Os Miseráveis
V — «O quid obscurum» das batalhas
Quem quiser fazer uma ideia clara da batalha de Waterloo, não tem mais do que imaginar um A maiúsculo deitado no chão. A perna esquerda do A é a estrada de Nivelles, a direita é a de Genappe e a corda do A, o carreiro Ohain a Braine-l’Alleud. O
cimo do A é o Mont-Saint-Jean, onde está Wellington; a extremidade inferior do lado esquerdo, Hougomont, onde está Reille com Jerónimo Bonaparte; a outra extremidade inferior é a Belle Alliance, onde está Napoleão. Um pouco abaixo do ponto em que a corda do A encontra e corta a perna direita, fica a Haie-Sainte. No meio dessa corda é o ponto onde se disse a palavra final da batalha e onde se colocou o leão, símbolo involuntário do supremo heroísmo da guarda imperial.
O triângulo compreendido entre o cimo, as duas pernas e a corda do A é a planura do Mont-Saint-Jean em cuja disputa consistiu toda a batalha.
As alas dos dois exércitos estendem-se à direita e à esquerda das duas estradas de Genappe e de Nivelles, fazendo Erlon frente a Picton e Reille a Hill.
Por trás da extremidade superior do A, isto é, por trás da planura do Mont-Saint-Jean, fica a floresta de Soignes.
Quanto à planície em si, represente-se uma vas dão de terreno ondulante, cujas eminências se vão imediatamente sucedendo umas às outras, dominando esta aquela e esta a seguinte. As ondulações vão subindo para o Mont-Saint-Jean, até terminar na floresta.
Dois exércitos inimigos num campo de batalha são dois lutadores. É uma luta a braço; cada qual procura deitar a terra o seu adversário, agarrando-se àquilo que encontra; uma sarça é um ponto de apoio; um recanto de uma parede, um encosto; escorrega um
regimento por falta de uma casinhola a que se encostar; um rebaixe na planície, uma pouca de terra movida, um carreiro transversal em ensejo oportuno, um bosque, um barranco, podem embaraçar o calcanhar desse colosso chamado exército, impedindo-o de recuar. O que sair do campo fica vencido. Daí a necessidade que tem o chefe responsável de examinar a mais pequena moita de árvores, de aprofundar o menor relevo.
Os dois generais nham estudado com toda a atenção a planura do Mont-SaintJean, chamada hoje planície de Waterloo. Wellington examinara-a no ano precedente, com previdente sagacidade, como local onde tinha de dar-se uma grande batalha.
Nesse dia de 18 de Junho, estava de melhor lado, para o duelo em que se ia empenhar com Napoleão. O exército inglês ficava de cima e o exército francês de baixo.
Esboçar aqui o aspecto de Napoleão a cavalo, de óculo em punho, na eminência de Rosomme, na madrugada do dia 18 de Junho de 1815, seria uma coisa quase supérflua.
Todos o viram, antes de nós o mostrarmos. Esse perfil sereno, coberto com o pequeno chapéu da escola de Brienne, esse uniforme verde, com o sobrepeito branco a esconder o crachá, o sobretudo a esconder as dragonas, a volta do cordão vermelho no colete, os calções de pele, o cavalo branco com o seu jaez de veludo cor de púrpura, tendo nos cantos NN coroados e águias; botas à escudeira sobre meias de seda, as esporas de prata, a espada de Marengo, toda essa figura do úl mo César, aclamada por uns, encarada com olhar severo por outros, têm-na todos presente à imaginação.
Esta figura permaneceu por muito tempo na luz, livre de certa obscuridade de lenda que se forma em volta da maior parte dos heróis, velando sempre por mais ou menos tempo a verdade; hoje, porém, faz-se o dia e a história.
O fulgor desta é impiedoso; tem isto de estranho e divino: que, apesar de ser luz, e exactamente porque o é, espalha sombra muitas vezes, onde só se viam raios, do mesmo homem faz dois fantasmas diferentes; um ataca o outro, as trevas do déspota lutam com o resplendor do capitão, mas ela faz jus ça a ambos. Daí uma medida mais exacta para a defini va apreciação dos povos. Babilónia, violada, diminui Alexandre; Roma, manietada, diminui César; a morte de Jerusalém diminui Tito. A rania segue o rano.
Desgraçado do homem que deixa após si uma sombra escura com a sua forma.
V — «O quid obscurum» das batalhas
Todo o mundo conhece a primeira fase desta batalha; o seu começo foi caliginoso, incerto, vacilante, ameaçador para os dois exércitos, porém mais para os ingleses do que para os franceses.
Toda a noite havia chovido; a terra estava impregnada de água, que se conservava encharcada nas cavidades da planície como em nas; em alguns sí os as carretas em que ia montada a ar lharia estavam me das em água até ao eixo e gotejando lama líquida; de modo que, se os trigos e centeios derribados e calcados por aquela barafunda de carretas não vessem formado um como estrado de palha, sobre o qual se moviam as rodas, seria impossível qualquer movimento, mormente pelos vales que ficam do lado de Papelotte.
O combate principiou tarde, porque Napoleão, como já dissemos, costumava segurar
a ar lharia na mão, como uma pistola, fazendo pontaria ora a este, ora àquele outro ponto da batalha, e por isso quis esperar até que as carretas que conduziam as peças pudessem rodar e galopar livremente; mas para isso era necessário que aparecesse o sol e secasse a terra, e o sol não apareceu. Já não era a entrevista de Austerlitz. Quando se disparou o primeiro ro de peça, o general inglês Carville olhou o relógio e viu que eram onze horas e trinta e cinco minutos.
Travada a acção com fúria, com mais talvez do que o imperador quisera, sobre Hougomont, pela ala esquerda francesa, Napoleão atacou o centro, precipitando a brigada de Quiot sobre a Haie-Sainte, e Ney moveu a ala direita contra a ala esquerda inglesa, que se apoiava em Papelotte.
O ataque de Hougomont nha alguma coisa de simulado; o plano era atrair ali Wellington, fazendo-o inclinar para a esquerda. Este plano teria sor do efeito, se as quatro companhias de guardas ingleses e os bravos belgas da divisão de Perponcher não tivessem guardado a sua posição a pé firme, e se Wellington, em vez de se lhes reunir em massa, se não vera limitado a mandar-lhes um reforço de outras quatro companhias de guardas e um batalhão de Brunswick.
O ataque, porém, da ala direita francesa não encobria o segundo fim; desfazer a ala esquerda inglesa, cortar a estrada de Bruxelas, fechar a passagem aos prussianos que pudessem sobrevir, forçar o Mont-Saint-Jean, apertar Wellington contra Hougomont, daí contra Braine-l’Alleud e daí contra Hal, nada mais claro. Afora alguns incidentes, este plano foi bem sucedido. Papelotte foi tomado; Haie-Sainte assaltada.
Há, porém, uma circunstância a notar: na infantaria inglesa, e mormente na brigada de Kempt, havia grande número de recrutas, que, todavia, em presença dos nossos temíveis infantes, foram valentes, não lhes obstando a inexperiência a mostrarem-se intrépidos no perigo e fazendo excelente serviço, principalmente como a radores; o soldado a rador, mais entregue de certo modo a si mesmo, torna-se, para assim dizer, general de si próprio. Aqueles recrutas mostraram ainda alguma coisa da invenção e da fúria francesa, porém o entusiasmo desta infantaria noviça desagradou a Wellington.
Após a tomada de Haie-Sainte, a batalha começou a vacilar. Aquele dia tem um intervalo escuro, desde o meio-dia até às quatro horas; o meio-dia da batalha é quase indis nto e par cipa do sombrio da refrega. A luz crepuscular do combate, viam-se mil vultos flutuando em nuvens de fumo, uma como miragem ver ginosa, o trem de guerra de então, desconhecido hoje, as barre nas felpudas, os boldriés e as pastas dos hussardos, as correias cruzadas, as cartucheiras, os dólmans, as botas vermelhas de mil dobras, os pesados shakos engrinaldados de torçal, a infantaria quase negra de Brunswick misturada com a infantaria escarlate de Inglaterra, os soldados ingleses com dragonas feitas de grandes borrainas brancas circulares, a cavalaria ligeira hanoveriana com os seus capacetes de couro oblongos de barbicachos de cobre e penachos de cabelo vermelho; os escoceses de joelhos nus, as grandes polainas dos nossos granadeiros; quadros e não linhas estratégicas; o que é necessário a Salvador Rosa e não a Gribeauval.