Os Miseráveis
II — Onde se lêem dois versos cujo autor é talvez o diabo
...de Sabóia anualmente chegam,
E cujas mãos com ligeireza limpam
As altas chaminés que o fumo suja.
O bandido, apesar da sua prodigiosa força, não opôs resistência aos agentes de polícia. Segundo o hábil e eloquente órgão do ministério público, provou-se que o roubo foi pra cado de cumplicidade e que Jean Valjean fazia parte de uma quadrilha de salteadores que infestava o Meio-Dia. Em consequência disto, Jean Valjean, reconhecido criminoso, foi condenado à pena de morte e recusou apelar da sentença. O rei, porém, na sua inesgotável clemência, dignou-se comutar-lhe a pena de morte, que lhe fora infligida, na de trabalhos forçados por toda a vida, e, em virtude da régia resolução, Jean Valjean foi imediatamente reme do para as galés de Toulon.
Jean Valjean, quando residente em Montreuil-sur-mer, possuía hábitos religiosos, que em alguns actos da sua vida vera ocasião de patentear. Isto, pois, deu lugar a que alguns jornais apresentassem esta comutação como um triunfo do partido clerical.
Jean Valjean mudou de número nas galés. De 24.601, que era da primeira vez que ali es vera, passou para
9.430.
Quanto ao mais, digamo-lo por uma vez, com Madelaine desapareceu a prosperidade de Montreuil-sur-mer, tudo o que ele previra na sua noite de febre e de hesitação se realizou. Faltara-lhe ele, faltara-lhe a alma efec vamente. Após a sua queda, operou-se em Montreuil-sur-mer essa par lha egoísta das grandes existências caídas, esse desmembramento fatal das coisas florescentes, que todos os dias obscuramente se dá na comunidade humana, e de que a história uma só vez fez menção por ter acontecido após a morte de Alexandre. Os tenentes coroaram-se reis, os contra-mestres improvisaram-se fabricantes. As rivalidades invejosas surgiram. As vastas oficinas de Madelaine fecharam-se, os edi cios arruinaram-se, os operários dispersaram-se. Uns saíram do país, outros abandonaram a profissão. Daí em diante tudo se fez em pequena escala, com a mira no lucro, em vez de ser com a mira no bem. Descentralizou-se o comércio, estabeleceu-se por toda a parte a concorrência e o encarniçamento com que uns pretendiam suplantar os outros.
Madelaine dominava e dirigia tudo. Com a sua queda, cada qual puxou para o seu lado; ao espírito da organização sucedeu o espírito da luta; à cordialidade, a aspereza; à benevolência do fundador para com todos, o ódio mútuo de uns contra os outros. Os fios atados por Madeleine embaraçaram-se e quebraram-se; falsificaram-se os processos; envileceram-se os produtos; matou-se a confiança; e disto, como era natural, resultou a diminuição na procura, e, por consequência, a diminuição do consumo, o aba mento dos salários, a interrupção dos trabalhos nas oficinas, a frequência sucessiva das quebras. E, afora isto, nem um centavo para os pobres. Tudo se esvaeceu.
Estas consequências fizeram sen r os seus efeitos ainda mais longe. O próprio Estado conheceu que havia algures alguém esmagado. Em menos de quatro anos após a sentença do tribunal criminal, que em bene cio das galés dera por provada a iden dade de Madelaine e de Jean Valjean, as despesas feitas com a percepção dos impostos no distrito de Montreuil-sur-mer duplicaram, circunstância esta que o senhor de Villèle julgou dever observar do alto da tribuna, como efectivamente notou no mês de Fevereiro de 1827.
II — Onde se lêem dois versos cujo autor é talvez o diabo
Há em Mon ermeil uma velha supers ção, tanto mais curiosa e preciosa, quanto uma supers ção nas vizinhanças de Paris se assemelha a um aloés na Sibéria. Nós somos dos que respeitam tudo, que se apresenta no estado de planta rara.
Eis, pois, a supers ção de Mon ermeil: crê-se ali que o diabo escolheu, desde tempos imemoriais, a floresta, para ocultar os seus tesouros. As mulheres bem intencionadas afirmam que não é raro encontrar, no fim do dia, nos lugares mais recônditos do bosque, um homem preto, com a figura de um carreiro ou de um lenhador, de tamancos, com uma espécie de gabão, e que se torna notável por dois grandes chavelhos na cabeça, em vez de boné ou de chapéu. Por isto deve, com efeito, reconhecer-se.
Este homem ocupa-se ordinariamente a fazer uma cova. Há três maneiras de rar proveito deste encontro. A primeira é ir direito a ele e falar-lhe. Neste caso vê-se que o homem não é mais do que um camponês, que parece preto por ser a hora do crepúsculo, que não cava a mais pequena cova, mas que ceifa erva para as suas vacas, e que o que se nha julgado serem chavelhos não é senão um forcado de estrumeira, que traz às costas, e cujos dentes, graças à perspec va do fim do dia, parecem sair-lhe da cabeça. Entra-se em casa e morre-se nessa mesma semana. A segunda maneira, consiste em observá-lo, esperar que ele tenha aberto a cova, que a tenha fechado, e que se haja depois afastado; em seguida, correr direito a ela, abri-la e rar o tesouro, que o homem preto ali depositou necessariamente.
Quem assim fizer morre nesse mesmo mês. A terceira, enfim, consiste em não falar ao homem preto não olhar para ele, e fugir a sete pés. O que assim proceder ainda vive até ao fim do ano.
Como estas três maneiras têm todas os seus inconvenientes, a segunda, que oferece pelo menos algumas vantagens, e outras a da posse do tesouro, ainda que não seja senão por um mês, é a mais geralmente adoptada. Os atrevidos que não resistem a qualquer género de tentação, têm, pois, por muitas vezes, segundo se afirma, reaberto as covas feitas pelo homem preto e tentado roubar o diabo. Parece que a operação é pouco de convidar. Pelo menos, dando-se crédito à tradição, e par cularmente a dois versos enigmá cos em la m bárbaro que foram, a este respeito, legados por um mau frade normando, um tanto fei ceiro, chamado Tryphon. Este Tryphon está sepultado na abadia de S. Jorge de Bochervile, próximo de Rouen; sobre a sua sepultura nascem sapos.
Empregam-se esforços extraordinários, porque estas covas são ordinariamente muito fundas, sua-se, cava-se, trabalha-se toda a noite, pois é de noite que isto tem lugar, o ousado cavador nocturno sente a camisa alagada em suor, queima-se uma vela, enche-se de bocas uma enxada, e quando enfim se chega ao fundo da cova, quando se põe a mão no tesouro, o que se encontra?
O que é o tesouro do diabo? Um soldo ou quando muito um escudo, uma pedra, um esqueleto, um cadáver ensanguentado, muitas vezes um espectro dobrado em quatro como uma folha de papel numa carteira; e mesmo não é raro achar nada. É isto o que parece anunciarem aos curiosos indiscretos os versos de Tryphon: Fodit, et in fossa thesauros, condit opaca.
As nammas, lapides, cadaver, simulacra, nihilque.
«Cava e nas sombras um tesouro oculta
Da escura cova; um asse, algumas pedras,
Moedas, esqueletos; um cadáver,
Às vezes tudo isto, outra vez nada.»
Nos nossos dias parece que também se encontra nestas covas ora um polvorinho com balas, ora um baralho de cartas velho e ensebado, que de certo serviu ao diabo.
Tryphon não regista estes dois achados, mas deve-se atender a que Tryphon vivia no século XII e que parece que o diabo não teve a habilidade de inventar a pólvora antes de Rogério Bacon, nem as cartas antes de Carlos VI.
Quem jogar, porém, com estas cartas pode de antemão ter a certeza de que perderá tudo quanto possuir, e, quanto à pólvora do polvorinho, esta tem a propriedade de vos fazer rebentar a vossa espingarda na cara.
Ora pouco tempo depois da ocasião em que ao ministério público pareceu que o forçado solto Jean Valjean, na sua evasão de alguns dias, vagueara em torno de Mon ermeil, notou-se na mesma aldeia que um velho chamado Boulatruelle, de profissão cantoneiro, fazia as suas «idas» para o bosque. Acreditava-se na terra que o tal Boulatruelle já nha estado nas galés, pelo que andava sob a vigilância da polícia, e como, em razão daquele facto, não achava ninguém que quisesse dar-lhe que fazer, empregava-o a administração como cantoneiro do ramal de Gagny a Lagny, à conta de pouco salário.
Boulatruelle era um homem mal visto da gente da terra, mas respeitoso, humilde e sempre pronto em rar o seu boné a toda a gente, tremendo e sorrindo em presença dos gendarmes, filiado talvez em alguma quadrilha, segundo se dizia, e suspeito de sair à estrada, ao fechar da noite, nos sí os mais escusos dela. A única coisa que nha a seu favor, era o hábito de embebedar-se.
Eis aqui, pois, o que aos moradores de Montfermeil tinha dado motivo para reparo.
Havia tempos que Boulatruelle despegava muito cedo da sua tarefa de britar pedra e de vigiar pela conservação da estrada para se entranhar na floresta com o seu alvião às costas. Ali era encontrado à noi nha nas clareiras mais desertas, nos matagais mais fechados, com ar de quem procura o que quer que seja, às vezes abrindo covas.
Alguma pobre mulher que passava tomava-o primeiro por Belzebu, depois conhecia que era Boulatruelle, mas não ficava com isso mais sa sfeita. Estes encontros, porém, pareciam contrariar Boulatruelle fortemente. Era visível que ele procurava ocultar-se e que no que fazia havia algum mistério.
Diziam na aldeia:
— Não há dúvida nenhuma que apareceu o diabo. Boulatruelle viu-o e anda à sua procura. Ele é, com efeito, bastante esperto para que se não apodere do pecúlio de Lúcifer.
Os voltaireanos acrescentavam:
— Quem será o logrado? Será o diabo ou Boulatruelle?
As velhas, ao ouvir todos estes comentários, benziam-se atemorizadas, repe das vezes.
Porém, os manejos de Boulatruelle no bosque cessaram e ele voltou ao seu trabalho de cantoneiro, em que con nuou com a regularidade an ga, fazendo com isso que as conversas na aldeia versassem sobre outro objecto.
Todavia, a curiosidade de algumas pessoas con nuou, pois julgavam que sempre havia nisto não os fabulosos tesouros de que rezava a lenda, mas algum ganho inesperado mais palpável do que as notas de Banco do diabo, cujo segredo o cantoneiro teria naturalmente surpreendido até certo ponto. Os mais «encarniçados» eram o mestre-escola e o taberneiro Thenardier, o qual, sendo amigo de toda a gente, não desdenhava a amizade de Boulatruelle.
— Já esteve nas galés — dizia Thenardier — e a gente não sabe para que está neste mundo.
Uma tarde, o mestre-escola afirmou que se fosse noutro tempo, já a jus ça teria indagado o que Boulatruelle ia fazer ao bosque, que o obrigaria a confessar tudo, aplicando-lhe sendo preciso a tortura, e que Boulatruelle não resis ria, por exemplo, à tortura da água.