Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 285 de 359

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Os Miseráveis

V — Fim dos versos de Jean Prouvaire

Mário entrara na loja e pegara no barril de pólvora; depois, aproveitando-se do fumo e da espécie de nevoeiro que enchera o recinto entrincheirado, correu encostado à barricada até ao ponto em que estava a espécie de caixa de pedras que abrigava o archote.

Tirar dali o archote e pôr no seu lugar o barril de pólvora, impelir as pedras para cima do barril, que logo se abriu com uma espécie de terrível obediência, fora tudo executado por Mário no tempo de se baixar e de se tornar a endireitar; e então, todos, guardas nacionais e municipais, oficiais e soldados, como que encolhidos no outro extremo da

barricada, encararam-no cheios de pasmo, de sobre as pedras, com o archote na mão, o al vo rosto iluminado! por uma resolução fatal, inclinando a chama do archote para o terrível montão onde se dis nguia o barril de pólvora arrombado, e soltando este grito aterrador:

— Retirem-se, ou faço ir pelos ares a barricada!

Mário sobre aquela barricada depois do octogenário, era a visão da revolução nova depois da aparição da velha revolução.

— Ir pelo ar a barricada! — disse o sargento. — E tu também!

Mário respondeu:

— E eu também!

E aproximou o facho do barril de pólvora.

Mas não havia já ninguém na trincheira. Os assaltantes, abandonando os seus mortos e feridos, refluindo em confusão e desordem para o extremo da rua, ali se perderam novamente na escuridão. Foi um salve-se quem puder!

A barricada estava desembaraçada.

V — Fim dos versos de Jean Prouvaire Todos rodeavam Mário. Courfeyrac deitou-se-lhe ao pescoço.

— Eis-te enfim!

— Que felicidade — exclamou Courfeyrac.

— Chegaste a tempo! — disse Bossuet.

— Se não fosses tu já estava morto! — tornou Courfeyrac.

— Se não fosse o senhor, também eu já estava estripado! — acrescentou Gavroche.

Mário perguntou:

— Onde está o chefe?

— O chefe és tu! — disse Enjolras.

Mário vera durante todo o dia uma fornalha no cérebro, agora era um turbilhão que residia nele e que lhe parecia arrebatá-lo.

Afigurava-se-lhe estar já a imensa distância da vida. Os seus dois breves e luminosos meses de júbilo e de amor terminado de um modo abrupto naquele medonho precipício.

Cose e perdida para ele, aquela barricada, o senhor Mabeuf fazendo-se matar pela república, ele próprio chefe de insurgentes, eram tudo coisas que por momentos lhe pareceu monstruoso pesadelo. Era obrigado a empregar um esforço de espírito para se recordar de que tudo que o rodeava era com efeito realidade. Mário nha ainda vivido pouco para saber que não há nada tão iminente como o impossível e que o que deve sempre prever-se é o imprevisto.

Mário assistia ao seu próprio drama como a uma peça que se não compreende.