Os Miseráveis
I — O sétimo círculo e o oitavo céu
Impor a sua própria ignomínia, àqueles dois jovens tão venturosos, ou consumar de per si só a, obra da sua irremediável perdição. De uma parte o sacri cio de Cose e, da outra o seu próprio.
Qual das «soluções abraçou? Que determinação tomou? Que resposta foi a que ele, a sós consigo, deu defini vamente ao incorrup vel interrogatório da fatalidade? Que porta se decidiu ele a abrir? Que lado da sua vida resolveu ele a fechar e condenar? Por qual optou, de entre as insondáveis voragens que o rodeavam? Que extremidade aceitou? Para qual desses abismos acenou com a cabeça?
As suas vertiginosas cogitações duraram toda a noite.
Assim ficou até pela manhã, na mesma a tude, debruçado sobre a cama, angus ado pela enormidade «da sorte, quem sabe mesmo se por ela dilacerado, com os punhos convulsivamente cerrados, os braços estendidos em cruz, como um crucificado despregado que houvesse caído de bruços no chão. Assim permaneceu doze horas, as doze horas de uma longa noite de Inverno, transido de frio, sem mover a cabeça nem proferir a menor palavra, imóvel como um cadáver, enquanto que o seu pensamento ora se rojava pelo chão, como uma hidra, ora desferia em voo para o espaço, como uma águia. Ao vê-lo assim sem movimento, dir-se-ia morto; porém, ao ver como ele, de súbito, estremecia convulsivamente e se punha a beijar sofregamente os ves dos de Cosette, conhecia-se que vivia.
Quem o havia de ver, se Jean Valjean se achava inteiramente a sós?
Via-o o olho oculto que do meio das trevas está sempre aberto sobre nós!
LIVRO SÉTIMO — A DERRADEIRA GOTA DO CÁLICE
I — O sétimo círculo e o oitavo céu São solitários os dias que se seguem ao de qualquer casamento. Respeitam todos o recolhimento dos felizes noivos, em parte porque precisam de dormir até mais tarde. Só algum tempo depois é que recomeça o tumulto das visitas e felicitações.
Pouco passava do meio-dia, quando, na manhã do dia 17 de Fevereiro, Biscainho, que de toalha e espanador debaixo do braço se ocupava a «arrumar» a antessala, ouviu bater ao de leve na porta e não tocar a campainha, procedimento discreto em tal dia.
Abriu então a porta e deu com os olhos em Fauchelevent, que imediatamente mandou entrar para a sala, cuja desordenada confusão a fazia parecer o campo de batalha das alegrias da véspera.
— Queira desculpar — observou Biscainho — acordamos muito tarde.
— Seu amo já está levantado? — perguntou Jean Valjean.
— O senhor está melhor do seu braço? — volveu Biscainho.
— Estou. O seu amo já está levantado?
— Qual? O velho ou o novo?
— O senhor Pontmercy.
— O senhor barão? — disse Biscainho com certa relutância.
Quem é barão, é-o sobretudo para os seus criados, para os quais reverte certa parte de uma tal honra; os criados têm o que um filósofo chamaria salpicos do tulo, :e isto lisonjeia-os. Mário, seja dito de passagem, republicano militante, como o nha provado, achava-se barão a seu pesar. Sobre este tulo nha-se operado uma revoluçãozinha na família; depois dela era o senhor Gillenormand quem mais valor lhe dava e Mário o que menos importância lhe ligava. Mas o coronel Pontmercy nha escrito: «Meu filho usará o meu tulo». Mário obedecia. E depois Cose e, em quem começava a manifestar-se a mulher, estava encantada por ser baronesa.
— O senhor barão? — repe u Biscainho. — Vou ver. Dir-lhe-ei que o procura o senhor Fauchelevent.
— Não, não lhe diga que sou eu. Diga-lhe que está aqui uma pessoa que deseja falar-lhe em particular, mas não lhe diga o nome.
— Ah! — fez Biscainho.
— Quero fazer-lhe uma surpresa.
— Ah! — tornou Biscainho, dirigindo-se a si mesmo este segundo ah!, como explicação, do primeiro.
E saiu.
Jean Valjean ficou só.
A sala, como já dissemos, estava em completa desordem. Parecia que, aplicando-se o ouvido, se poderia ainda ouvir o vago rumor do noivado. No sobrado via-se espalhada toda a sorte de flores caídas das grinaldas e penteados. As velas queimadas até quase ao fim, juntavam aos cristais do lustre estalac tes de cera. Nem um só móvel se conservava no seu lugar. Num dos cantos estavam três ou quatro poltronas, muito chegadas umas às outras, formando círculo, e parecendo con nuar ainda uma conversação. O conjunto
daquela desordem era risonho». Há ainda certa graça nos restos de uma festa. Tudo aquilo foi feliz. Sobre aquelas cadeiras desarrumadas, entre aquelas flores murchas, sobre aquelas velas apagadas, pensou-se em alegria. O sol sucedia ao lustre, entrava triunfalmente na sala.
Passaram-se alguns minutos. Jean Valjean estava imóvel no mesmo lugar em que Biscainho o, deixara. A sua palidez era extrema. Os olhos nha-os de tal modo encovados e sumidos por efeito da insónia, sobre a órbita, que quase se lhe não viam. A sua casaca preta mostrava as rugas do fato que se não despiu durante a noite. Os cotovelos estavam esbranquiçados, com o cotão que O linho deixa no pano que por ele roça. Jean Valjean olhava para o chão», fitando o desenho da janela feito pelo Sol.
Sentindo leve rumor à porta, ergueu os olhos.
Mário entrou na sala de cabeça erguida, o sorriso nos lábios, com o rosto iluminado de um estranho clarão, a fronte radiante, o olhar risonho, apesar também de não ter dormido.
— Ah, é o pai! —exclamou ele, vendo: Jean Valjean.
— E aquele imbecil do Biscainho com ar tão misterioso! Mas veio muito cedo, é apenas meia hora depois do meio-dia. Cosette está a dormir.
O tratamento de pai, dirigida por Mário» a Fauchelevent queria dizer «felicidade suprema». Como é sabido, nunca entre eles deixara de dar-se certa frieza e quase constrangimento; uma barreira de gelo, que nenhum deles nha chegado a transpor ou derreter.
Naquela ocasião, porém, a embriaguez do prazer em Mário chegava a ponto que a barreira de gelo» desfazia-se e Fauchelevent ficava sendo: igualmente para ele o que era para Cosette, um pai.
Após uma curta pausa, Mário prosseguiu, acudindo-lhe as palavras com profusão aos lábios, como é próprio destes paroxismos da alegria:
— Que prazer tenho em vê-lo! Se soubesse que falta nos fez ontem! Como está a sua mão? Melhor, não é assim?
E satisfeito com a excelente resposta que dera a si mesmo, continuou:
— Falámos ambos muito a seu respeito. Cose e é muito sua amiga. Não se esque-ça de que tem aqui o seu quarto. Já não queremos saber da rua do Homem Armado; mas não queremos saber dela absolutamente. Como nha o senhor podido ir morar numa rua como aquela, insalubre, feia, com uma barreira num; dos extremos, e onde se sente sempre frio; uma rua onde se não pode entrar? O senhor há-de vir morar connosco e há-de ser de hoje em diante, ou terá de se haver com a Cose e. Previno-o de que está disposto a fazer de nós tudo quanto quiser. Já viu o «seu quarto, bem sabe que é ao pé do nosso; e que dá para o jardim; mandou-se consertar o desarranjo que nha na fechadura, a cama está feita, está tudo pronto, não tem mais a «fazer do que entrar para ele. Pôs-lhe ao pé da cama uma grande e an ga poltrona de veludo muito bonito, à qual disse: estende-lhe os braços. Todas as Primaveras aparece um rouxinol nas acácias que lhe ficam mesmo defronte das janelas. Ouvi-lo-á daqui a dois meses. Terá à sua esquerda o ninho da avezinha e à direita o nosso. De noite ouviremos cantar o rouxinol, de dia
ouviremos falar Cose e. O seu quarto fica exactamente virado ao sul. Mande os seus livros, a viagem do capitão Cook e a de Vancouver, enfim, todas as suas coisas, que Cose e lhas arrumará. Até já deixei um lugar de honra reservado para um bauzinho, a que, segundo julgo, liga grande apreço. Saiba que conquistou meu avô e que muito lhe agrada. Viveremos todos juntos. Como sabe jogar o whist, poderá proporcionar a meu avô o maior de todos os prazeres. O senhor é quem há-de ir passear com Cose e nos dias em que eu ver de ir ao tribunal, e dar-lhe-á o braço, como dantes fazia no Luxemburgo. Estamos absolutamente decididos a ser muito felizes. E saiba, meu pai, que há-de fazer parte da nossa felicidade. É verdade, hoje almoça connosco?
— Tenho uma coisa a dizer-lhe, senhor Pontmercy. Eu sou um ex-forçado.
O limite dos sons agudos percep veis pode ser tão completamente ultrapassado para o espírito, como para o ouvido. Estas palavras: eu sou um ex-forçado, saídas da boca de Fauchelevent e entrando no ouvido de Mário, excediam as raias do possível.
Mário não ouviu. Pareceu-lhe que alguma coisa acabava de lhe ser dita por aquele homem, porém não percebeu o quê. Ficou boquiaberto.
Reparou então que o homem que tinha diante de si era medonho.
Alheado de con nuo na sua embriaguez, nunca, até então, notara a palidez terrível que se lhe divisava no rosto.
Jean Valjean desatou o lenço preto em que sus nha o braço que trazia ao peito, desenrolou a ligadura em que nha a mão embrulhada, descobrindo o dedo polegar e disse, mostrando-o a Mário:
— Como vê, eu não tenho nada na mão!
Mário deitou-lhe os olhos para o dedo polegar.
— Nem tive nunca! — acrescentou Jean Valjean.
Efectivamente, o dedo não apresentava vestígio algum de ferida.
— Convinha, porém — prosseguiu ele —, que eu não assis sse ao casamento e dele me ausentei o mais que pude. Fingi que me nha ferido para não me tornar réu de uma falsificação nem introduzir nulidade nos papéis do casamento, livrando-me, por este modo, de os assinar!
— Que quer dizer tudo isso? — tartamudeou Mário.
— Quer dizer que eu estive nas galés! — respondeu Jean Valjean.
— Oh, isto é de fazer enlouquecer!... — exclamou Mário com gesto apavorado.
— Senhor Pontmercy — con nuou Jean Valjean —, eu es ve dezanove anos nas galés por ladrão. Depois fui condenado por toda a vida, por crime de reincidência.
Presentemente, sou um forçado fugido!
Por mais que Mário tentasse recuar ante a realidade, recusar o facto, resis r à evidência, teve, enfim, de se lhe render. Principiou a compreender, e compreendeu de mais, como sempre sucede em tais casos. Um medonho clarão ín mo lhe causou um estremecimento em todo o corpo; uma: ideia que o fez estremecer, lhe perpassou pelo espírito. Entreviu no seu próprio futuro um destino abjecto.
— Diga tudo! Diga tudo! — bradou ele. — O senhor é o pai de Cosette?
E, ao mesmo tempo que proferiu estas palavras, deu dois passos para trás com gesto
de indizível horror.
Jean Valjean, porém, elevou a cabeça com tão majestosa a tude, que dir-se-ia que com a fronte tocava o tecto.
— Sobre esse ponto deve acreditar-me, embora em juízo não seja admi do o juramento de um homem como eu!
E, após uma pausa, acrescentou com uma espécie de soberana e sepulcral autoridade, articulando e acentuando vagarosamente as sílabas:
— Há-de acreditar-me. Eu o pai de Cose e?! Perante Deus, não! Senhor barão Pontmercy, eu ,sou um pobre aldeão de Faverolles, que ganhava a sua: vida a podar vides. O meu nome não é Fauchelevent, é Jean Valjean. Esteja descansado que eu não tenho parentesco nenhum com Cosette.
— Quem mo prova? — balbuciou Mário.
— Eu, pois que o digo!
Mário fitou aquele homem e viu-o lúgubre e sereno.
De semelhante serenidade era impossível sair uma men ra. O que, é glacial é sincero.
Parecia entrever-se a verdade no meio daquela gelidez tumular.
— Acredito-o! — disse Mário.
Jean Valjean inclinou a cabeça, como em sinal de ter ouvido e em seguida prosseguiu:
— Pergunta-me o que sou a Cose e? Um estranho! Há dez anos nem sequer sabia que ela exis a. Tenho-lhe amor, isso é verdade! A gente, depois de velho, afeiçoa-se com facilidade a qualquer criança com quem convive desde pequenina. Queremos a todas as criancinhas com amor de avô! Creio que o senhor não estranhará se eu lhe disser que também, tenho uma coisa parecida com um coração! Cose e era órfã. Não nha pai nem mãe! Aqui tem a razão porque eu me afeiçoei a ela. Uma criança é uma criaturinha tão frágil, que qualquer estranho, ainda que seja um homem como eu, se pode tornar seu protector. Cumpri esse dever para com Cose e. Não sei se ao pouco que fiz em favor dela se pode, realmente, dar o nome de uma boa acção; se, com efeito, o é, posso-lhe afiançar que a pra quei! Registe esta circunstância atenuante. Hoje, Cose e deixa-me; os nossos caminhos separam-se. De ora em diante, nenhum serviço já lhe posso prestar.
Mudou de Providência! É a mulher do senhor barão de Pontmercy e ganhou com a mudança, que foi para melhor. Quanto aos seiscentos mil francos, não me diz o senhor nada, mas eu vou ao encontro do seu pensamento: é um depósito. Como estava este depósito nas minhas mãos? Que importa isso? Res tuo o depósito, não há mais nada a perguntar-me. Completo a restituição dizendo o meu verdadeiro nome. Isto diz-me ainda respeito: interesso-me em que saiba quem sou.
E Jean Valjean encarou Mário fixamente.
Tudo o que Mário estava sen ndo era tumultuoso e incoerente. Certas rajadas do vento do: destino produzem, destas vagas em nossa alma.
Todos temos do momentos de perturbação, nos quais tudo em nós se dispersa; dizemos as primeiras coisas que nos vem à boca, e que nem sempre são precisamente as que necessitaríamos dizer. Há revelações súbitas, que não se podem suportar e que embriagam como um vinho funesto.
Mário estava estupefacto com; a nova situação que se lhe apresentava, a ponto de falar àquele homem quase como alguém que lhe tivesse levado a mal tal confissão.
— Mas, enfim — exclamou ele — para que me diz isso? O que é que o obriga a semelhante coisa? O senhor podia guardar consigo mesmo o seu segredo. O senhor não está denunciado, nem é perseguido. Tem por força uma razão para fazer voluntariamente uma tal revelação. Conclua. Há nisto outra coisa qualquer. A que propósito faz esta confissão? Porque motivo?
— Porque mo vo? — respondeu Jean Valjean com voz tão baixa e surda, que se diria falar mais consigo do que com Mário. — Com efeito, porque mo vo vem este homem dizer: eu sou um forçado? Pois bem, sim, o mo vo é extraordinário. É por honradez.
Olhe, a desgraça está num fio que eu tenho no coração, e que me conserva preso. É
sobretudo quando caminhamos para a velhice, que mais seguros se vão tornando estes fios. Vai-se desfazendo a vida inteira em torno de nós e eles resistem. Se eu pudesse arrancar este fio, quebrá-lo, desatar o nó ou cortá-lo, indo para bem longe, salvo estava, era só par r; me a-me numa diligência da rua de Bauloy, deixava-os gozar em paz a sua ventura e ia-me embora! Tentei, porém, arrancá-lo, quebrá-lo, e foi debalde; por mais que puxei, não o consegui; resis u, não me era possível arrancá-lo, sem com ele arrancar o coração! Então disse: «Não posso viver senão aqui; portanto, fico!» Porém o senhor tem razão; eu sempre fui muito pateta! Porque não fiquei eu e me calei? O senhor oferece-me um quarto em sua casa, a senhora Pontmercy quer-me muito; diz à poltrona:
«Estende-lhe os braços»; seu avô está morto por me ver ao pé de si, simpa za comigo; viveremos todos juntos, comeremos em comum, eu sairei a passear com Cose e... com a senhora Pontmercy — perdão, é o hábito! pelo braço; o mesmo tecto nos abrigará a todos; teremos todos a mesma mesa, o mesmo lar, o mesmo fogão no Inverno, o mesmo passeio no Verão; isto é a alegria, é a felicidade, é tudo! Viveremos em família. Em família!...
A esta palavra, o rosto de Jean Valjean cobriu-se de uma nuvem sombria. Cruzou os braços, fitou os olhos no soalho, como se nele quisesse cavar um abismo com a vista, e, de repente, exclamou com estranha e ruidosa entoação de voz:
— Em família! Não;! Eu não pertenço a família nenhuma! Não pertenço nem à sua nem à dos homens! Sou de mais nas casas onde vive qualquer família em sossego! Há-as, mas não para mim! Sou um desgraçado, um estranho para todas; elas! Quase chego a duvidar se ve pai e mãe! Essa menina casou, acabou tudo. Vi-a feliz, em companhia do homem a quem ela ama, em companhia de um ancião que lhe há-de querer como pai, e então disse para mim mesmo: «Tu não: entres! Deixa a sós esses dois anjos, deixa-os no meio da sua ventura!» Eu podia men r, é verdade, enganá-los a todos, ficar sendo o senhor Fauchelevent, como até aqui. Enquanto foi para bem dela, não hesitei em mentir, porém agora seria para meu bem, e, portanto, não o devo fazer! Bastava calar-me, é verdade, e tudo con nuaria como até agora! Pergunta-me o senhor o que me obriga a falar? Uma coisa esquisita — a minha consciência! E, todavia, nada mais fácil do que calar-me! Levei a noite inteira a querer-me persuadir a mim mesmo de que assim era; quer saber tudo? Tem razão! O que acabo de contar-lhe é tão extraordinário, que tem
direito a isso, é o que lhe digo, passei toda a noite em discussão comigo mesmo, a forcejar por convencer-me, fiz o que pude para isso, acredite que fiz! Porém não fui capaz de conseguir duas coisas — quebrar o fio que aqui me tem preso, manietado, chumbado, nem; fazer calar uma voz misteriosa que me fala, quando estou a sós! Aqui está a razão: porque eu aqui venho confessar-lhe tudo. Tudo ou quase tudo. Apenas lhe poderia dizer mais algumas coisas que me dizem respeito somente a mim, e por isso comigo ficam. O essencial disse-lho. Peguei no meu mistério e trouxe-lho. Agora já sabe o meu segredo. Não me custou pouco semelhante resolução! Toda a noite levei a debater-me! Olhe, não cuide que eu não fiz todos os esforços para me escusar de a tomar, tentando convencer-me de que se não tratava do processo Champmathieu, de que não causava prejuízo a ninguém em ocultar o meu nome, que o nome de Fauchelevent me havia sido dado por ele mesmo em reconhecimento de um serviço que eu lhe prestara, e que, portanto, podia usá-lo, e que viveria feliz no quarto que me oferecem em sua casa, que não daria trabalho a ninguém, deixando-me estar sempre no meu can nho, que, ao passo que o senhor possuiria Cose e, a mim bastar-me-ia a lembrança de viver na mesma casa com ela! Cada qual gozaria a sua ventura proporcionada. Tudo se arranjava, uma vez que eu con nuasse a ser o senhor Fauchelevent. Tudo, menos a minha alma!
Tudo em volta de mim seria alegria, porém O fundo da minha alma con nuaria sombrio!
Não basta viver venturoso, é necessário viver sa sfeito. Con nuaria, deste modo, a ser o senhor Fauchelevent, a ocultar o meu verdadeiro rosto; deste modo, seria um enigma no meio das expansões desta família, só veria trevas onde todos os mais viam luz; introduziria sorrateiramente as galés no seio da sua família; sentar-me-ia à sua mesa sempre com a lembrança de que, se soubesse quem eu era, me expulsaria de sua casa; deixar-me-ia servir por criados que, se o soubessem, diriam,: «Que horror!» Tocá-los-ia com o meu cotovelo, contacto que o senhor nha razão para evitar; ter-lhe-ia roubado apertos de mão! Haveria, em: sua casa uma par lha de respeito entre cãs venerandas e cãs manchadas; nas horas mais ín mas, quando todos os corações se julgassem abertos plenamente uns para os outros, quando todos quatro nos achássemos reunidos, seu avô, o senhor, sua mulher e eu, haveria no meio deste grupo, um desconhecido! Viveria no seio da sua família, sendo o meu único cuidado não desviar a tampa do meu terrível poço! Deste método, eu, que sou um morto, juntar-me-ia aos senhores, que têm vida.
Condenaria essa jovem à minha perpétua ignomínia! O senhor, Cose e e eu seríamos três cabeças cobertas pela mesma carapuça verde! Isto, realmente, não o faz estremecer?! Sou agora o mais infeliz dos homens, então seria o maior malvado! E este crime cometê-lo-ia todos os dias! E todos os dias traria afivelada no rosto esta máscara negra! E todos os dias as faria tomar parte na minha ignomínia! A vós, meus queridos e inocentes filhos! Não custa nada a calar-se a gente! É uma coisa fácil guardar silêncio?
Não, não é fácil! Há um silêncio que mente. E a minha men ra, a minha fraude, a minha indignidade, a minha ignomínia, a minha traição, o meu crime, teria de o beber gota a gota, de o cuspir fora e torná-lo a beber; acabaria à meia-noite para recomeçar ao meio-dia, e os meus bons dias men riam, e as minhas boas noites men riam, e dormiria acompanhado da minha men ra e comeria a minha men ra de envolta com o meu pão
e fitaria Cose e, e responderia ao sorriso do anjo com o sorriso do condenado, e seria um abominável embusteiro! Com que fim? Para ser feliz! Para ser feliz, eu! Acaso eu tenho direito a ser feliz? Eu sou um homem morto, senhor!...
Jean Valjean calou-se. Mário escutava. Tais encadeamentos de ideias e de angús as não podem ser interrompidos.
Após esta pausa, Jean Valjean prosseguiu outra vez, em voz baixa; porém, desta feita, a sua entoação, não era surda, era sinistra:
— Pergunta-me porque me não calo eu se ninguém me persegue, diz o senhor, nem tenta denunciar-me ou prender-me. Engana-se! Perseguem-me, denunciam-me, prendem-me! Quem? Eu mesmo! Eu é que embaraço o caminho a mim mesmo, me arrasto e me empurro, me prendo e me executo, e quem a si mesmo prende escusa de tentar fugir, que o não consegue!
E, agarrando na lapela do próprio casaco e puxando-a para onde estava Mário, continuou:
— Vê esta mão? Não lhe parece que este casaco está aqui bem seguro? Pois a consciência ainda aperta com mais força! Quem quer viver feliz, senhor, não deve escutar a voz do dever, porque, se a escuta, essa voz torna-se implacável! Parece que nos quer castigar de a escutarmos; oh, não! Recompensa-nos, porque nos arremessa a um inferno, onde ao nosso lado como que sen mos Deus! Apenas rasgamos as entranhas, ficamos em paz connosco mesmos!
E acrescentou com inexprimível acento:
— Senhor Pontmercy, conquanto lhe pareça absurdo, eu sou um homem de bem!
Quanto mais me avilto a seus olhos, mais me elevo aos meus! É a segunda vez que isto me acontece, porém não me custou então O que hoje me custa, então não foi nada!
Repito, eu sou um homem de bem! Deixaria de o ser, se o senhor, por culpa minha, con nuasse a es mar-me; porém, sou-o ainda, por isso que o senhor me despreza! É
des no meu, des no fatal, que, como não possa gozar senão de consideração roubada, semelhante consideração humilha-me e angus a-me interiormente, de modo que, para que eu a meus olhos seja digno de respeito, é necessário: que aos olhos dos outros só mereça desprezo! Nesse caso, elevo-me! Sou um forçado que obedece à sua consciência!
Bem sei que parecem duas coisas incompa veis. Mas que quer que lhe faça? A verdade é esta. Não faço mais do que cumprir os compromissos que contraí para comigo; mesmo!
Há compromissos que nos atam de pés e mãos, há acasos que nos levam de rastos ao cumprimento do dever! Veja, senhor Pontmercy, o que vai de singularidade na minha vida!
Jean Valjean fez nova pausa, engolindo a saliva com esforço, como se as suas palavras tivessem um ressaibo amargo, e depois prosseguiu:
— Quem se vê coberto por semelhante nódoa de ignomínia não tem direito de fazer que os outros dela par cipem sem o saberem, nem de lhes comunicar a mesma peste, nem de os arrastar à falsa fé para o mesmo precipício, nem de os fazer envergar a vés a do forçado, nem de ensombrar sorrateiramente com as trevas da miséria própria o resplendor da felicidade alheia. É hediondo chegarmo-nos ao pé dos que estão sãos para
os tocarmos traiçoeiramente com a nossa úlcera invisível! Pouco importa que Fauchelevent me cedesse voluntariamente o seu nome; eu não tenho direito de o usar; ele podia dar-mo, eu não posso aceitar-lho! Um nome é um «eu». Como o senhor vê, eu não sou inteiramente des tuído de instrução; apesar de ser um simples aldeão, tenho lido alguma coisa, e, bem vê que me exprimo menos mal. Fui mestre de mim mesmo, e por isso sei entrar no conhecimento das coisas. Subtrair um nome para encobrir com ele o que realmente somos é uma infâmia! Roubar letras do alfabeto ou roubar um relógio ou uma bolsa, tudo é roubar! Ser uma assinatura falsa em carne e osso, uma chave falsa animada, introduzir-se em casa da gente de bem, forçando-lhe a fechadura, não olhar nunca para ninguém direito, sempre de través, ser infame no interior de mim mesmo, não, não, não, mil vezes não! Antes sofrer, sangrar, chorar, dilacerar as próprias carnes com as unhas, passar as noites a contorcer-me desesperadamente, rasgar as entranhas e a alma! Aqui tem a razão porque lhe vim contar tudo. Espontaneamente, como o senhor disse!
E, depois de fazer um esforço para respirar, proferiu, por «úl mo, as seguintes palavras:
— Uma ocasião, roubei um pão para viver; hoje para viver não quero roubar um nome!
— Para viver! — atalhou Mário. — O senhor não tem necessidade desse nome para viver!
— Oh, eu bem sei o que digo! — respondeu Jean Valjean, abanando repe das vezes a cabeça vagarosamente.
Seguiu-se uma pausa, durante a qual nem um nem outro quebraram o seu mútuo silêncio, abismados em profunda cogitação. Mário sentara-se junto de uma mesa, com um dos dedos dobrado apoiado no canto da boca.
Jean Valjean passeava de um lado para o outro. Ao passar por diante de um espelho que havia na sala, parou e ficou imóvel. De súbito, olhou para o espelho, sem ver nele o reflexo da sua imagem, e disse, como respondendo a um íntimo raciocínio:
— Ao passo que agora sinto-me aliviado!
E con nuou o seu passeio até ao extremo da sala. Ao voltar-se, reparou que Mário estava a observar o modo como ele andava, e disse-lhe então com inexprimível inflexão de voz:
— Arrasto alguma coisa a perna. Agora já sabe porquê!
E acrescentou, voltando-se de todo para Mário:
— Ora agora faça de conta que nada lhe dizia, que con nuava sendo, como até aqui, o senhor Fauchelevent, que Vinha ocupar o meu lugar no meio da sua família, que dormia no meu quarto, que todos os dias pela manhã me apresentava a almoçar com as minhas chinelas nos pés, que à noite íamos todos três ao teatro, que eu acompanhava a senhora Pontmercy para as Tulherias e para a Praça Real, que vivíamos na melhor união, que o senhor me supunha seu igual, e que, um dia, achando-nos todos reunidos, conversando e rindo, se ouvia, de repente, uma voz gritando: «Jean Valjean!» e eis que a temerosa mão da polícia, surgindo das trevas, me arrancava inesperadamente a minha
máscara!...
E, após nova pausa, durante a qual Mário se levantou, como sacudido por um calafrio, Jean Valjean continuou:
— Que diz o senhor a isto?
O silêncio de Mário valia por uma resposta,
— Já vê — con nuou Jean Valjean — que tenho razão para não ficar calado.. Depois disto, resta-me dizer-lhe que desejo que seja feliz, que viva contente no meio do esplendor que o cerca e sa sfaça-se com isso! Não lhe dê cuidado saber como um pobre condenado se houve para dilacerar o peito a si mesmo e cumprir o seu dever! O senhor tem diante de si o homem mais digno de lástima!
Mário atravessou vagarosamente a sala, acercou-se de Jean Valjean e estendeu-lhe a mão. Ao travar-lhe, porém, da mão, que Jean Valjean não lhe apresentou, mas que lhe abandonou sem resistência, pareceu-lhe que apertava um pedaço de mármore.
— Meu avô tem alguns amigos — disse-lhe Mário portanto, não desespere de alcançar ainda o seu perdão!
— É escusado! — respondeu Jean Valjean. — Todos me supõem morto, e por isso não precisa de mais nada. Os mortos não estão debaixo das vistas da polícia! Deixam-nos comer os vermes sossegadamente! A morte, equivale ao perdão!
E, desenvencilhando da de Mário a mão que o rapaz lhe apertava, acrescentou com uma espécie de inexorável dignidade:
— Demais, o amigo a que recorro é o cumprimento do meu dever; nem eu necessito de outro perdão além do da minha consciência!
Neste instante entreabriu-se de mansinho a porta que ficava no fundo da sala, dando passagem à cabeça de Cose e, a quem mal se divisava o suave rosto. Com os cabelos em gracioso desalinho, as pálpebras ainda inchadas de dormir, fez o movimento de um passarinho que deita a cabeça fora do ninho, fitou primeiro seu marido, depois Jean Valjean, e gritou-lhes com um sorriso que parecia o súbito e gracioso desabrochar de uma rosa:
— Apostemos que estão aí a parolar sobre polí ca, em vez de virem fazer-me companhia? Forte gosto!
Àquela voz harmoniosa, Jean Valjean estremeceu.
— Cosette...— balbuciou Mário.
E calou-se.
Dir-se-iam dois criminosos colhidos de repente em flagrante delito.
Cose e con nuava a olhar para ambos com a mesma expressão de felicidade no rosto.
Dir-se-ia ao vê-la, que se lhe reflectia nos olhos a imagem do paraíso.
— Escusam de negar, que eu apanhei-os em flagrante delito! Eu bem ouvi, há um instante mesmo, estar meu pai a dizer: «A consciência... Cumprir o meu dever...» Isto que é senão polí ca? Não quero! Desde amanhã em diante não consinto que aqui se torne a falar mais sobre política. Fique entendido!
— Estás enganada, Cose e — respondeu Mário. Nós estávamos a falar em negócios.
Estávamos a falar do melhor modo de empregar os teus seiscentos mil francos.
— Não estavam tal! — acudiu Cose e. — Esperem que eu lá vou; ou não me querem lá?
E, abrindo resolutamente a porta, entrou na sala.
O seu vestuário consis a num largo roupão branco cheio de pregas, com grandes mangas, que lhe chegavam dos ombros até aos pés. Vêem-se nos céus dourados dos antigos quadros góticos anjos assim embrulhados nesses graciosos sacos.
Cose e olhou-se a um grande espelho, que a reflec a desde os pés até à cabeça, e em seguida exclamou num assomo de inefável êxtase:
— Era uma vez um rei e uma rainha. Oh, sempre estou mais contente!...
E acrescentou, fazendo uma cortesia a Mário e outra a Jean Valjean:
— Esperem. Vou sentar-me aqui numa cadeira ao pé dos senhores, enquanto não vamos almoçar, que não tarda meia hora. Podem dizer o que quiser, que eu bem sei que os homens precisam de falar, e por isso não farei travessuras!
Mário travou-lhe do braço e disse-lhe com indefinível expressão de amor:
— Queremos falar sobre negócios.
— É verdade — respondeu Cose e — olha, abri a janela do meu quarto e sabes o que vi no jardim? Uma nuvem de pardais, que fugiram espavoridos apenas eu me pus de cá a bater-lhes as palmas. Fiz bem?
— Já te disse que queríamos falar sobre Um negócio; por isso vai, minha querida; deixa-nos sós um instante. Olha, é sobre algarismos e tu aborrecias-te se ficasses aqui a ouvir essas coisas
— Que bonita gravata puseste esta manhã, Mário!
O senhor está muito elegante. Não, não me há-de aborrecer.
— Asseguro que te aborrecerás!
— Não aborreço, porque és tu e meu pai. Não os entenderei, mas estudarei. A gente, uma vez que ouça as vozes das pessoas a quem tem afeição, não precisa de entender as palavras que elas dizem. Eu não quero mais nada do que estar aqui também. Por consequência, fico!
— Tu és a minha querida Cosette, mas olha que isso não pode ser!
— Não pode ser?!
— Não!
— Está bem! — replicou Cose e. — Pois também não saberão as novidades que eu nha para contar-lhes! Fazia tenção de lhes dizer que o avô ainda se não levantou, que tua a foi à missa, que a chaminé do quarto de meu pai está cheia de fuligem, e por isso enche o quarto de fumo, que Nicolette mandou chamar o limpa-chaminés, que Toussaint e Nicole e já andavam às bulhas, que Nicole e arremeda Toussaint a gaguejar! Fazia tenção de lhes dizer tudo isso, e assim não sabem nada! Ah, não pode ser?! Pois deixa estar; quando me chegar a minha vez, também eu hei-de dizer: «Não pode ser, meu senhor!» E quem perderá mais? Ó Mário, peço-te que me deixes ficar aqui convosco!
— Juro-te que temos necessidade de falar em particular.
— E então eu, porventura, sou alguém?
Jean Valjean não proferia a menor palavra.
Cosette voltou-se para ele e disse-lhe:
— Antes de mais nada, meu pai, quero que me dê um abraço! Que está aí a fazer sem dizer nada, em vez de tomar o meu par do? Já viram um pai assim? Bem vê como eu fui infeliz com o meu casamento! Meu marido bate-me! Vamos, abrace-me já!
Jean Valjean acercou-se de Cosette, que disse, voltando-se para Mário:
— Olha, a ti faço-te uma careta!
E, após isto, apresentou a fronte a Jean Valjean.
Jean Valjean deu um passo para ela. Cosette recuou.
— Está tão pálido, meu pai! Que tem? Está pior da mão?
— A mão já está boa! — respondeu Jean Valjean.
— Então passou mal a noite?
— Não.
— Está triste?
— Não.
— Nesse caso, dê-me um abraço. Se não tem incómodo nenhum, se passou bem a noite, se anda satisfeito, não lhe ralho!
E tornou a apresentar a fronte.
Jean Valjean depôs um beijo nessa fronte, em que se reflec a um como clarão celeste, e Cosette prosseguiu:
— Sorria-se!
Jean Valjean obedeceu, porém o seu sorriso parecia o de um espectro.
— Agora defenda-me contra meu marido!
— Cosette... — atalhou Mário do lado.
— Zangue-se muito, meu pai! Diga-lhe que devo ficar! Porque não podem conversar na minha presença? Então eu sou alguma tola? Olhem que coisa tão extraordinária. O
grande negócio! Depositar dinheiro num Banco! Sempre é um segredo! Os homens, ao menos, de qualquer coisa fazem uma bicha de sete cabeças! Pois quero ficar, que eu hoje estou muito bonita! Ora olha para mim, Mário!
E, ao mesmo tempo que dizia isto, Cose e fitou Mário com um adorável encolher de ombros e um gracioso gesto de amuo.
Uma como faísca eléctrica se produziu então entre aquelas duas criaturas, e, esquecidos da presença de Jean
Valjean, caíram irresistivelmente nos braços um do outro.
— Amo-te! — disse Mário.
— Adoro-te! — exclamou Cosette.
E, compondo uma prega do roupão com um gesto de triunfo, disse:
— Agora sempre fico!
— Isso não! — respondeu Mário em tom suplica vo. — Não, porque temos um negócio a tratar em particular!
— Nem assim?
— Asseguro-te, Cose e, que não pode ser! — replicou Mário, assumindo um tom
grave:
— Ah, o senhor fala-me desse modo? Pois está bem! Vou-me embora! E então meu pai não podia defender-me? Senhor meu marido, senhor meu papá, são uns tiranos! Vou dizê-lo ao avô. Estão enganados, se cuidam que faço tenção de tornar aqui a aparecer a expor-me às suas humilhações! Não tenho esse génio! Eu cá os espero! Até logo. Contem que os senhores é que se hão-de aborrecer por eu cá não estar! Vou-me embora, mas verão!
E saiu.
Passados dois segundos, a porta tornou a entreabrir-se, mostrou novamente o fresco e rosado rosto entre os dois batentes e gritou-lhes:
— Estou furiosa!
E, após isto, fechou-se de novo a porta e aqueles dois homens voltaram à sombria atitude em que se achavam, quando Cosette os interrompeu.
A aparição da jovem naquela sala fora como que um raio de sol perdido que, sem o suspeitar, houvesse, de súbito, atravessado a escuridão.
Mário foi certificar-se se a porta estaria bem fechada e em seguida murmurou:
— Pobre Cosette! Quando ela vier a saber...
A estas palavras, Jean Valjean sen u um calafrio por todo o corpo e exclamou, fitando em Mário o seu olhar alucinado:
— Cose e, oh, sim, é verdade, o senhor decerto lhe vai contar tudo isto! É justo! Eu é que nem de tal coisa me nha lembrado! Olhe, senhor, a gente tem força para umas coisas, mas carece dela para outras! Senhor, Peço-lhe, suplico-lhe por quanto há, que me dê a sua palavra mais sagrada de que não lhe dirá nada do que acabo de confessar-lhe!
Não basta que só o senhor o saiba? Disse-o espontaneamente, sem ninguém a isso me obrigar; di-lo-ia a todo o mundo, a todos que me quisessem ouvir, porque isso para mim era o mesmo! Mas a ela, a ela que não sabe o que isto é, não lho diga, que a vai encher de horror! Um forçado, oh, não, não! Teria de explicar-lhe, dizer-lhe: «É um homem que esteve nas galés!» Ela, um dia, viu passar uma leva de forçados. Oh, meu Deus!
E caiu desfalecido numa poltrona, escondendo o rosto entre as mãos. Não se lhe ouvia um soluço, mas conhecia-se-lhe pelo estremecimento dos ombros que o desditoso chorava. Lágrimas silenciosas, lágrimas terríveis.
Os soluços sufocam.
Jean Valjean, trémulo, como se uma convulsão terrível o acometera, recostou-se no espaldar da cadeira, como para tomar a respiração, pendendo os braços com expressão de desalento e mostrando aos olhos de Mário o rosto inundado de lágrimas, e o jovem ouviu-o murmurar em voz tão baixa, que parecia sair do fundo de um abismo incomensurável:
— Oh, desejava morrer!
— Esteja descansado — disse-lhe Mário — que o seu segredo não passará da minha boca!
E, menos comovido talvez do que era de esperar, porém obrigado, havia uma hora, a familiarizar-se com tão inesperado como terrível acontecimento, ao ver um forçado
sobrepondo-se gradualmente a Fauchelevent, ali mesmo à sua vista, dominado, pouco a pouco, por esta lúgubre realidade e levado pelo império da situação a reconhecer a distância que acabava de se interpor entre ele e aquele homem, acrescentou:
— Não posso deixar de lhe dizer uma palavra a respeito do depósito de que o senhor tão fiel e honrada entrega fez. É uma acção de probidade que merece uma recompensa!
Nada mais justo! Fixe o senhor mesmo a soma e ser-lhe-á pontualmente entregue. Não receie pedir demasiado!
— Obrigado, senhor — respondeu Jean Valjean com modo afável.
E quedou-se um momento pensa vo, correndo maquinalmente a ponta do dedo indicador sobre a unha do polegar.
Depois disse, elevando a voz:
— Está quase tudo terminado. Resta-me apenas uma coisa...
— Que coisa vem a ser essa?
Após um momento de suprema hesitação, Jean Valjean disse finalmente, ou antes, balbuciou, com a respiração e a voz quase tomada:
— Agora, que já sabe tudo, acha o senhor que é o dono da casa, que não devo tornar a ver Cosette?
— Eu entendo que era melhor — respondeu Mário friamente.
— Pois então não a tornarei a ver! — murmurou Jean Valjean.
E dirigiu-se para a porta.
Chegado aí, deitou a mão ao fecho, que prontamente cedeu, entreabriu a porta apenas o necessário para poder sair, porém em lugar de o fazer, quedou-se um momento imóvel, depois tornou a fechar a porta e voltou-se para Mário. O seu rosto já não estava pálido, estava lívido. Não se lhe viam já lágrimas nos olhos, mas um como lúgubre clarão. A voz tornara-se-lhe estranhamente serena.