Os Miseráveis
III — Um enterro: ocasião de renascer
Dada esta explicação, o que é para a história o movimento de Junho de 1832? É uma revolta ou uma insurreição?
É uma insurreição.
Poderá suceder-nos, ao meter em cena este acontecimento terrível, dizermos, por vezes, a revolta, mas será somente para qualificar os factos superficiais; a dis nção entre a forma revolta e o fundo insurreição manter-se-á sempre.
O movimento de 1832 na sua rápida expulsão e na sua lúgubre ex nção teve tanto de grandeza, que aqueles mesmos que não vêm ali senão uma revolta, não falam dele, sem respeito. Para eles é como um lesto de 1830. As imaginações agitadas, dizem eles, não se
acalmam num dia. Uma revolução não se corta a prumo. Apresenta sempre e necessariamente algumas ondulações antes de voltar ao estado de quietação, como uma montanha tornando a descer para a planície. Não há Alpes sem Jura, nem Pireneus sem Astúrias.
A crise paté ca da história contemporânea, que a memória dos parisienses denomina época das revoltas, é inques onavelmente uma hora caracterís ca entre as horas tempestuosas deste século.
Mais uma palavra antes de entrarmos na narração.
Os factos que vão ser apresentados pertencem à realidade dramá ca e viva que a história algumas vezes despreza, por falta de tempo e de espaço. É todavia nela, insis mos nisto, que está a vida, a palpitação, o estremecimento humano. Os pormenores, julgamos tê-los já dito, são, para assim dizer, a folhagem dos grandes acontecimentos que se perdem nos longes da história.
A época chamada das revoltas abunda em minúcias deste género. Os processos judiciais, por outras razões que não são as da história, não revelaram nem talvez aprofundaram tudo. Vamos pois apresentar à luz, entre as par cularidades conhecidas e publicadas, coisas que não foram sabidas, factos sobre que passou o esquecimento de uns e a morte de outros. A maior parte dos actores destas cenas gigantescas desapareceu; no dia seguinte todos se calavam; mas o que vamos contar, podemos dizer:
— Vimo-lo!
Mudaremos alguns nomes, porque a história conta e não denuncia; mas pintaremos coisas verdadeiras. Nas condições do livro que escrevemos, não mostraremos senão um lado e um episódio, decerto o menos conhecido, dos dias 5 e 6 de Junho de 1832; mas faremos de certo modo com que o leitor entreveja, por baixo do sombrio véu que vamos erguer, o vulto real daquela medonha aventura pública.
III — Um enterro: ocasião de renascer
Paris, na Primavera de 1832, conquanto houvesse três meses que o cólera lhe nha gelado todos os espíritos e lançado em seu con nuo movimento uma espécie de taciturna pacificação estava havia muito preparada para uma comoção. Como já temos dito, a grande cidade assemelha-se a uma peça de ar lharia; quando está carregada, basta que de qualquer parte caia uma faísca para que ela se dispare. Em Junho de 1832 a faísca foi a morte do general Lamarque.
Lamarque era um homem de nomeada e de acção. Houvera do sucessivamente, no tempo do império e no da restauração, as duas bravuras necessárias às duas épocas: a dos campos da batalha e a da tribuna. Era eloquente como fora valente; na sua palavra adivinhava-se a espada. Como Foy, seu antecessor, depois de ter man do a altura da autoridade, man nha a altura da liberdade. Tomava assento entre a esquerda e a extrema esquerda, era querido do povo porque aceitava as probabilidades do futuro e da mul dão, porque servira bem o imperador. Era como os condes Gerard e Drouet, um dos marechais in pe o de Napoleão. Os tratados de 1815 indignavam-no como uma ofensa pessoal. Odiava Wellington com um ódio directo, que agradava à mul dão; e durante dezassete anos, apenas atento aos acontecimentos intermediários, conservara
majestosamente a tristeza de Waterloo. Agonizante, na sua úl ma hora, estreitara ao coração uma espada que lhe nham oferecido os oficiais dos Cem Dias. Napoleão morrera pronunciando a palavra «exército», Lamarque pronunciando a palavra «pátria».
A sua morte, por todos esperada, era receada pelo povo como uma perda, temida pelo governo como uma ocasião. A sua morte foi um luto, e o luto, como tudo o que é amargo, pode transformar-se em revolta. Foi, efectivamente, o que aconteceu.
Na véspera e na manhã do dia 5 de Junho, dia marcado para o enterro de Lamarque, o bairro de Santo António, por onde o prés to devia passar, tomou um aspecto temeroso, inchando-se de rumores aquela tumultuosa rede de ruas. Cada qual armava-se com o que mais à mão encontrava. Os marceneiros travavam dos barriletes «para arrombar as portas». Um deles, de um instrumento de sapateiro fizera um punhal, aguçando-o e adaptando-o para este fim. Outro, dominado pela febre «de atacar», dormia ves do havia três noites.
Um carpinteiro chamado Lombier encontrava um companheiro que lhe perguntava:
— Onde vais tu?
— Ora! Ver se arranjo armas.
— E onde vais buscá-las?
— Vou à loja buscar o compasso.
— Mas para que é isso?
— Eu sei lá — dizia por último Lombier.
Um tal Jacqueline, homem expedito, acercava-se dos operários que iam a passar, levava-os a uma taberna, pagava-lhes dez soldos de vinho e dizia-lhes:
— Tens em que trabalhar?
— Não.
— Pois vai a casa de Filspierre, entre a barreira de Montreuil e a de Charonne, e acharás obra.
O que se achava em casa de Filspierre eram cartuchos e armas. Certos chefes «faziam de correio», isto é, andavam de casa em casa, reunindo a sua gente. Nos armazéns de Barthélemy, ao pé da barreira do Trono e de Capei, no Pe t-Chapeau, os bebedores agrupavam-se com ar misterioso e diziam uns para os outros:
— Onde trazes a tua pistola?
— Debaixo da blusa.
— E tu?
— Por baixo da camisa.
Na rua Traversière, em frente da loja de Roland, e no pá o da Casa-Queimada, diante da loja de ferragens de Bernier, viam-se grupos cochichando, tornando-se entre eles muito saliente, pelo seu ardor, um certo Mavot, que nunca parava mais de uma semana em qualquer oficina, porque os mestres mandavam-no embora, «por não estarem para disputar com ele todos os dias». Este Mavot foi morto ao outro dia na barricada da rua de Ménilmontant. Prevot, que nha igualmente de sucumbir na luta, secundava Mavot, e a esta pergunta:
— Que fim é o teu?
Respondia:
— A insurreição.
À esquina da rua de Bercy, via-se um grupo de operários, à espera de um certo Lemarin, agente revolucionário encarregado do bairro de S. Marcos. As senhas, as palavras de ordem trocavam-se quase publicamente.
A 5 de Junho, pois, por um dia entremeado de chuva e de sol, desfilou pelas ruas de Paris o préstito fúnebre do general Lamarque, com a pompa militar oficial, à cautela mais reforçada do que era costume. Escoltavam o féretro dois batalhões de linha, de armas em funeral e tambores cobertos de luto, dez mil guardas nacionais, de sabre ao lado, e as suas respec vas baterias de ar lharia. O coche que conduzia o caixão era puxado por mancebos. Seguiam logo atrás os oficiais dos Inválidos, com ramos de loureiro na mão.
Após estes seguia uma mul dão sem número, agitada, estranha, os seccionários dos Amigos do Povo, a Faculdade de Direito, a de Medicina, os refugiados de todas as nações, bandeiras espanholas, italianas, alemãs, polacas, bandeiras tricolores horizontais, bandeiras de quantas castas havia, rapazes agitando ramos verdes, pedreiros e carpinteiros, impressores com os seus barretes de papel, caminhando a dois a dois, três a três, dando gritos, quase todos brandindo paus, alguns com espadas, desordenadamente, porém com uma só alma, ora turba, ora coluna. Aqui, viam-se diversos pelotões escolhendo chefes; além, via-se um homem armado com um par de pistolas, passando abertamente revista a outros, cujas fileiras se abriam diante dele. Nas alas laterais dos boulevards, nos ramos das árvores, nas varandas, nas janelas, sobre os telhados, ninguém via senão cabeças, e nos olhos de todos, homens, mulheres, crianças, notava-se a ansiedade. Passava uma multidão armada, outra olhava assustada.
Quanto ao governo, observava, porém observava com a mão no punho da espada. Na praça de Luís XV, viam-se em ordem de marcha, com as cartucheiras cheias e as armas carregadas, quatro esquadrões de carabineiros, montados e de clarins na frente; no Bairro La no e no Jardim das Plantas, a guarda municipal; no mercado dos vinhos, um esquadrão de dragões; na Greve, metade do 12 de linha e a outra metade na Bas lha; nos Celes nos, o 6 de dragões e o pá o do Louvre atulhado de ar lharia. O resto das tropas achava-se em armas nos quartéis, sem contar os regimentos dos arredores de Paris. O poder, portanto, que se receava, nha suspensos sobre a mul dão ameaçadora vinte e quatro mil soldados, dentro da cidade, e trinta mil nos arrabaldes.
Por entre os que compunham o prés to circulavam diversos boatos. Falava-se de manejos legi mistas; falava-se do duque de Reichstadt, que Deus des nava à morte naquele mesmo momento em que a mul dão o designava para o império. Anunciava um personagem, sem se dar a conhecer, que à hora marcada dois contramestres subornados abririam ao povo as portas de uma fábrica de armas. A expressão predominante nas frontes descobertas da maior parte dos assistentes era a de um entusiasmo misturado de desalento. Aqui e além, no meio daquela mul dão dominada por tantas emoções, violentas, mas nobres, viam-se verdadeiros rostos de malfeitores -e bocas ignóbeis, que pareciam estar dizendo: «Roubemos!» Há certas agitações que revolvem o fundo dos pântanos, fazendo subir à super cie nuvens de lodo. Fenómeno é este a que as polícias
«bem organizadas» não costumam ser estranhas.
Desfilou o prés to da casa mortuária e principiou a caminhar pelos boulevards em direcção à Bas lha, com febril len dão. De espaço a espaço, sobrevinha uma bátega de chuva, a que a mul dão era totalmente indiferente. Diversos incidentes assinalaram a passagem do cortejo fúnebre, tais como a volta que o féretro deu em roda da coluna Vendôme, algumas pedradas a radas ao duque de Fitz James, por aparecer a uma janela de chapéu na cabeça; o galo gaulês arrancado a uma bandeira popular e arrastado pela lama; um agente de polícia ferido com uma cu lada, junto à porta de S. Mar nho; um oficial do 12 de linha dizendo em voz alta: «Eu sou republicano», a intervenção da escola politécnica depois de ter transgredido as ordens que recebera de não sair, os gritos de:
«Viva a Escola Politécnica! Viva a república!» Na Bas lha, juntaram-se ao prés to as cerradas fileiras de curiosos que desciam do lado do bairro de Santo António e principiou então a alvoroçar-se a multidão numa efervescência terrível.
Nessa ocasião, houve quem ouvisse estar um homem dizendo para outro:
— Vês acolá aquele de barba ruiva? Pois é o que há-de dar sinal de atirar.
Parece que este mesmo barba ruiva se achou depois noutra revolta, com o mesmo mister que desempenhou naquela. Queremos falar da revolta Quénisset.
O coche passou a Bas lha, seguiu pelo canal, atravessou a ponte e chegou, finalmente, à esplanada da ponte de Austerlitz, onde parou. Vista de um lugar elevado, a mul dão, naquele momento, oferecia o aspecto de um cometa, cuja cabeça es vesse na esplanada e a cauda, desenrolada sobre o cais Bourdon, cobrisse a Bas lha e se prolongasse pelo boulevard até à porta de S. Mar nho. A mul dão formou um círculo em volta do coche e emudeceu. Lafaye e levantou então a voz e disse adeus a Lamarque. Foi um instante tocante e augusto em que todas as cabeças se descobriram e todos os corações pulsavam comovidos. De repente, apareceu no meio do grupo um homem a cavalo, ves do de preto, com uma bandeira vermelha na mão, outros dizem que com uma lança coroada por um barrete vermelho. Lafaye e voltou a cabeça, Excelmans deixou o préstito
Esta bandeira vermelha suscitou uma tempestade e nela desapareceu Desde o boulevard Bourdon até à ponte de Austerlitz, a mul dão foi agitada por um desses clamorosos rumores que parecem vagas. «Lamarque para o Panteon!» «Lafaye e para o palácio municipal!» Foram os dois gritos maravilhosos que reboaram pelo espaço Alguns rapazes correram então para o coche, no meio das aclamações da mul dão, e principiaram a puxá-lo pela ponte de Austerlitz, enquanto outros conduziam Lafaye e numa sege pelo cais de Morland.