Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 146 de 359

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Os Miseráveis

III — Como é agradável

Tem, enfim, a fauna par cular, que observa estudiosamente por todos os cantos: as lagartas, os besoiros e o «diabo», insecto preto que ameaça com a cauda, guarnecida de dois ferrões. Tem o seu monstro fabuloso com escamas no ventre e que não é um lagarto, com pústulas no lombo e não é sapo, que habita nos fornos de cal abandonados e nos poços secos, negro, felpudo, viscoso, arrastando-se ora devagar, ora rapidamente, que não grita, mas que olha, e que é tão terrível que nunca foi visto por ninguém; a este

monstro chama ele «o surdo». Procurar surdos entre as pedras é um prazer do género terrível. Outro prazer ainda: levantar de repente uma pedra e ver bichos de conta. Cada região de Paris é célebre pelos interessantes achados que nela se podem fazer. Nas estâncias das Ursulinas dominam as formigas, no Panteon as centopeias, nos fossos do campo de Marte as rãs.

Quanto a frases, este pequeno tem-nas propriamente suas como Talleyrand; não é menos cínico mas é mais honrado É dotado de imprevista jovialidade; aturde inopinadamente o primeiro lojista por cujo estabelecimento passa, com uma incrível risada fingida. A sua gama desce atrevidamente da alta comédia até à farsa.

Passa um enterro. Entre os que o acompanham vai um médico.

— Ora esta! — grita um gaiato. — Desde quando é que os médicos vão levar a obra?

Entre a mul dão está outro gaiato. De repente, um homem sério de óculos e muitos berloques no relógio volta-se para ele, bramando indignado:

— Maroto! Deitaste a mão à cintura de minha mulher!

— Eu, senhor!? Apalpe-me, veja se a encontra!

III — Como é agradável

À noite o homuncio, graças a alguns cobres que acha sempre maneira de arranjar, entra num teatro, e, apenas transpõe o limiar daquelas mágicas mansões, transfigura-se; de gaiato que era, torna-se titi. Os teatros são uma espécie de navios voltados com o porão para o ar, e é exactamente no porão que o gaiato toma lugar. O titi é para o gaiato o que a mariposa é para a larva: o mesmo ser, com asas. Basta que ele ali se encontre na ebriedade do seu prazer, no cúmulo do seu entusiasmo e alegria, com o seu bater de mãos, que mais parece um bater de asas, para que esse porão estreito, fé do, escuro, sórdido, insalubre, hediondo, abominável, se chame o Paraíso.

Dai a um ente o inútil e tirai-lhe o necessário, e tereis o gaiato.

O gaiato não é des tuído de certa intuição literária. A sua tendência, porém, dizemo-lo suficientemente pesarosos, não se inclina para o gosto clássico. O gaiato é, por pendor natural, pouco académico. Para darmos um exemplo, basta dizer que a popularidade de Mademoiselle Mars, entre este público de crianças tavaneses, era temperada com uma ponta de ironia. O gaiato denominava-a Mademoiselle Muche.

Esta criatura berra, zombeteia, trava desordens, batalha, anda rota como uma criança, esfarrapada como um filiado, pesca nas enxurradas, caça nas latrinas, extrai a alegria da imundície, anima os becos com o seu entusiasmo, é sarcás co e maldizente, assobia e canta, aplaude e pateia, tempera a Aleluia com Matanturlurette! Salmodia todos os ritmos desde o De profundis até à Chieenlit; acha sem procurar, sabe o que ignora, é esparciata até às raias da ratonice, é louco até tocar os limites da prudência, lírico até à obscuridade, capaz de se pôr de cócoras no Olympo, chafurda na imundície e sai dela coberto de estrelas.