Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 273 de 359

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Os Miseráveis

III — Em que Grantaire principia a escurecer

Grantaire não chegara ainda a esta fase lúgubre, estava muito longe dela. A sua alegria era prodigiosa; Bossuet e Joly correspondiam-lhes tocando os copos.

Grantaire juntava à acentuação excêntrica das palavras e das ideias a divagação do gesto; apoiava com dignidade o punho esquerdo no joelho, fazendo esquadria com o braço, e, com a gravata desatada, a cavalo num banco, com o copo cheio na mão direita, dirigia à alentada Matelote estas palavras solenes:

— Abram-se as portas do palácio! Sejam todos da academia francesa para terem o direito de abraçar a senhora Hucheloup! Bebamos!

E voltando-se para a tia Hucheloup, acrescentou:

— Mulher antiga e consagrada pelo uso, aproxima-te, deixa-me contemplar-te!

Joly gritou:

— Matelote e Gibelo e, não dêem mais vinho a Grantaire, que dá cabo de um dinheiro louco. Desde esta manhã que tem devorado em prodigalidades desa nadas dois francos e noventa e cinco cêntimos!

Grantaire continuou:

— Quem foi que despendurou as estrelas sem minha licença, para vir pô-las sobre a mesa à maneira de luzes?

Bossuet, muito embriagado, conservara a sua tranquilidade. Sentara-se no parapeito da janela, que estava aberta, deixando molhar as costas pela chuva e contemplando os dois amigos.

De repente ouviu atrás de si um grande tumulto, passos precipitados e gritos de: «Às armas!» Voltou-se e viu passar na rua de S. Diniz, no extremo da rua da Chanvrerie, Enjolras de carabina na mão, Gavroche com a sua pistola, Feuilly com o seu sabre, Courfeyrac com a sua espada, Jean Prouvaire, Combeferre e Bahorel com as suas espingardas, e enfim, todo o ajuntamento armado e tempestuoso que os seguia.

A rua de Chanvrerie, desde a taberna até ao seu extremo, não era mais comprida do que o alcance duma clavina. Bossuet improvisou com as mãos um porta-voz e gritou:

— Courfeyrac! Courfeyrac!

Courfeyrac ouviu o chamamento, deu alguns passos para a rua de Chanvrerie e gritou um: «Que queres tu?» que se cruzou com um: «Aonde vais tu?»

— Fazer uma barricada — respondeu Courfeyrac.

— Vem fazê-la aqui que é um bom sítio; vem fazê-la aqui!

— Tens razão, Laigle de Meaux! — disse Courfeyrac.

E a um aceno seu a multidão precipitou-se pela rua de Chanvrerie.

III — Em que Grantaire principia a escurecer

Efec vamente, o sí o indicado por Bossuet não podia ser melhor. A rua à entrada era larga e estreita no fundo, em forma de funil, por causa da casa em que se achava estabelecida a locanda da viúva Hucheloup; a rua de Mondétour, fácil de obstruir de um e de outro lado, e, finalmente, dava-se a circunstância de ser impossível qualquer ataque, a não ser pela rua de S, Diniz, isto é, de frente e a descoberto.

Bossuet tinha tido, bêbado, o olhar de Aníbal em jejum.

Com a irrupção do bando ficou a rua em completo susto. Não se tornou a ver nem mais um transeunte. Em menos de um segundo, lojas, portas, janelas, persianas, pos gos, trapeiras, grades, fechou-se tudo de alto a baixo, em toda a extensão da rua e circunvizinhanças. Uma velha, aterrada com a ideia das balas, pusera fora da janela um colchão pendurado numa vara de enxugar roupa. Só a casa da locanda nha ficado aberta, pela simples razão de que o bando havia entrado por ela dentro.

— Ai, Jesus Senhor! Ai, meu Deus! — suspirava a pobre viúva Hucheloup.

Bossuet tinha descido a encontrar-se com Courfeyrac.

Joly acorrera à janela e gritava para baixo:

— Courfeyrac, fazes mal em andar sem guarda-chuva. Olha que te arriscas a cons parte!

Dentro de poucos minutos, porém, os revoltosos nham arrancado vinte varões à grade da taberna e descalçado mais de dez toesas de rua; Gavroche e Bahorel nham-se apoderado e estendido por terra uma carroça de um fabricante de cal, de nome Anceau, a qual conduzia três barricas cheias de cal, que colocaram por baixo das pedras arrancadas à calçada e amontoadas em pilhas; Enjolras nha levantado o alçapão da adega, de onde rara todas as vasilhas vazias da viúva Hucheloup para colocar ao lado das barricas de cal; Feuilly, com os seus dedos afeitos a iluminar as delicadas lâminas dos leques, nha guarnecido as barricas e o carro com dois grossos montes de pedras, pedras arranjadas como o mais, sem se saber onde nem como. Sobre as vasilhas assentavam algumas vigas, que serviam de escoras a uma casa próxima, de onde nham sido arrancadas pelos revoltosos. Quando Bossuet e Courfeyrac se voltaram, metade da rua achava-se já obstruída por uma trincheira da altura de um homem. Não há coisa mais diligente do que o braço popular para construir aquilo que se constrói demolindo.

Matelote e Gibelo e nham-se juntado aos trabalhadores. Gibelo e levava para a barricada cestos de entulho. A sua canseira ajudava a construção. Servia pedras como teria servido vinho, com o todo de quem andava a dormir.

No momento de maior fervor, passou na extremidade da rua um omnibus puxado a dois cavalos brancos.

Bossuet saltou a barricada em começo, deitou a correr para o fim da rua, fez parar o cocheiro, descer os viajantes, dando a mão «às senhoras», despediu o condutor e voltou, conduzindo carro e cavalos pelas rédeas.

— Por diante de Corinto não passam omnibus! — exclamou ele. — Non licet omnibus adite Corinihum.

Daí por um instante, os cavalos vagavam à solta pela rua de Mondétour e o omnibus, jazia deitado de lado à entrada da rua, concorrendo para a sua completa obstrução.

A viúva Hucheloup nha-se refugiado no primeiro andar, espavorida do belicoso aspecto de todos aqueles homens.

Seus olhos desvairados olhavam sem ver; a voz ficava-lhe presa na garganta, como se o susto lha tomara.

— É o fim do mundo! — murmurava ela.

Joly depunha um beijo no gordo, vermelho e enrugado pescoço da viúva Hucheloup e dizia a Grantaire:

— Meu caro, eu sempre considerei o pescoço de uma mulher como uma coisa infinitamente delicada!

Grantaire, porém, a ngia as mais altas regiões do di rambo. Ao dar por Matelote, que nha subido ao primeiro andar, agarrara-a pela cintura e dizia da janela, soltando grandes gargalhadas:

— Matelote é feia? Matelote é a fealdade ideal! É uma quimera. Querem saber o

segredo do seu nascimento? Ei-lo: — Um dia um pigmalião gó co, que fazia carrancas para catedrais, enamorou-se de uma delas, da mais horrível; pediu ao amor que a animasse e saiu daqui Matelote. Ora olhai, cidadãos! Tem os cabelos cor de cromato de chumbo, como a amante de Ticiano, e é uma boa rapariga. Afianço-vos que se há-de bater bem! Toda a boa rapariga encerra em si um herói! Quanto à a Hucheloup, é uma valorosa velha. Vejam que bigodes ela tem! Herdou-os do marido. É uma granadeira!

Vocês verão como ela também se há-de bater! Bastam elas ambas para porem medo a todo o termo!... Camaradas! Havemos de derrubar o governo, tão certo como exis rem quinze ácidos intermediários entre o ácido margarico e o ácido fórmico; que, afinal de contas, isso para mim é completamente indiferente. Senhores, meu pai detestou-me sempre, porque eu nunca pude meter dente nas matemá cas. Eu cá não compreendo senão o amor e a liberdade! Sou Grantaire, o bom rapaz! Como nunca ve dinheiro nunca me acostumei a ele, e, por conseguinte, nunca me faltou; porém, se eu fosse rico, não tornava a haver pobres, haviam de ver! Oh, se os bons corações fossem os que vessem boas burras, outro galo cantaria e as coisas haviam de marchar por outro trilho! Ora imaginem Jesus Cristo, com a fortuna de Rothschild! Que bem ele não faria!

Dá-me um abraço, Matelote! És voluptuosa e mida! Tens umas faces que atraem beijos de irmã e lábios que estão pedindo beijos de amante!

— Cala-te, pipa! — disse Courfeyrac.

— Sou capitão e mestre dos jogos florais.

Enjolras, que se encontrava de pé em cima da encetada barricada, de espingarda na mão, levantou o belo e austero rosto e fitou Grantaire, Enjolras, como sabem, par cipava do espartano e do puritano. Com Leónidas teria morrido nas Termópilas, com Cromwell teria ajudado a queimar Drogheda.

— Grantaire! — gritou ele. — Vai cozer a bebedeira para outro sí o! Aqui é o lugar da embriaguez, mas não da bebedice! Não desonres a barricada!

Estas irritadas palavras produziram um efeito singular sobre Grantaire. Dir-se-ia que lhe nham a rado um copo de água fria à cara. Como que lhe passou de repente a embriaguez. Sentou-se, encostou-se a uma mesa junto da janela, fitou Enjolras com inexprimível meiguice e disse-lhe:

— Então deixa-me aqui dormir.

— Ora, vai dormir para outro sítio! -gritou Enjolras.

Grantaire, porém, tornou a fitar no rapaz o seu olhar embaciado e cheio de ternura e respondeu:

— Deixa-me dormir aqui até morrer!

Enjolras fitou-o com olhar desdenhoso e retorquiu:

— Olha, Grantaire, és incapaz de crer, de pensar, de viver e de morrer!

— Tu verás! — replicou Grantaire com grave inflexão de voz.

Balbuciou ainda mais algumas palavras ininteligíveis pendeu em seguida a cabeça pesadamente para cima da mesa e daí a um instante — costumado efeito do segundo período da embriaguez, para o qual Enjolras rude e, inesperadamente o impelira —