Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 178 de 359

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Os Miseráveis

III — Mário engrandecido

Em todas as suas provações sen a-se alentado e às vezes impelido por uma oculta

força que lhe vinha de dentro. A alma ajuda o corpo e chega mesmo algumas vezes a ampará-la. É a única ave que sustenta a gaiola em que está encerrada.

Ao lado do nome de seu pai, Mário nha gravado no coração outro nome o nome de Thenardier. O mancebo, dotado de uma natureza entusiás ca e arrojada, cercava de uma espécie de auréola o homem a quem, no seu conceito, devia a vida de seu pai, o intrépido sargento que salvara o coronel no meio das granadas de Waterloo. Não separava nunca a recordação desse homem da de seu pai, associando-se ambas na sua veneração. Era uma espécie de culto em dois altares, o mais alto para o coronel, o mais baixo para Thenardier. O que ainda mais aumentava a intensidade dos seus sen mentos de gra dão para com aquele homem era a lembrança do infortúnio de que ele sabia que Thenardier era ví ma. Mário soubera em Mon ermeil, quando ali foi indagar da existência do estalajadeiro, da sua quebra e desaparecimento. Depois fizera todos os esforços possíveis para dar com ele no tenebroso abismo da miséria, em que ele caíra.

Mário percorreu toda a localidade; foi a Chelles, a Bondy, a Gournay, a Nogent, a Lagny.

Durante três anos não afrouxou do seu propósito, gastando nessas pesquisas o pouco dinheiro, fruto das suas economias. Nem uma só pessoa, porém, encontrou que lhe desse novas de Thenardier, todos eram de opinião que o estalajadeiro se nha re rado para algum país estrangeiro. Os credores também o nham procurado com menos amor do que Mário, porém com a mesma insistência, e não nham conseguido dar com ele.

Mário acusava-se e lançava em rosto a si próprio não ter rado resultado nenhum das suas inves gações. Era a única dívida que o coronel lhe deixara para pagar, e por isso o mancebo julgava que era da sua honra solvê-la.

— Pois quê! — dizia ele consigo. — Quando meu pai jazia moribundo no campo de batalha, Thenardier soube dar com ele por entre o fumo e o granizo das balas, e levá-lo às costas para lugar seguro, sem nada lhe dever; e eu, que devo tanto a Thenardier, não hei-de dar com ele por entre a escuridão em que agoniza, para também o arrancar à morte e restituí-lo à vida? Oh, hei-de dar com ele!

Mário, efec vamente, de bom grado teria dado um braço para o encontrar e todo o seu sangue para o arrancar da miséria. Encontrar Thenardier, prestar-lhe um serviço de qualquer qualidade, dizer-lhe: «Você não me conhece, mas conheço-o eu. Aqui estou, disponha de mim!» Era o mais doce e magnífico sonho de Mário.

III — Mário engrandecido

Nessa época, Mário contava vinte anos e havia três que abandonara a casa de seu avô. De ambas as partes conservava-se tudo no mesmo estado sem que vesse havido a mínima tenta va de reconciliação, sem que ao menos diligenciassem avistar-se. No fim de contas, para que se haviam de avistar? Para haver novamente algum conflito? Qual deles cederia? Mário era o vaso de bronze, mas Gillenormand, seu avô, era a panela de ferro.

Digamo-lo em abono da verdade, Mário enganara-se na apreciação dos sen mentos de seu avô. Imaginara que Gillenormand nunca lhe vera amizade, que aquele velho seco, ríspido e risonho, que praguejava, gritava, ameaçava e erguia a bengala apenas nha por ele, quando muito, a afeição simultaneamente frívola e severa dos Gerontes de comédia. Nisto se enganava ele. Há pais que não têm amor aos filhos; não há, porém, um só avô que não adore os netos. Assim acontecia com Gillenormand.

O bom velho, no fundo do coração, idolatrava Mário. Idolatrava-o a seu modo, ralhando-lhe às vezes e até batendo-lhe; mas, em todo o caso, a sua ausência causara-lhe um vácuo negro no coração, e, não obstante exigir que não lhe falassem mais dele, interiormente sen a ser obedecido tanto à risca. Nos primeiros dias. Gillenormand supôs que o bonapar sta, o jacobino, o terrorista, o setembrista, voltaria, mas decorreram semanas, passaram-se meses, volveram anos, e, com grande pesar seu, o revolucionário não aparecia! «Mas eu, porventura, podia deixar de fazer o que fiz?» dizia a sós consigo o avô de Mário, e perguntava depois: «Acaso, se hoje se tornassem a dar as mesmas circunstâncias, eu tornaria a fazer o mesmo?» O seu orgulho respondia logo que sim, mas a sua cabeça de ancião, com a qual fazia um gesto silencioso, respondia tristemente que não. Mário fazia-lhe falta nas suas horas de aba mento. Os velhos precisam tanto de afeições como de sol. As afeições aquecem. Por mais ríspido que ele fosse de génio, a ausência de Mário operara-lhe grande mudança. Não haveria forças humanas que o fizessem dar um passo por aquele «velhaquete», porém, a sua falta doía-lhe, e, apesar de nunca perguntar por ele, nha-o constantemente no pensamento.

Gillenormand, que con nuava a viver no Marais, cada vez mais afastado do contacto do mundo, era ainda folgazão e arrebatado como dantes, porém a sua jovialidade nha certa dureza convulsiva, como que mo vada por um sen mento de dor e de cólera, e os seus arrebatamentos terminavam sempre por um aba mento em que predominava a brandura e a tristeza. Às vezes dizia:

— Oh, se ele voltasse, sempre havia de levar uma sova de mãos de mestre!

Pelo que respeita à a, como pensava pouco para poder amar muito, apenas se lembrava de Mário confusamente, vindo por úl mo a ocupar-se mais do gato ou do papagaio, que é provável tivesse, do que do mancebo.

O que ainda mais aumentava a secreta mágoa de Gillenormand era que a reprimia dentro do coração, sem desabafar com ninguém nem dar mostras do que interiormente sen a. As suas penas eram como os fogões modernamente inventados, os quais queimam o próprio fumo que dentro deles se desenvolve. Sucedia às vezes alguns indiscretos oficiosos falarem-lhe de Mário e perguntarem-lhe: «O que é feito do seu neto?» O velho burguês respondia suspirando, se estava demasiadamente triste, ou sacudindo com um piparote o punho bordado, se queria parecer alegre: «O senhor barão de Pontmercy ocupa-se por aí algures em qualquer coisa!»

Ao mesmo tempo que o velho passava a sua existência ralado de saudades, aplaudia-se Mário pelo seu procedimento. Como sucede a todos os corações bem formados, a desgraça destruíra-lhe o ressen mento. Não pensava em Gillenormand senão com doçura, mas resolvera não receber mais coisa alguma do homem «que tão mau fora para com seu pai». Era já a tradução mi gada das suas primeiras indignações. Além disto sen a-se sa sfeito por ter sofrido e por sofrer ainda. Sofria por seu pai. A sua vida di cil agradava-lhe. Dizia para consigo mesmo que tudo aquilo era o menos; que era uma expiação; que, não sendo assim, seria punido de outro modo e mais tarde, pela sua

ímpia indiferença para com seu pai, e um tal pai; que não seria justo que vesse cabido a seu pai todo o sofrimento e a ele nenhum; e de mais, o que eram os seus trabalhos e privações comparados com a vida heróica do coronel? Que, enfim, a única maneira de se aproximar de seu pai e de se lhe assemelhar era ser valente contra a indigência como ele fora bravo contra o inimigo; e era isto sem dúvida o que o coronel quisera dizer nestas palavras: Escuso dizer que será digno de mim palavras que Mário con nuava a trazer, não sobre o coração, porque tinha perdido o papel que as continha, mas gravadas nele.

E depois, quando seu avô o expulsara, era ele apenas uma criança, e agora era já um homem. Conhecia que o era. A miséria fora-lhe proveitosa. A pobreza na mocidade, quando é bem sucedida, tem de magnífico o voltar integralmente a vontade para o esforço constante e a alma para a aspiração. A pobreza mostra repen namente a vida material no seu perfeito estado de nudez e torna-a hedionda; daqui os inexplicáveis voos para a vida ideal. O mancebo rico tem mil distracções brilhantes e grosseiras: as corridas de cavalos, a caça, os cães, o tabaco, o jogo, os banquetes, e o resto; ocupações dos lados baixos da alma, à custa dos mais altos e delicados. O mancebo pobre tem de trabalhar para obter o pão; come, e depois de comer só tem meditação. Frequenta os espectáculos grá s que Deus dá; contempla o espaço, os astros, as flores, as crianças, a humanidade com a qual sofre, a natureza em que resplandece. Olha tanto para a humanidade que vê a alma, olha tanto para a criação que vê Deus. Sonha e sente-se enternecer. Do egoísmo do homem que sofre, passa à compaixão do homem que medita.

O sen mento que nele se manifesta é admirável: esquecimento de si e compaixão pelos outros. Pensando nos gozos sem número oferecidos pela natureza, dá e prodigaliza às almas abertas, recusa às que se conservam cerradas, e chega a las mar, ele, o milionário de inteligência, os milionários de dinheiro. Toda a espécie de raiva lhe desaparece do coração à medida que a luz lhe penetra no espírito. E no fim de tudo, é desgraçado?

Não. A miséria dum mancebo não é nunca miserável. Qualquer rapaz, seja qual for, por mais pobre que viva, com a sua saúde e vigor, o seu andar lesto e olhos brilhantes, com o sangue fervendo-lhe nas veias, cabelos pretos e faces frescas, lábios rosados, dentes brancos e hálito puro, causará sempre inveja a um imperador velho. E depois, recomeça em cada nova manhã a ganhar o seu pão; e enquanto as mãos não trabalham para o ganhar, ganha a sua espinha dorsal mais arrogância e mais ideias o seu cérebro. Terminada a tarefa volta aos êxtases inefáveis, às contemplações, às alegrias; vive com os pés nas aflições, nos obstáculos, na calçada, nos espinhos, muitas vezes na lama, mas com a cabeça envolta em luz. E firme, sereno, meigo, pacífico, atento, sério, benévolo, sempre contente com pouco, e dá graças a Deus por lhe ter concedido as duas riquezas que faltam a muitos ricos; o trabalho que lhe dá a liberdade e o pensar que o torna digno.