Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 99 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Desgosto de recolher em casa um pobre que é talvez rico

— E que não corta?

— Ai, corta, sim, senhor; corta salada e cabeças de moscas.

Nisto chegaram à aldeia e Cose e guiou o viajante pelas ruas. Passaram pela padaria, porém, Cose e não se lembrou de que lhe nham mandado levar um pão. O homem havia cessado de fazer-lhe perguntas e guardava um silêncio triste. Depois que passaram a igreja, o homem, vendo todas aquelas barracas ao ar livre, perguntou a Cosette:

— Isto aqui é alguma feira?

— Não, senhor, é o Natal.

Ao aproximarem-se da estalagem, Cose e disse-lhe, tocando-lhe o braço timidamente:

— Ó senhor...

— Que é, minha filha?

— Estamos ao pé de casa.

— E então?

— Faz favor de me dar agora o balde?

— Porquê?

— É porque se a patroa vê que não fui eu que o trouxe, bate-me.

O homem deu-lhe o balde e um instante depois estavam à porta da taberna.

VIII — Desgosto de recolher em casa um pobre que é talvez rico Cose e não pôde deixar, de olhar para a grande boneca ainda garbosamente exposta na loja do quinquilheiro, após o que bateu à porta. Esta abriu-se e apareceu a Thenardier com uma vela na mão. — Ah, és tu, minha sonsa! Ora graças a Deus, custou-te! A sonsa pôs-se por lá a brincar, decerto!

— Senhora — disse Cosette, tremendo — está aqui um senhor que quer cá ficar.

A Thenardier subs tuiu logo o seu gesto de enfado pela sua careta amável, mudança visível par cular aos estalajadeiros, e procurou avidamente com os olhos o recém-chegado.

— É o senhor? — perguntou ela.

— Sim, senhora — respondeu o homem, levando a mão ao chapéu.

Não são tão polidos os viajantes ricos. Este gesto e a inspecção do vestuário e da bagagem do novo hóspede, que a Thenardier passou em revista num relancear de olhos, fizeram desvanecer a careta amável e reaparecer o aspecto carrancudo. A estalajadeira disse secamente:

— Entre, bom homem.

O «bom homem» entrou. A Thenardier deitou-lhe segundo relancear de olhos, examinou com par cularidade o seu casacão, que não nha pêlo absolutamente nenhum, e o chapéu, que estava alguma coisa amassado, e consultou com um abanar de cabeça, com um franzir de nariz e um piscar de olhos, o marido que con nuava a beber com os carreteiros. O marido respondeu por essa impercep vel agitação do índex, que apoiada pelo estender dos beiços, significava em tal caso: «miséria completa». Em virtude disto, a Thenardier exclamou:

— Ai, é verdade, honrado homem! Sinto muito, mas já não tenho lugar.

— Seja onde for — disse o homem — no alpendre ou na cavalariça. Pagarei como se dormisse num quarto.

— Quarenta soldos.

— Seja por quarenta soldos.

— Pois então está servido.

— Quarenta soldos! — disse um carreteiro em voz baixa à Thenardier — o costume são só vinte.

— Mas para ele são quarenta — replicou a Thenardier no mesmo tom. — Não dou hospedagem a pobres por menos.

— É verdade — acrescentou o marido também em voz baixa — não acredita nada uma casa receber desta casta de gente.

Neste meio tempo nha-se o homem, depois de haver deixado em cima de um banco

o embrulho e o cajado, sentado a uma mesa, na qual Cose e pusera com presteza uma garrafa de vinho e um copo. O homem que pedira o balde de água fora levá-lo ao cavalo.

Quanto a Cosette tornara a pegar na meia e fora para o seu lugar debaixo da mesa.

O homem, que havia apenas molhado os lábios no copo de vinho que despejara da garrafa, contemplava a criança com estranha atenção.

Cose e era feia. Feliz, talvez vesse sido bonita. Nós já esboçámos esta figurazinha escura. Cose e nha perto de oito anos. Ao ver, porém, a sua palidez e magreza, dar-selhe-iam apenas seis. A força de chorar nha-se-lhe quase que ex nto o brilho dos seus grandes olhos, envoltos numa espécie de sombra. Nos cantos da boca nha essa curva de angús a habitual que se observa nos sentenciados e nos doentes sem esperança de cura. As mãos dela estavam como o adivinhara sua mãe, «comidas de frieiras». O clarão da fogueira, que naquela ocasião a iluminava, fazia-lhe sobressair os ângulos dos ossos., tornando terrivelmente visível a sua magreza. Como andava sempre a ritar com frio, contraíra o hábito de apertar os joelhos um contra o outro. O seu vestuário era todo um farrapo, que de Verão faria lás ma e no Inverno causava horror. A pobre criança não trazia sobre o corpo senão um pano esburacado; nem um único trapo de lã.

Aqui e além via-se-lhe a pele e dis nguiam-se-lhe por toda a parte umas manchas azuis ou negras que indicavam os sítios em que a Thenardier a havia espancado.

As suas delgadas perninhas andavam de con nuo expostas ao frio, o que as tornava excessivamente vermelhas. A cavidade que se lhe formava nas clavículas fazia chorar.

O seu andar, a sua a tude, o som da sua voz, os seus intervalos entre uma e outra palavra, o seu olhar, o seu silêncio, o seu menor gesto, toda a sua pessoa, enfim, exprimia e traduzia uma só ideia: «o receio».

O receio estava espalhado por ela toda; ela estava, para assim dizer, coberta dele; o receio ligava-lhe os cotovelos aos quadris, escondia-lhe os calcanhares debaixo das saias, fazia-lhe ocupar o menor espaço possível, deixava-lhe apenas tomar a respiração necessária, e tornara-se-lhe o que se podia chamar o hábito do seu corpo, sem variação possível, senão para aumentar. No fundo das pupilas dos seus olhos havia um espaço espantado, onde existia o terror.

Era tal o receio, que Cose e, ao chegar, apesar de toda molhada como estava, não ousara ir enxugar-se ao lume, pondo-se de novo silenciosamente a trabalhar.

A expressão do olhar daquela criança de oito anos era habitualmente tão triste e às vezes tão trágica, que em certas ocasiões parecia que ela estava próxima a tornar-se uma idiota ou um demónio.

Cosette jamais soubera o que era rezar, jamais pusera o pé numa igreja:

— Eu tenho lá tempo para essas coisas? — dizia a Thenardier.

O homem do casacão amarelo não despegava os olhos de Cosette.

De súbito, a Thenardier exclamou:

— É verdade! E o pão?

Cose e, segundo o costume, todas as vezes que a Thenardier elevava a voz, saía apressadamente de debaixo da mesa.

A infeliz criança esquecera-se completamente do pão. Recorreu, portanto, ao

expediente das crianças a quem nunca larga o medo: mentiu.

— Senhora, o padeiro estava fechado.

— Batesses.

— Eu bati, senhora.

— E então?

— Ninguém veio abrir.

— Amanhã hei-de saber se isso é verdade — disse a Thenardier — e, se men ste, conta que te farei dançar! Mas dá cá os quinze soldos que te dei para o trazeres.

Cose e meteu a mão na algibeira do seu avental e tornou-se verde. A moeda de quinze soldos não estava lá.

— Então? — tornou a Thenardier. — Ouviste o que eu te disse?

Cose e virou a algibeira, mas esta nada nha. De que modo teria desaparecido aquele dinheiro? A infeliz criança não achou uma palavra. Estava petrificada.

— Querem vocês ver que os perdeu? — grunhiu a Thenardier. — Ou quererás tu roubar-mos?

E ao mesmo tempo estendeu o braço para a palmatória pendurada ao pé da chaminé.

Este gesto temível deu a Cosette força para gritar:

— Perdão, senhora! Senhora, eu não torno a fazer outra!

A Thenardier, porém, tirou a palmatória.

Neste momento o homem do casacão amarelo metera a mão no bolso do colete sem que ninguém reparasse neste movimento, pois que os outros viajantes bebiam ou jogavam sem prestar atenção a mais nada.

Cose e enovelava-se com angús a ao canto da chaminé, procurando juntar e esquivar os pobres membros meio nus ao castigo terrível que a ameaçava.

— Perdão, senhora — disse o homem ao ver a Thenardier erguer o braço — há pouco vi cair do bolso do avental dessa pequena, não sei o quê para o chão, e o que foi rolou.

Talvez seja isso.

Ao mesmo tempo baixou-se e pareceu procurar no chão um instante.

— Justamente, cá está — tornou ele, erguendo-se.

E estendeu a mão para a Thenardier com uma moeda de prata.

— É verdade, é isso — disse ela.

Não era aquilo, pois era uma moeda de vinte soldos, e a que ela dera a Cose e era de quinze. A Thenardier, porém, que lucrava, meteu o dinheiro na algibeira e limitou-se a lançar um olhar feroz à pobre criança, dizendo:

— Ora, não te torne a acontecer outra!

Cose e recolheu-se ao que a Thenardier chamava o «nicho» dela e os seus grandes olhos fixos no viajante desconhecido principiaram a tomar uma expressão que nunca dantes veram. Não era ainda mais do que um espanto ingénuo, porém de envolta com uma espécie de confiança estupefacta.

— É verdade, você quer cear? — perguntou a Thenardier ao viajante.

Este, porém, não respondeu. Parecia abismado numa meditação profunda.

— Que diabo de homem será este? — murmurou ela por entre dentes. — É algum

pobretão, que não tem um real de seu para cear. Pagar-me-á ele ao menos a noitada?

Assim mesmo, foi uma fortuna não lhe ocorrera lembrança de pegar no dinheiro que estava no chão e guardá-lo.

A este tempo abriu-se uma porta e Eponina e Azelma entraram.

Eram, realmente, duas lindas rapariguinhas, mais burguesas do que camponesas, sobremodo engraçadas, uma com as suas tranças cor de castanha muito luzidias, a outra com os seus compridos cabelos negros deitados pelas costas abaixo, ambas vivas, asseadas, gordas, frescas e sadias, que era um gosto vê-las. Ves am roupas de agasa-lho, porém com tal arte maternal, que a grossura das fazendas nada rava à garridice do vestuário. Provera-se às exigências do Inverno, sem desflorar as graças da Primavera. Parecia que irradiavam luz aquelas duas crianças. Além disto nham maneiras de rainhas. No seu vestuário, na sua alegria, no barulho que faziam havia certo aspecto de soberania.

Quando elas entraram, a Thenardier disse, num tom de quem ralha, mas que era cheio de meiguice:

— Aí vêm vocês agora!

Depois exclamou, puxando-as para os joelhos uma após outra, alisando-lhes os cabelos, atando-lhes as tranças e largando-as em seguida com essa maneira doce de sacudir própria das mães:

— Olhem, têm o fato todo amarrotado.

As duas crianças foram sentar-se ao pé do lume dando mil voltas a uma boneca que nham no regaço e acompanhando o seu infan l folguedo com toda a espécie de alegres gorjeios. De vez em quando, Cose e levantava os olhos da meia em que trabalhava e punha-se a vê-las brincar com ar lúgubre. Porém, Eponina e Azelma não olhavam para Cose e, a quem consideravam como um cão. Aquelas três crianças não nham vinte e quatro anos entre todas e já representavam toda a sociedade humana: de uma parte a inveja, da outra o desdém.

A boneca com que as filhas da estalajadeira brincavam, apesar de velha e quebrada, nem por isso parecia menos admirável a Cose e, que nunca na sua vida vera uma boneca, uma verdadeira boneca, para nos servirmos de uma expressão que todas as crianças compreenderão.

De repente, a Thenardier, que con nuava a passear pela casa de um lado para o outro, deu fé de que Cose e estava distraída e que em vez de trabalhar se ocupava a olhar como as pequenas brincavam.

— Ah, espera que eu já te digo! — gritou ela. — Eu quero saber se assim é que se trabalha! Deixa que eu vou fazer-te trabalhar com a palmatória.

O desconhecido voltou-se então para a Thenardier, sem se levantar da cadeira, e disse-lhe, sorrindo, quase com ar de receio:

— Ora adeus, senhora, deixe-a também brincar!

Da parte de qualquer hóspede, que vesse ceado convenientemente e bebesse duas garrafas de vinho e que não vesse o aspecto de um mendigo, seria uma ordem a manifestação de semelhante desejo. Mas que um homem com semelhante chapéu

vesse a ousadia de ter um desejo, que um semelhante casacão vesse a ousadia de ter uma vontade, era o que a Thenardier julgava não dever tolerar, e por isso replicou com azedume:

— Já que come, que trabalhe. Eu não a tenho em casa para ela estar com as mãos debaixo dos braços.

— Mas que é que ela faz? — tornou o recém-chegado com uma voz doce, que tão estranhamente contrastava com os seus trajes de mendigo e com os seus ombros de moço de fretes.

A Thenardier dignou-se responder:

— Faz meia para minhas filhas, que estão sem elas, quase, e que não tardarão a andar descalças.

O homem olhou para os pobres pés vermelhos de Cosette e continuou:

— Quanto tempo levará ela a fazer aquele par de meias?

— Da maneira como é preguiçosa, ainda tem para três ou quatro dias puxados.

— E quanto valerão depois de feitas?

A Thenardier deitou-lhe um olhar desdenhoso.

— Trinta soldos pelo menos.

— Quer a senhora dá-las por cinco francos? — tornou o homem.

— Caramba! — exclamou com um sorriso alvar um carreteiro que escutava a conversa.

— Cinco francos? Repare bem! Olhe que são cinco rodinhas!...

O estalajadeiro julgou do seu dever tomar a palavra.

— Pois não, senhor; se tem esse desejo, dão-se-lhe as meias pelos cinco francos. Nós cá não sabemos recusar nada aos viajantes.

— Mas é no caso de pagar já — disse a mulher com o seu modo breve e peremptório.

— Fico com as meias — respondeu o homem, e acrescentou, rando do bolso uma moeda de cinco francos que pôs em cima da mesa — e pago-as já.

Em seguida voltou-se para Cosette:

— Brinca, minha filha, que o teu trabalho agora pertence-me.

Aquela moeda de cinco francos impressionou tanto o carreteiro que este largou o copo e veio ver a correr.

— E é verdade! — gritou ele, examinando-a. — Uma verdadeira roda traseira! E não é das falsas!

O Thenardier aproximou-se então e meteu silenciosamente a moeda de cinco francos na algibeira.

Aquilo não nha a mulher que replicar. Apenas mordeu os beiços, tomando-lhe o rosto uma expressão de ódio.

Cosette, porém, tremia, e aventurou-se a perguntar:

— Senhora, é verdade? Eu posso brincar?

— Brinca! — disse-lhe a Thenardier com uma voz terrível.

— Muito obrigada — disse Cosette.

E enquanto com a boca agradecia à Thenardier, agradecia com o seu coraçãozinho ao viajante.

O estalajadeiro foi pôr-se outra vez a beber e a mulher disse-lhe ao ouvido:

— Quem será este homem de amarelo?

— Tenho visto milionários com casacões assim — respondeu ele com gesto soberano.

Cose e pousou a meia e, sem sair do seu lugar, pois a pobre criança bulia-se o menos que lhe era possível, rou de uma caixa que lhe ficava por trás, alguns farrapos velhos e a sua espadazinha de chumbo.

Eponina e Azelma não prestavam atenção nenhuma ao que se passava. Acabavam de executar uma operação importante; nham agarrado o gato sem lhes importar a boneca, que atiraram ao chão, e Eponina, a mais velha, enfaixava-o, apesar das suas contorções e dos seus estrídulos miaus, com uma infinidade de panos e farrapos vermelhos e azuis.

Ao mesmo tempo, porém, que se ocupava neste grave e di cil trabalho, dizia sua irmã nessa doce e adorável linguagem infan l, cuja graça desaparece quando a pretendem fixar, semelhante ao esplendor das asas das borboletas:

— Olha, Zelma, vês como esta boneca é mais diver da do que a outra? Olha como ela grita, como está quente e desinquieta. Brinquemos, sim? Eu sou uma senhora, e depois isto há-de ser a minha filha, e eu hei-de vir visitar-te e tu pões-te a examiná-la.

Pois sim? Tu depois começas a ver-lhe pouco a pouco as barbas e ficas muito admirada; depois as orelhas e o rabo, e cada vez te espanta isto mais. E hás-de dizer-me:

«Ai, meu Deus!» e eu digo-te: «Sim, minha senhora, aqui lhe trago a minha menina.

Agora as meninas usam-se assim».

Azelma escutava Eponina com admiração.

Ao mesmo tempo, porém, que entre as duas crianças nha lugar esta cena, os fregueses da taberna puseram-se a cantar uma can ga obscena que os fazia rir tão estrondosamente, que parecia que tremia o tecto.

O estalajadeiro animava-os e acompanhava-os na ruidosa manifestação da sua alegria.

Do mesmo modo que as aves. com qualquer coisa fazem um ninho, assim as crianças de qualquer coisa arranjam uma boneca. Enquanto Eponina e Azelma enfaixavam o gato, Cose e, pela sua parte, enfaixara a espada. Feito isto, deitou-a nos braços e pôs-se a embalá-la neles, cantando para a fazer adormecer.

A boneca é uma das mais imperiosas necessidades e juntamente um dos mais engraçados ins ntos da infância feminina. Preparar, enfeitar, ves r, despir, tornar a ves r, ensinar, ralhar, embalar, afagar, adormecer, figurar de qualquer coisa uma pessoa, todo o futuro da mulher consiste nisto. A cismar e a tagarelar, a fazer enxovaizinhos e ves dinhos, corpinhos e roupõezinhos, a criança torna-se adolescente, a adolescente donzela, e a donzela mulher. A primeira criança continua a última boneca.

Uma criança sem boneca é quase tão infeliz e tão completamente impossível como uma mulher sem filhos.

Cosette, pois, tinha feito da espada uma boneca.

Quanto à Thenardier, chegara-se para o pé do homem de amarelo e dizia consigo:

«Meu marido tem razão, talvez este homem seja Laffite. Há ricos tão pantomineiros!»

E após isto foi encostar-se à mesa a que ele estava sentado.

— Senhor... — disse ela.

A esta palavra senhor, o homem voltou-se, pois, a Thenardier ainda o não havia tratado senão por honrado homem, ou bom homem.

— Olhe, senhor — prosseguiu ela, tomando o seu ar adocicado, que ainda era mais desagradável à vista do que o seu gesto feroz — eu não levo a mal que a pequena brinque, nem me oponho a isso, mas é por esta vez só, porque o senhor é generoso. Ela não tem nada de seu, portanto precisa de trabalhar.

— Visto isto, não é sua a pequena? — perguntou o homem.

— Oh, meu Deus! Não, senhor! É uma pobrezita que nós recolhemos assim por caridade. Uma espécie de tolinha; aquilo tem água na cabeça por força; o senhor bem vê como ela tem a cabeça grande. Não somos ricos, mas, enfim, fazemos-lhe o bem que podemos. Por mais que tenhamos escrito para a terra dela, vai há seis meses que não nos respondem. Enquanto a mim, é porque a mãe morreu.

— Ah! — disse o homem, recaindo na sua meditação.

— Também fraca mãe era — acrescentou a Thenardier — uma mãe que não quer saber da filha!...

Durante toda esta conversação, Cose e, como se um ins nto a avisasse de que falavam dela, não despregava os olhos da Thenardier, escutando, porém, ouvindo apenas vagamente aqui e ali algumas palavras.

No entanto, repe am os bebedores, já quase a cair de bêbados, a sua imunda can ga com maior alegria. Era um agregado de facécias infames, em que figurava a Virgem e o Menino Jesus, de envolta com as maiores desones dades. A Thenardier fora tomar parte na alegria dos comensais, que se manifestava por estrondosas gargalhadas. Cose e olhava debaixo da mesa para a fogueira, cujo clarão se lhe reverberava nos olhos fixos e pusera-se de novo a embalar a trouxazinha que fizera, cantando em voz baixa, ao passo que a embalava: «Minha mãe já morreu! Minha mãe já morreu! Minha mãe já morreu!»

Em virtude de novas insistências da estalajadeira, o homem de amarelo, «o milionário», anuiu, enfim, a cear.

— Que há-de querer o senhor?

— Pão e queijo — respondeu o homem.

«Decididamente é um farroupilha», disse consigo a Thenardier.

Os bêbados con nuavam a cantar a sua obscena can ga e Cose e debaixo da mesa continuava também a sua.

De repente, Cose e interrompeu-se. Acabara de se voltar e avistar a boneca das filhas da estalajadeira, a qual haviam deixado pelo gato e a rado ao chão a alguns passos da mesa da cozinha.

A criança deixou então cair a espada feita boneca que mal preenchia o seu fim e circunvagou a vista por toda a casa. A Thenardier falava baixo ao marido e contava dinheiro; Ponina e Zelma brincavam com o gato; os viajantes comiam ou bebiam ou cantavam; ninguém a via, ninguém fixava os seus olhares sobre ela. Não havia, pois, um momento a perder. Saiu de debaixo da mesa, arrastando-se nos joelhos e nas mãos, cer ficou-se outra vez de que a não observavam e em seguida dirigiu-se com ligeireza para a boneca e pegou nela. Daí a um instante estava outra vez sentada no seu lugar e imóvel, porém, com as costas voltadas de modo a fazer sombra à boneca que nha no regaço. Era tão rara para ela aquela ventura de brincar com uma boneca, que essa ventura tinha toda a violência de uma voluptuosidade.

Ninguém a vira, excepto o viajante do casacão, que comia pausadamente a sua frugal ceia.

Durou cerca de um quarto de hora aquela alegria.

Porém, por maiores precauções que Cose e tomasse, não deu fé que um dos pés da boneca estava à mostra e que a fogueira a iluminava com um clarão demasiado vivo.

Aquele pé cor-de-rosa e luminoso, que se destacava na sombra, feriu de súbito o olhar de Azelma, que disse para Eponina:

— Ó mana, olha!

As duas crianças estacaram, estupefactas. Cose e vera a ousadia de lhes pegar na boneca!

Eponina ergueu-se e, sem largar o gato, dirigiu-se para sua mãe e pôs-se-lhe a puxar pela saia.

— Deixa-me! — disse a mãe. — Que queres?

— Ó mãe — disse a criança — ora olhe!

E Eponina apontava para Cosette.

Esta, porém, toda embevecida no êxtase da posse, não via nem ouvia nada.

O rosto da Thenardier tomou então essa expressão par cular, que se compõe do terrível aplicado às ninharias da vida, e que é causa de que a esta casta de mulheres se dê o nome de megeras.

Desta feita, a soberba ofendida ainda mais exasperava a sua cólera. Cose e transpusera todas as barreiras, atentando contra a boneca «daquelas meninas». A figura de uma czarina, ao ver pôr a um moujick o grande cordão azul de seu imperial filho, teria a mesma expressão.

A estalajadeira gritou em voz enrouquecida pela indignação:

— Cosette!

A criança estremeceu como se o chão se lhe abrisse debaixo dos pés e voltou-se.

— Cosette! — repetiu a Thenardier.

Cose e pegou na boneca e pô-la cautelosamente no chão com uma espécie de veneração misturada de angús a. Então, sem despegar os olhos dela, apertou as mãos, e, coisa terrível de dizer numa criança de tal idade, torceu-as; depois, o que não pudera arrancar-lhe nenhuma das impressões daquele dia, nem a ida ao bosque, nem o peso do balde, nem a perda do dinheiro, nem a vista da palmatória, nem mesmo a sombria palavra que ouvira proferir à Thenardier Cosette desatou a chorar.

— Então que é isto? — perguntou o viajante, que se levantara da mesa.

— Pois não vê? — respondeu a Thenardier, apontando para o corpo do delito que jazia aos pés de Cosette.

— Mas que foi? — tornou o homem.

— Que foi? — respondeu a Thenardier. — Pois esta esfarrapada não teve o atrevimento de tocar na boneca das pequenas?

— Ora! E para isso é preciso tanto barulho? — disse o homem. — E então que nha que ela brincasse com a boneca?

— Tocar-lhe com aquelas mãos sujas! — prosseguiu a Thenardier. — Com aquelas mãos que metem nojo!

Cosette redobrou os soluços.

— Tu calas-te?! — gritou-lhe a Thenardier.

O homem foi direito à porta da rua, abriu-a e saiu.

Mal ele saíra, a Thenardier aproveitou a sua ausência para dar a Cose e, por baixo da mesa, um grande pontapé, que a fez soltar descompassados gritos.

A porta tornou a abrir-se e o homem do casacão apareceu de novo, trazendo nas mãos a fabulosa boneca de que falámos, e que todas as crianças da aldeia contemplavam desde pela manhã, com os mais visíveis sinais de admiração.

— Toma, isto é para ti — disse para Cosette, pondo a boneca de pé diante dela.

Devemos crer que havia mais de uma hora, tempo em que ali se encontrava, que ele nha, no meio do seu cogitar, notado confusamente aquela loja de quinquilharias tão esplendidamente esclarecida por velas e lampiões, que se avistava como uma verdadeira iluminação por entre as vidraças da taberna.

Cose e, que o vira dirigir-se para ela com aquela boneca, como veria ir o Sol; que lhe ouviu aquelas palavras inauditas: Isto é para , olhou para ele e para a boneca, depois recuou lentamente e foi-se esconder debaixo da mesa no sí o mais re rado, ao pé do recanto da parede.

Cose e já não chorava, nem gritava, nem mesmo ousava tomar a respiração livremente, ao que parecia.

Thenardier, Eponina e Zelma, eram outras tantas estátuas. Até os bebedores nham estacado no meio das suas estrepitosas libações. Operara-se um silêncio solene em toda a sala da baiuca.

A Thenardier, após o primeiro sobressalto que a deixara petrificada e muda, voltou de novo às suas conjecturas. «Quem diabo será este velho? Será algum pobre ou algum milionário? Talvez seja ambas as coisas, isto é, um ladrão».

Quanto ao estalajadeiro, a sua fronte encrespou-se-lhe nessa ruga expressiva que acentua o rosto humano todas as vezes que a ele acode o ins nto predominante com todo o seu bes al poder. O taberneiro contemplava alternadamente a boneca e o viajante, parecendo farejar aquele homem, como farejaria um saco de dinheiro. Porém, isto durou apenas o tempo de um relâmpago. O estalajadeiro acercou-se da mulher e disse-lhe em voz baixa:

— Olha que a boneca não custou menos de trinta francos; nada de asneiras, pois; de cabeça baixa diante do homem.

Entre as naturezas grosseiras e as naturezas ingénuas há de comum o não terem transições.

— Então, Cose e — disse a Thenardier, com uma voz que queria tornar doce, mas que se compunha porém desse mel agro das mulheres más — não pegas na tua boneca?

Cosette aventurou-se a sair do seu esconderijo.

— Anda cá, filha — tornou a Thenardier, com ar carinhoso — este senhor dá-te uma boneca, por consequência pega nela, que é tua.

A criança, porém, contemplava a maravilhosa boneca com uma espécie de terror.

O seu rosto estava ainda inundado de lágrimas, mas os seus olhos principiavam a encher-se, como o céu ao crepúsculo da manhã, dos clarões de uma estranha alegria. O

que ela naquela ocasião experimentava era alguma coisa semelhante ao que sen ria, se repentinamente lhe dissessem: «Pequena, tu és a rainha de França».

Parecia-lhe que se tocasse na boneca sairiam dela trovões, o que, até certo ponto, era verdadeiro, por isso que esperava que a Thenardier ralhasse e lhe batesse.

Não obstante, a atracção venceu-a. Aproximou-se por fim da boneca e murmurou, olhando timidamente para a Thenardier:

— Posso pegar-lhe, senhora?

Não há expressão que pudesse representar o seu aspecto, ao mesmo tempo desesperado, cheio de espanto e arrebatamento.

— Já te disse que é tua! — exclamou a Thenardier.

— Uma vez que este senhor ta ofereceu.

— Deveras, senhor? — tornou Cosette. — É verdade? Aquela senhora é para mim?

O desconhecido parecia ter os olhos cheios de lágrimas; parecia achar-se nesse estado de comoção em que se não fala para não se chorar. Portanto, limitou-se a fazer àquela criança um aceno afirmativo com a cabeça, colocando sobre a dela a mão da senhora.

Cose e re rou a mão com presteza, como se a da boneca a escaldasse, e pôs-se a olhar para o chão. Somos obrigados a acrescentar que ela, naquela ocasião, estendia uma língua desmesuradamente grande. De repente voltou-se e pegou na boneca com arrebatamento.

— Hei-de pôr-lhe o nome de Catarina — disse ela.

Foi um espectáculo momentâneo, porém sobremodo estranho, quando os andrajos de Cose e encontraram e abraçaram as fitas e as frescas cassas, cor-de-rosa daquela boneca.

— A senhora deixa-me pô-la em cima de uma cadeira? — tornou ela.

— Põe, filha, põem-na onde quiseres — respondeu a Thenardier.

Agora eram Eponina e Azelma que olhavam com inveja para Cosette.

Cose e pôs a boneca, a quem dera o nome de Catarina, em cima de uma cadeira, depois sentou-se no chão diante dela, e ficou imóvel, sem dizer uma palavra, em a tude contemplativa.

— Então, Cosette, não brincas? — disse-lhe o generoso hóspede.

— Oh, eu estou a brincar! — respondeu a criança.

Aquele desconhecido, que parecia uma visita que a Providência fazia a Cose e, era naquela ocasião a coisa que a Thenardier mais odiava no mundo. Todavia, não havia remédio senão constranger-se, conquanto as comoções porque passava fossem mais que as; que ela podia suportar, por mais habituada que es vesse à dissimulação pela cópia que procurava fazer de seu marido em todas as suas acções. Apressou-se, pois, a mandar deitar as filhas, pedindo depois ao desconhecido licença para mandar deitar também

Cose e que devia estar cansadinha de todo, acrescentou ela com ar maternal. Cose e foi deitar-se, portanto, levando Catarina nos braços.

De vez em quando, a Thenardier ia até à outra extremidade da sala, onde estava o marido, para aliviar a alma, dizia, e trocava com ele algumas palavras, tanto mais furiosas, por isso que não ousava dizê-las em voz alta:

— Maldito estafermo! Vir aqui dar-nos ordens! Quer agora ver brincar o mostrengo da rapariga e dar-lhe a boneca! Dar bonecas de quarenta francos a uma cadela que eu daria por quarenta soldos! Se se demora mais um instante, tratava-se por majestade como à duquesa de Berry. Isto tem lá pés, nem cabeça? Este velho misterioso está doido!

— Porquê? Ora, é uma coisa muito simples — replicava o marido. — Se faz gosto disso... Tu gostas que a pequena trabalhe, ele gosta de a ver brincar. Está no seu direito.

Um passageiro pode fazer o que quiser, uma vez que pague. Se o velho é algum filantropo, que te importa a isso? Se é um pateta, isso não é con go. Que te importam essas coisas, uma vez que ele tem dinheiro?

Linguagem e raciocínio de estalajadeiro, duas coisas, das quais nenhuma admi a réplica.

O homem encostara-se à mesa e retomara a sua a tude medita va. Os outros viajantes, dos quais uns, eram bufarinheiros, outros carreteiros, nham-se afastado todos e já não cantavam. Contemplavam-no a distância com uma espécie de temor respeitoso. Aquele sujeito tão pobremente ves do, que rava do bolso rodas traseiras com tanta facilidade; e que prodigalizava bonecas gigantescas a sujas raparigas de tamancos, era decerto um velho magnânimo, mas temível.

Decorreram algumas horas. A missa do galo acabara, a ceia terminara, os bebedores haviam saído, a estalagem estava fechada, a sala inferior ficara deserta, a fogueira apagara-se, mas o hóspede permanecia ainda no mesmo lugar e na mesma postura. De tempos a tempos, mudava o cotovelo sobre que se apoiava, eis tudo; quanto a falar, porém, desde que Cose e saíra, não tornara a dizer uma palavra, Na sala apenas se achavam os estalajadeiros, que tinham ficado por conveniência e por curiosidade.

— Queres tu ver que o homem quer passar aqui a noite? — murmurou a Thenardier por entre dentes.

Ao darem, porém, duas horas da manhã, declarou-se vencida e disse para o marido:

— Eu vou deitar-me. Tu faz o que quiseres.

O marido sentou-se à esquina de uma mesa, acendeu uma vela e pôs-se a ler o Correio Francês.

Passou assim uma boa hora. O digno estalajadeiro nha já lido o Correio Francês pelo menos três vezes, desde a data do número até ao nome da pografia, porém o viajante não se mexia.

Thenardier moveu-se, tossiu, escarrou, assoou-se, fez barulho com a cadeira, porém nenhum movimento da parte do homem.

— Estará a dormir? — disse ele consigo.

O homem não dormia, mas nada o podia despertar.

Por fim, Thenardier rou o seu barrete, aproximou-se cautelosamente e aventurou-se

a dizer:

— O senhor não quer ir descansar?

«Não quer ir deitar-se» parecera-lhe excessivo e familiar. Descansar cheirava a luxo e era uma frase respeitosa. Aquelas palavras nham a misteriosa e admirável propriedade de alargar ao outro dia pela manhã a cifra do rol das despesas. Um quarto onde o passageiro se deita custa vinte soldos; um quarto onde repousa vinte francos.

— Ah, é verdade! — disse o desconhecido. — Tem razão. Onde é a cavalariça?

— Ora, senhor! — disse Thenardier, sorrindo. — Eu vou conduzi-lo.

Pegou em seguida no cas çal, enquanto o hóspede pegava na bengala e na trouxa, e conduziu-o ao primeiro andar, que apresentava certo esplendor, todo mobilado de acaju e ornado com uma bela cama e cortinas vermelhas de algodão.

— O que vem a ser isto? — perguntou o viajante.

— É o nosso quarto de noivado — respondeu o estalajadeiro — mas eu e minha mulher dormimos noutro. Não se entra aqui senão três ou quatro vezes por ano.

— Antes queria ir para a cavalariça — disse o homem secamente.

Thenardier fingiu não ter ouvido a pouco obsequiosa reflexão. Em seguida acendeu duas velas de cera que, ainda por encetar, estavam sobre o fogão, onde depois acendeu também excelente lume. Sobre o fogão e debaixo de uma redoma, estava uma grinalda de fio de prata e flores de laranjeira.

— E isto, o que é? — tornou o desconhecido.

— É a grinalda do noivado de minha mulher.

O hóspede lançou para a grinalda uns olhos que pareciam dizer: «Houve tempo em que um tal monstro foi virgem!»

E, no fim de tudo, Thenardier men ra. Quando arrendara a casinhota para estabelecer a baiuca, achara aquele quarto assim guarnecido, comprara a mobília e fizera um alborque com a grinalda de flor de laranjeira, julgando que um tal objecto produziria em sua esposa certa sombra graciosa, dando à casa aquilo a que os ingleses chamam respeitabilidade.

Quando o hóspede se voltou, o estalajadeiro tinha desaparecido.

Thenardier eclipsara-se discretamente, sem ousar dar as boas noites, não querendo tratar com cordialidade pouco respeitosa um homem a quem tencionava, no dia seguinte, esfolar soberanamente.

O estalajadeiro foi para o seu quarto. Sua mulher estava deitada, mas não dormia.

Quando ouviu os passos do marido, voltou-se e disse-lhe:

— Já sabes que amanhã pespego com a Cosette no andar da rua.

Thenardier respondeu friamente:

— Como andas depressa!

O hóspede, pela sua parte, pusera a um canto a bengala e a trouxa.

Depois do estalajadeiro se re rar, sentou-se numa cadeira e conservou-se por algum tempo pensa vo. Em seguida descalçou os sapatos, pegou numa das luzes, apagou a outra e abriu a porta do quarto, olhando em volta de si como quem procura alguma coisa. Atravessou um corredor e chegou à escada. Ali ouviu um ligeiro ruído que se

assemelhava à respiração de uma criança. Deixou-se conduzir por este ruído e chegou a uma espécie de concavidade triangular pra cada sob a escada, ou, para melhor dizer, formada por ela. Esta barraca não era mais do que o vão da escada. Neste lugar, entre toda a espécie de cacos e de cestos velhos, no meio de lixo e de enormes teias de aranha, havia uma cama, se se pode chamar cama a uma enxerga toda esburacada, deixando cair a palha por todos os lados, e uma manta por cujos buracos se via a enxerga. Lençóis não tinha e estava estendida no sobrado. Nesta cama dormia Cosette.

O homem aproximou-se e contemplou-a.

Cose e dormia profundamente e estava toda ves da. De Inverno não se despia para sentir menos frio.

Estava abraçada com a boneca, cujos olhos abertos brilhavam na escuridão. A pobre criança soltava de vez em quando um grande suspiro, como se es vesse para acordar, e apertava a boneca contra si, quase convulsivamente. Ao lado da cama não estava senão um dos seus tamancos.

Por detrás do cubículo de Cose e havia uma porta aberta, deixando ver um quarto bastante grande, mas sem luz. O hóspede entrou nele. Ao fundo, além duma porta de vidraça, viam-se duas caminhas iguais, muito bem arranjadas e com roupa muito branca.

Eram as de Eponina e Azelma. Por detrás delas mal se via um berço muito ordinário, sem cortinas, onde dormia o pequenito que tanto chorara toda a noite.

O desconhecido conjecturou que aquele quarto devia comunicar com o dos Thenardier.

Dispunha-se já a re rar-se quando se lhe deparou a chaminé; uma destas vastas chaminés de estalagem onde há sempre algum brasido, mas que fazem frio a quem as vê. Naquela não havia lume nem mesmo cinza.

O que atraiu a atenção do desconhecido foram dois sapa nhos de criança, de fei o elegante, e desiguais em tamanho. O homem recordou-se do gracioso e imemorial costume das crianças deixarem na chaminé o sapa nho, na noite de Natal, para ali receber nas trevas algum brilhante presente da sua boa fada. Eponine e Azelma não tinham faltado ao costume e haviam posto cada uma um sapato na chaminé.

O hóspede curvou-se sobre os sapatos.

A fada, isto é, a mãe, nha já feito a sua visita, de sorte que se via luzir em cada um dos sapatos uma moeda de dez soldos completamente nova.

O homem endireitou-se e ia já re rar-se, quando descobriu no fundo, e como escondido, um outro objecto. Aproximou-se novamente e viu que era um tamanco grosseiro, muito velho, todo coberto de cinza e lama seca. Era o tamanco de Cosette.

Esta com a enternecedora confiança das crianças que pode ser sempre iludida, sem nunca desanimar, pusera também na chaminé o seu tamanco.