Os Miseráveis
IV — A criança admirada do velho
— Bonito cavalo! — disse o barbeiro.
Era o cavalo de Sua Majestade.
O barbeiro conhecendo que era conveniente um movimento de silêncio depois destas palavras, conformou-se com a conveniência e depois continuou:
— O imperador não foi ferido senão uma vez, não é verdade?
O velho soldado respondeu com o acento tranquilo e soberano do homem que presenciou o facto:
— No calcanhar. Foi em Ra sbonne. Nunca o vi tão bem ves do como naquele dia.
Estava mesmo um palmito.
— O senhor é que deve ter sido ferido muitas vezes?
— Eu! — retorquiu o soldado. — Nem por isso. Em Marengo levei duas cu ladas na nuca, uma bala no braço direito em Austerlitz, outra na nádega esquerda em Jena, em Friedland uma baionetada aqui em Moscovo sete ou oito lançadas em diferentes partes, em Lutzen fiquei com um dedo esmigalhado pelo caco de uma granada... Ah! E depois em Waterloo um biscainho numa coxa; e nada mais.
— Como é para invejar! — exclamou o barbeiro num tom pindárico. — A morte no campo da batalha! Eu, palavra de honra, em vez de espichar na cama de uma doença, vagarosamente, e um bocadinho cada dia rodeado de garrafadas e coberto de cataplasmas, antes queria levar com uma bala de artilharia.
— O senhor não é difícil de contentar — disse o soldado.
Tinha apenas o soldado proferido estas palavras, quando um estampido imenso pareceu abalar toda a loja. Era um vidro do mostrador que fora naquele mesmo instante partido violentamente.
O barbeiro tornou-se lívido.
— Valha-me Deus! Ali está uma!
— Uma quê?
— Uma bala de artilharia.
— Aqui a tem — disse o soldado.
E apanhou um objecto que rodava pelo chão. Era um calhau.
O barbeiro correu à vidraça par da e ainda viu Gavroche fugindo a sete pés para o mercado de S. Jean. O gaiato sen ndo os dois pequenitos a pesar-lhe no coração e passando pela loja do barbeiro, não pôde resis r ao desejo de o cumprimentar, o que fez atirando-lhe uma pedra aos vidros.
— Ora vejam lá isto! — bramiu o barbeiro, que de branco se tornara azul. — É mesmo o mal pelo mal! O que é que fizeram àquele maroto, não me dirão?
IV — A criança admirada do velho
No mercado de S Jean, porém, cujo posto da guarda já nha sido desarmado, Gavroche operara a sua junção com um bando capitaneado por Enjolras, Courfeyrac, Combeferre e Feuilly, todos armados ou quase armados Engrossavam o grupo Bahorel e Jean Prouvaire, que se lhes nham vindo juntar ao caminho. Enjolras levava uma espingarda de caça de dois canos, Combeferre uma espingarda de guarda nacional com o número da legião a que pertencia, e duas pistolas à cinta, as quais se lhe entreviam pela abertura que deixava o casaco desabotoado; Jean Prouvaire uma clavina velha de cavalaria, Bahorel um bacamarte, Courfeyrac uma bengala de estoque, a qual ia brandindo numa das mãos. Feuilly marchava na frente de sabre desembainhado em punho e gritando: