Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 35 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Morte dum cavalo

graciosas criadinhas que olhais para as crianças que trazeis a passeio e vos entreteis a dar-lhes princípio! Gostaria dos pampas da América, se não vesse as arcadas do Odéon.

A minha alma voa para as savanas e para as florestas virgens! É tudo belo! As moscas zumbem no meio da luz. O sol espirrou o beija-flor. Dá-me um beijo, Fantine!

Mas enganou-se e beijou Favorita.

VIII — Morte dum cavalo

— Janta-se muito melhor no Édon do que no bombarda! — exclamou Zefina.

— Eu prefiro Bombarda a Édon — declarou Bachevelle.

— É mais luxuoso, mais asiá co. Vejam a sala de baixo, com as paredes cobertas de espelhos.

— E eu prefiro o luxo do prato, antes queria que servissem melhor! — disse Favorita.

Blachevelle insistiu:

— No Bombarda, os cabos das facas são de prata, no Édon são de osso. Ora a prata creio que é mais preciosa do que o osso.

— Excepto para os que têm queixo de prata! — observou Tholomyés, olhando para o zimbório dos Inválidos que se via das janelas do Bombarda.

Seguiu-se uma pausa.

— Tholomyés! — bradou Fameuil. — Ainda há pouco eu e Listolier vemos uma discussão.

— Uma discussão não é coisa má, mas uma briga é muito melhor.

— Discutíamos sobre filosofia.

— Está bem.

— Qual preferes tu, Descartes ou Spinosa?

— Désaugiers — respondeu Tholomyés.

Depois de proferir esta sentença, bebeu mais um trago e continuou:

— Consinto em viver. Nem tudo na terra acabou ainda, visto que é permi do fazerem-se extravagâncias! Rendo graças aos deuses imortais! Mente-se, mas ri-se. Afirma-se, mas duvida-se. Brota do silogismo o inesperado. É magnífico! Ainda há neste mundo homens que sabem abrir e fechar alegremente a caixa de surpresas do paradoxo. Saibam que isto que as meninas estão bebendo com tão descansado modo é vinho da Madeira, da quinta do Curral das Freiras, que fica a trezentas e dezassete toezas acima do nível do mar! Atendam quando beberem: trezentas e dezassete toezas, e o senhor Bombarda, o excelente proprietário desta casa, dá-lhes trezentas toezas por quatro francos e cinquenta cêntimos!

Fameuil interrompeu-o novamente:

— Tholomyés, as tuas opiniões constituem lei. Qual é o teu autor favorito?

— Ber...

— Quin?

— Não. Choux.

E Tholomyés prosseguiu:

— Viva o Bombarda! Seria capaz de igualar Munofis de Elefanta, se pudesse colher-me uma almeia, e Thygelion de Cheroneia, se conseguisse trazer-me uma hetaira; porquanto, minhas senhoras, na Grécia e no Egipto havia Bombardas. Assim no-lo afirma Apuleio. Oh, sempre as mesmas coisas e nada de novo! Nada inédito na criação do