todos brancos!

— Brancos?! — disse ele.