Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 210 de 359

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Os Miseráveis

XVI — Onde se tornará a ouvir uma canção inglesa, que era moda em 1832

O terreno abandonado que o muro fechava comunicava com o pá o traseiro de uma an ga cocheira de trens de aluguer, cujo dono, que gozava de muito má fama, falira, e onde havia ainda alguns trens velhos debaixo de telheiros.

Mário lembrou-se de que era prudente aproveitar-se da ausência de Jondre e para se recolher a casa; depois as horas iam correndo; todas as tardes a a Burgon, quando saía para ir à tal casa onde lavava a loiça, costumava fechar a porta da rua; Mário dera a sua chave do trinco ao inspector de polícia; era pois importante que se não demorasse.

Entretanto, nha anoitecido quase completamente, já não havia no horizonte ou na

imensidade senão um ponto iluminado pelo Sol; era a Lua, que se erguia avermelhada por trás da Cúpula inferior da Salpêtrière.

Mário encaminhou-se a passos largos para o número 50-52, achando ainda a porta aberta. Subiu a escada nos bicos dos pés, e como que resvalou ao longo da parede do corredor até ao seu quarto. Este corredor, nha de ambos os lados diferentes quartos, que, naquela ocasião, estavam todos devolutos e à espera de moradores. A a Burgon, deixava-lhes ordinariamente as portas abertas.

Quando Mário se dirigia para o seu quarto, passou por uma daquelas portas e julgou divisar, da banda de dentro, no quarto desabitado, quatro cabeças de homens, imóveis, e denunciadas por um resto de claridade que penetrava ainda por uma fresta.

Mário não diligenciou ver, porque também não queria ser visto, e chegou a entrar para o quarto, sem fazer o mínimo ruído e sem que ninguém o visse. Era tempo.

Passado um momento ouviu os passos da tia Burgon que saía e fechava a porta.

XVI — Onde se tornará a ouvir uma canção inglesa, que era moda em 1832

Apenas Mário se viu no seu quarto, sentou-se na cama. Seriam então cinco horas e meia. Só meia hora o separava do que teria de suceder. Sen a o bater das artérias como um relógio que vesse no bolso. Pensava na dupla marcha que naquele momento se efectuava nas sombras; o crime avançando por um lado, a jus ça pelo outro. Não nha medo, mas não podia pensar sem certo estremecimento nas coisas que iriam ocorrer.

Como sucede a todos os que acabam de se ver envolvidos subitamente numa aventura surpreendente, parecia-lhe um sonho tudo o que sucedera durante aquele dia; e para não se julgar ví ma de um pesadelo, precisava apalpar nos bolsos os canos das duas pistolas de aço.

A neve cessara de cair, a Lua destacava-se cada vez mais clara das espessas névoas que a ensombravam, e o seu clarão, aliado ao reflexo esbranquiçado da neve que havia caído, dava-lhe ao quarto um aspecto crepuscular.

No antro dos Jondre e havia luz. Mário via brilhar o buraco do tabique com uma claridade que parecia ensanguentada.

Era fora de dúvida que uma tal luz não podia ser produzida por uma vela. Quanto ao mais não sen a o mínimo movimento em casa dos Jondre e; ninguém ali se movia nem falava, não se ouvia o mínimo sopro, o silêncio era glacial e profundo; e, se não fora aquela luz, julgar-se-ia ser aquilo um sepulcro.

Mário descalçou as botas cautelosamente e meteu-as debaixo da cama.

Decorreram ainda alguns minutos. Mário ouviu a porta da rua girar nos gonzos, uns passos pesados e rápidos subirem a escada e percorrerem o corredor, e logo depois levantar-se o fecho da porta da pocilga. Ouviram-se desde logo diferentes vozes. Achava-se reunida toda a família do casarão; só se conservara calada durante a ausência do chefe, qual ninhada de lobos na ausência do pai.

— Sou eu — disse ele.

— Boas noites, paizinho — regougaram as filhas.

— E então? — inquiriu a mãe.

— Está tudo a correr bem — respondeu Jondre e. — Mas tenho nos pés um frio de

cão. Bom! Assim mesmo: já te vestiste. É necessário que possas inspirar confiança.

— Pronta para sair.

— Não te esquecerás de nada do que te recomendei? Farás tudo bem feito?

— Podes estar descansado.

— É que... — disse Jondrette, sem concluir a frase.

Mário sen u-o pôr sobre a mesa um objecto pesado, provavelmente o formão que comprara.

— É verdade, vocês comeram?

— Nós comemos três batatas cozidas passadas por sal. Como nhamos lume, lembrei-me que o não devia perder.

— Bem — replicou Jondre e. — Deixai estar que amanhã hei-de rar-vos a barriga de misérias! Há-de comer-se um pato e os respec vos complementos. Haveis de jantar como Carlos X; o negócio vai menos mau.

E acrescentou em seguida, moderando a voz:

— A ratoeira está armada e os gatos prontos a saltar!

E ajuntou, baixando ainda mais a voz:

— Mete isto no lume.

Mário ouviu um nido semelhante ao produzido por umas tenazes ou por qualquer objecto de ferramenta mexendo carvão e em seguida a voz de Jondre e, que prosseguia, dizendo:

— Untaste as dobradiças da porta para não rangerem?

— Untei — respondeu a mulher.

— Que horas são?

— Não tardam a dar seis, porque já deu meia há um bocado em Saint-Médard.

— Diabo! — resmungou Jondre e. — É preciso mandar pôr de sen nela as raparigas.

Venham cá! Ouçam o que eu digo.

Jondre e disse o que quer que fosse ao ouvido das filhas e em seguida perguntou, elevando de inovo a voz:

— A Burgon já saiu?

— Já — disse a mulher.

— Tens a certeza de que não está ninguém em casa do vizinho?

— Não tornou a entrar em casa todo o dia; e agora bem sabes que é a hora dele jantar.

— Estás bem certa?

— Certíssima.

— Pois sim — replicou Jondre e — mas não faz mal nenhum em se ir ver se ele está em casa. — E voltando-se para a filha mais velha, acrescentou: — Pega na vela e vai ver.

Mário deixou-se cair sobre as mãos e sucessivamente sobre os joelhos e arrastou-se em silêncio para debaixo da cama.

Apenas assim se ocultou, viu brilhar uma luz através das fendas da porta.

— Pai! — gritou uma voz. — Não está cá.

Mário reconheceu a voz da rapariga mais velha.

— Entraste? — perguntou o pai.

— Não, senhor — respondeu a filha — mas como a chave está na porta, é sinal de que saiu.

— É o mesmo, mas entra! — tornou a gritar o pai.

A porta abriu-se então e Mário viu entrar a filha mais velha de Jondrette, cuja voz logo a princípio reconhecera, com um castiçal na mão.

Vinha como pela manhã, se não é que o clarão da luz que trazia lhe dava ainda um aspecto mais sinistro.

Ao vê-la encaminhar-se para o leito, Mário teve um momento de inexprimível ansiedade, que passou apenas conheceu que ela se dirigia para um espelho que estava pendurado na parede, ao pé da cama, alçando-se em bicos de pés para se ver a ele.

Ao mesmo tempo, ouvia-se no quarto vizinho um nido de ferros, em que alguém andava mexendo.

A filha de Jondre e, alisando os cabelos com a palma da mão e fazendo caretas ao espelho, cantarolava com a sua voz roufenha e sepulcral:

Oito dias enlaçados

Em ternos laços de amor

Vivemos, qual vivem anjos.

Sem leve sombra de dor,

Mas ai, que rápidos fogem

Doces horas de prazer!

O tempo dado ao amor

Nunca fim devia ter,

Nunca fim devia ter!

Entretanto, Mário tremia. Parecia-lhe impossível que ela lhe não ouvisse a respiração.

A rapariga dirigiu-se em seguida para a janela e olhou para fora falando em voz alta, com aquele ar meio desorientado que lhe era natural:

— Como Paris é feio, quando veste camisa lavada — disse ela.

Depois voltou a mirar-se novamente no espelho.

— Então! — gritou o pai. — Que estás fazendo?

— Estou vendo por baixo da cama e dos móveis — respondeu ela con nuando a alisar os cabelos — não está ninguém.

— Estúpida! — uivou o pai. — Volta já para aqui! Nada de perder o tempo.

— Lá vou! Lá vou! Também na sua loja não tem a gente tempo para nada!