Os Miseráveis
I — História de Corinto desde a sua fundação
— Não sei.
— Não voltará hoje para casa?
— Não sei.
E Courfeyrac acrescentou:
— Eu é que não volto.
O rapaz fitou nele os olhos e perguntou-lhe:
— Porquê?
— Porque sim.
— Para onde vai o senhor?
— Que tens tu com isso?
— Quer que lhe leve a sua mala?
— Vou para as barricadas.
— Quer que vá com o senhor?
— Se queres vir! — respondeu Courfeyrac. — A rua é de todos.
E deitou a correr para ir juntar-se aos seus amigos.
Quando se lhes tornou a incorporar deu o cofre a um deles para que o levasse. Só passado um quarto de hora reparou que o rapazito os seguia com efeito.
Um ajudante não vai precisamente aonde quer. Já explicámos que é impelido por uma rajada de vento. Assim passou além de Saint-Merry e achou-se, sem saber como, na rua de S. Diniz.
LIVRO DÉCIMO SEGUNDO — CORINTO
I — História de Corinto desde a sua fundação
Mal imaginam os parisienses de hoje que, ao entrar na rua de Rambuteau, pelo lado dos Mercados, avistam à direita, em frente da rua de Mondétour, uma loja de cesteiro, que tem por tabuleta um cesto figurando o imperador, sobre o qual se lê a inscrição: NAPOLEÃO É TODO FEITO DE VIME
Nem mesmo lhes passarão pela ideia as cenas terríveis que aquele local, há apenas trinta anos, presenciou.
Era aquele o local da rua de Ghanvrerie, ou Chanverrene, como se lê nos documentos an gos Igualmente era situada nesse sí o a célebre casa de pasto denominada de Corinto.
Todos se lembram do que se disse acerca da barricada levantada naquele local, eclipsada, porém, pela de Saint-Merry É, pois, sobre essa célebre barricada da rua de Chanvrerie, hoje sumida entre profundas sombras, que nós vamos derramar alguma luz Seja-nos lícito ainda recorrer, para clareza da nossa narração, ao meio simples de que já nos servimos com relação a Waterloo. As pessoas que quiserem representar de um modo bastante exacto os grupos de casas que nessa época se elevavam junto da ponta de Santo Eustáquio, no ângulo nordeste dos Mercados de Paris, onde hoje fica a embocadura da rua de Rambuteau, não têm mais do que imaginar um N, cujas hastes ver cais figurarão a rua da Grande Truanderie e a da Chanvrerie, e a transversal a rua da Pequena Truanderie. Imagine-se mais este N cortado pela an ga rua Mondétour, numa extensão que abarcava as três hastes e formando com todas elas tortuosíssimos ângulos.
Resultava daqui ser suficiente o labirín co cruzamento daquelas quatro ruas para, num espaço de cem toesas quadradas, compreendido entre os Mercados e a rua de S. Diniz de uma parte, e as ruas do Cisne e dos Pregadores da outra, formar sete ilhotas de casas extravagantemente construídas, de diferentes proporções, situadas de esguelha e como que ao acaso, e separadas apenas, à semelhança dos bancos de uma pedreira, por estreitas fendas. Estreitas fendas, dissemos nós, e cremos que não podemos dar ideia mais exacta do que eram aquelas vielas escuras, apertadas, angulosas e orladas de casarões de oito andares. Era tal a decrepitude destes casarões, que na rua da Chanvrerie e da Pequena Truanderie as fronteiras eram escoradas, na sua maior parte, por vigas ou barrotes, que atravessavam de um para outro lado da rua. Esta era tão estreita e as enxurradas em ocasiões de chuva dilatavam-se por tal modo para fora do seu leito, que quem passava necessariamente se molhava, seguindo ao longo daquelas fileiras de lojas escuras como subterrâneos e por entre grandes frades de pedra com aros de ferro, enormes montes de lixo e portas de pá os guarnecidas de disformes grades, que atestavam a sua longa idade.
A palavra Mondétour não pode pintar melhor as sinuosidades daquele dédalo. Mais adiante ficava uma rua, a rua Pirueta, que vinha desembocar na rua de Mondétour, cujo nome ainda melhor as exprimia.
Era impossível a todo o que, ao sair da rua de S. Diniz, se embrenhasse na da Chanvrerie, deixar de notar que esta se ia gradualmente estreitando diante dele à
medida que fosse avançando, como se vesse entrado num comprido funil. Ao fim da rua, que era sobremodo curta, encontrava-se a passagem tomada do lado dos mercados por uma elevada fileira de casas, de modo que qualquer se julgaria me do num beco sem saída, se logo de um e de outro lado não avistasse dois cortes negros, por onde podia escapar-se. Era a rua de Mondétour, que ia desembocar por um dos lados à rua dos Pregadores, e pelo outro à rua do Cisne e da Pequena Truanderie. No fundo desta espécie de beco sem saída, à esquina da entreaberta da direita, notava-se uma casa menos elevada do que as outras, a qual formava uma espécie de cabo sobre a rua.
Era nessa casa, apenas de dois andares, que, havia trezentos anos, se achava alegremente estabelecida uma casa de pasto ilustre. Era uma mansão de prazer, cujo jovial sussurro contrastava com a natural melancolia daquele mesmo local, a que o velho Teófilo se referiu nesses seus dois versos:
Ali balouça o esqueleto horrível
De um amante infeliz que se enforcou.
O local, porém, era tão afreguesado, que os donos da casa de pasto iam transmi ndo o seu mister de pais a filhos.
No tempo de Mathurin Regnier, denominava-se aquela casa de pasto «O Vaso da Roseira», e como eram moda os enigmas, nha por divisa um poste pintado de cor-derosa. No século passado, o digno Natoire, um dos mestres de fantasia, hoje desprezados pela escola metódica, movido de um sen mento de gra dão pela lembrança das muitas vezes que se embriagara naquela casa de pasto, à mesma mesa onde Regnier costumava saciar a sua paixão gastronómica, pintara um cacho de uvas de Corinto no poste cor-derosa. Desvairado de alegria, o dono do estabelecimento resolveu mudar a an ga divisa, mandando para isso escrever em letras doiradas, por cima do cacho de uvas, as palavras:
«Casa de pasto das uvas de Corinto». Desde então o estabelecimento ficou sendo conhecido pelo nome de Corinto. Não há coisa mais congruente com a índole dos bêbados do que as elipses. Pouco a pouco, o cognome de «Vaso da Roseira» foi sendo destronado pela nova denominação de Corinto, de modo que o úl mo proprietário pertencente à dinas a, ignorando já completamente a tradição, nha mandado pintar o poste de azul.
Uma sala no rés-do-chão, onde ficava o mostrador, outra no primeiro andar, onde se achava o bilhar, uma escada de madeira, em espiral, que rompia o tecto, mesas cobertas de copos de vinho, paredes defumadas, velas acesas ainda que fosse dia claro, eis no que consis a a casa de pasto. Descia-se para a adega por uma escada de alçapão, que havia na sala inferior. No andar superior ficavam os aposentos dos Hucheloup, donos do estabelecimento. Subia-se para eles por uma escada extremamente íngreme, para a qual dava entrada uma porta falsa, situada na sala grande do primeiro andar. Junto ao telhado ficavam dois sótãos reservados para quartos, ou antes, ninhos das criadas. Ficava a cozinha na parte posterior da loja.
Hucheloup, o proprietário da casa de pasto nascera talvez químico, mas o caso é que se achava cozinheiro; em sua casa não se bebia só, comia-se também, isto é, o seu estabelecimento era loja de bebidas e um bocado de casa de pasto. Hucheloup inventara
um ape toso manjar que só em casa dele se comia e que consis a em carpas recheadas, ou, como ele as denominava, «carpas gordas». Comia-se isto à luz de uma vela de sebo ou de um candeeiro do tempo de Luís XVI em mesas cobertas de oleado, em guisa de toalha. Vinham de longe os armadores, atraídos pelo sabor do convida vo acepipe. Um dia, Hucheloup rou-se de seus cuidados, e julgando a propósito adver r os transeuntes da sua «especialidade», pegou num pincel, molhado em nta preta feita de pós de sapatos, e como nha uma ortografia própria, do mesmo modo que possuía uma culinária toda sua, improvisou na parede esta notável inscrição: CARPES HO GRAS
As chuvas e os gelos de um Inverno nham do a fantasia de apagar o S que terminava a primeira palavra e o G que começava a terceira e ficara isto: CARPE HO RAS
Com a ajuda do tempo e da chuva, tornara-se em profundo conselho um humilde anúncio gastronómico.
Deste modo sucedera que o o Hucheloup, não sabendo francês soubera la m, fizera sair da cozinha a filosofia, e querendo unicamente suplantar Careine, igualara Horácio. O
mais frisante era que o título assim, queria dizer também:
— Entra na minha taberna.
Nada disto existe hoje. O dédalo Mondétour ex rpado e largamente aberto já em 1847, provavelmente já não existe hoje; a rua da Chanvrerie e Corinto desapareceram sob a calçada da rua Rambuteau.
Como já dissemos, Corinto era um dos pontos de reunião de Courfeyrac e dos seus amigos. Corinto fora descoberto por Grantaire, o qual ali entrara por causa de Carpe horas, e voltara por causa das Carpes-au-gras.
Ali comia-se, bebia-se, gritava-se, gastava-se pouco, pagava-se mal, ou mesmo não se pagava, e era sempre bem aparecido. O tio Hucheloup era um bom homem.
Hucheloup, bom homem, como acabamos de dizer, era um baiuqueiro de bigode, variedade muito divertida.
Estava sempre mal encarado, parecia querer in midar os fregueses, resmungava com as pessoas que lhe entravam em casa, e mostrava-se sempre mais disposto a disputar com elas do que a servir-lhes a sopa. Todavia, sustentava o dito: eram sempre bem aparecidas. Esta extravagância dera-lhe voga ao estabelecimento e conduzia-lhe sempre rapaziada, que dizia sempre entre si:
— Vamos ouvir rosnaro tio Hucheloup.
Noutro tempo fora mestre de esgrima. De repente desatava a rir. Voz grossa, pobre diabo. Tinha um fundo cómico com uma aparência trágica; o que ele desejava era assustar, pouco mais ou menos como as caixas de rapé que têm a forma de uma pistola.
A detonação faz espirrar.
Tinha por Consorte a tia Hucheloup, que era um ente barbudo, em extremo feio.
O o Hucheloup morreu por volta de 1830 e com ele desapareceu o segredo das carpes-au-gras. A sua viúva pouco consolável, con nuou com a taberna; mas a cozinha degenerou e tornou-se execrável, e o vinho que fora sempre mau, tornou-se horrível.