Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 244 de 359

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Os Miseráveis

II — Onde o pequeno Gavroche tira proveito de Napoleão, o Grande

Assim decorreram alguns anos, com grande sa sfação de Thenardier, que via seus filhos bem tratados. Uma ocasião disse ele à Magnon, ao entregar-lhe esta os dez francos mensais do ajuste:

— Já vai sendo tempo de «o pai» os mandar educar convenientemente.

De repente as duas pobres crianças, até então favorecidas mesmo pela sua má sorte, viram-se inesperadamente arremessadas no mundo e obrigadas a principiar a vida.

Uma prisão em massa de malfeitores, como a que teve lugar na mansarda dos Jondre e, necessariamente seguida de averiguações e de outras prisões, é um

verdadeiro desastre para esta hedionda contra-sociedade oculta que vive por baixo da sociedade pública; um acontecimento deste género traz consigo toda a qualidade de desabamentos neste mundo sombrio. A catástrofe dos Thenardier produziu a da Magnon.

Um dia, pouco tempo depois de a Magnon entregar a Eponina o bilhete rela vo à rua Plumet, a polícia assaltou inesperadamente a casa de Magnon, que foi presa, bem como Mademoiselle Miss e tudo o mais que a torrente das suspeitas arrastou para dentro da rede. Nessa ocasião, achavam-se os dois pequenos a brincar num pá o que ficava nas traseiras da casa e não viram nada da «razia». Quando tentaram entrar, acharam a porta fechada e a casa vazia. Um remendão que morava numa loja fronteira chamou-os e entregou-lhes um papel que «a mãe» lhes nha deixado. O papel con nha apenas estas palavras: «Senhor Barge, procurador, rua do Rei da Sicília, número 8». E o remendão acrescentou:

— Vocês já aqui não moram. Vão a casa que diz o papel, que fica logo aí adiante, na primeira rua à esquerda. Mostram o papel e vão perguntando para onde é.

As crianças par ram, o mais velho conduzindo o mais novo pela mão e levando na outra o papel que os devia guiar. Como, porém, em virtude do frio que lhe entorpecia os dedos, não pudesse apertar bem o papel, ao voltar a esquina da rua de Cloche-Perce, uma rajada de vento rou-lho das mãos, e, como era quase noite fechada, não lhe foi possível tornar a dar com ele, e então principiaram ambos a divagar ao acaso pelas ruas.

II — Onde o pequeno Gavroche tira proveito de Napoleão, o Grande A Primavera em Paris é, muitas vezes, atravessada por um nordeste duro e desabrido, com que se fica, não precisamente gelado, mas crestado; estes nordestes que entristecem os mais belos dias, produzem exactamente o efeito dos sopros de ar frio que entram num quarto bem aquecido, pelas fendas de uma janela ou de uma porta mal fechada. Parece que ficaria mal fechada a porta do Inverno e que é por ela que entra o vento. Na Primavera de 1832, época em que se manifestou a primeira grande epidemia deste século na Europa, foram aqueles nordestes mais desabridos e mais agudos do que nunca. Era uma porta mais glacial ainda do que a do Inverno, que estava entreaberta.

Era a porta do sepulcro. Sentia-se naquelas rajadas de vento o sopro da cólera.

Pelo modo de ver meteorológico, aqueles ventos frios tinham a particularidade de não excluir uma forte tensão eléctrica. Naquela quadra houve frequentes tempestades, acompanhadas de grandes trovoadas.

Uma tarde que o nordeste soprava mais agreste, a ponto de parecer que se estava no mês de Janeiro e de fazer com que os burgueses travassem outra vez das suas capas, achava-se Gavroche, ritando alegremente, como sempre, sob os farrapos que o cobriam, de pé e como que em êxtase, diante da loja de um cabeleireiro próximo ao Orme-Saint-Gervais. Era a sua cobertura um xaile de lã, que apanhara não sabemos onde, e de que fizera um abafo. Parecia estar em a tude de profunda admiração diante de uma boneca de cera, que representava uma noiva, decotada e com a simbólica grinalda de flores de laranjeira na cabeça, volteando por dentro da vidraça e mostrando entre dois candeeiros o seu sorriso a quem passava. Na realidade, porém, o que

Gavroche observava era a loja, a ver se poderia «bifar» algum sabonete para ir vender por um soldo a algum «barbeiro» dos arrabaldes. Não poucas vezes era um destes sabonetes o seu almoço. Chamava ele a este género de trabalho, para o qual nha particular habilidade, «fazer a barba aos barbeiros».

Ao passo que contemplava a boneca e espreitava ensejo de lançar a mão ao sabonete, resmoneava consigo mesmo: «Terça-feira. Não, não é terça-feira. É terça-feira? Decerto é terça-feira. É, é terça-feira».

Nunca se soube a que aludia semelhante monólogo.

Se acaso ele se referia à úl ma vez que nha jantado, havia, portanto, três dias, pois era sexta naquele dia.

O barbeiro, na sua loja, aquecida por um bom fogão, fazia a barba a um freguês, mas de tempos a tempos lançava um olhar de través àquele inimigo, àquele gaiato descarado, ritando de frio, que nha as mãos nos bolsos, mas o espírito claramente fora da bainha.

Estando Gavroche, pois, examinando a boneca, as vidraças e os Windsor-soaps, dois rapazinhos de estatura desigual, decentemente ves dos e ainda mais baixos «do que ele, um dos quais inculcava ter sete anos, o outro cinco, levantaram timidamente o fecho e entraram na loja, pedindo o que quer que fosse, talvez alguma esmola, num murmúrio de quem se lastima, que mais parecia um gemido do que uma súplica. Falavam ambos ao mesmo tempo e as suas palavras eram ininteligíveis, porque os soluços embargavam a voz do mais novo e o frio fazia ritar os dentes do mais velho. O barbeiro voltou-se com ar furibundo, e, sem pousar a navalha, empurrou o mais velho com a mão esquerda e o mais novo com o joelho, pô-los no meio da rua e fechou a porta, dizendo:

— Ora isto! Fazer com que a gente apanhe ar sem necessidade nenhuma!

As duas crianças con nuaram o seu caminho, chorando. A este tempo nha engrossado a névoa e principiava a chover.

Gavroche deitou a correr atrás deles e disse-lhes, apenas os alcançou:

— Vocês que têm, seus fedelhos?

— Não sabemos onde havemos de ir ficar! — respondeu o mais velho.

— É só por isso? — disse Gavroche. — Então pouco é. Por isso não vale a pena chorar.

Já viram maiores «mimalhos»!

E tomando por entre a sua superioridade um pouco chocarreira, um acento de autoridade enternecida e de meiga protecção, continuou:

— Venham daí comigo!

— Sim, senhor — disse o mais velho.

E os dois rapazinhos começaram a segui-lo, como seguiriam um arcebispo, já sem chorar, acompanhando-o pela rua de Santo António em direcção à Bastilha.

No caminho, Gavroche voltou-se e deitou um olhar indignado e retrospec vo para a loja do barbeiro:

— Não tem coração aquele escanhoador dos quintos! É mesmo um desalmado!

Mestre pescada!

Ao vê-los passar todos três em fileira com Gavroche à frente, uma rapariga desatou a

rir estrondosamente. Estas risadas inculcavam falta de respeito.

— Olé, menina Omnibus! — disse Gavroche.

Um instante depois, acrescentou, ao vir-lhe de novo à lembrança o barbeiro:

— Eu chamei-lhe pescada, enganei-me; é uma serpente! Deixa estar, meu escanhoador, que eu hei-de encomendar uma campainha a um serralheiro para ta pôr no rabo!

O barbeiro tornara o gaiato agressivo. Ao saltar uma enxurrada, disse para uma porteira barbuda e digna de encontrar Fausto no Brocken, a qual estava com a vassoura na mão:

— Então a senhora sai no seu cavalo?

E, ao mesmo tempo que dizia isto, salpicou de lama as botas de verniz de um sujeito que passava.

— Ah, grande maroto! — gritou o sujeito, furioso.

Gavroche deitou o nariz fora do xaile e perguntou:

— De quem se queixa, meu senhor?

— De ti, brejeiro! — exclamou o transeunte.

— Está fechada a repartição — disse Gavroche. Já não recebo queixas!

Ao con nuar a subir a rua, avistou num portal uma mendiga de treze ou catorze anos, ritando e ves da com uma saia tão curta, que quase se lhe viam os joelhos. A rapariguinha principiava a ser demasiado crescida para andar daquela forma. A idade prega destas peças. Torna-se curta a saia, quando a nudez se torna indecente.

— Pobre rapariga! — disse Gavroche. — Nem uma saia, ao menos! Pega lá isto.

E, desenrolando a quente manta de lã que trazia, deitou-a sobre os magros e roxos ombros da mendiga, nos quais o cache-nez se tornou xaile.

A rapariga olhou para ele com ar de admiração e recebeu o xaile em silêncio. Chegado a certo grau de miséria, o pobre, no seu pasmo estúpido, nem geme com o mal nem agradece o bem.

Feito isto:

— Brrr! — fez Gavroche, ritando mais do que S. Mar nho, porque esse, ao menos, ficou com metade da sua capa.

Neste momento principiou a cair chuva ainda com mais força, como se as nuvens quisessem punir a boa acção do gaiato.

— Olé, olé, isto que vem a ser! — exclamou Gavroche.

— A coisa vai a mais? Pois se isto assim con nua, senhor meu Deus, largo a minha assinatura!

E continuou o seu caminho.

— É o mesmo — tornou ele, deitando um olhar de relance para a mendiga, que se embrulhava cuidadosamente no seu xaile — ali está uma que tem uma famosa casca!

E gritou, fitando a névoa:

— Pára lá isso!

Os dois rapazinhos, para o acompanhar, aligeiravam o passo o mais que podiam.

Ao passar por um desses espessos gradeados que indicam uma padaria, porque o pão

é defendido por grades de ferro como o oiro, Gavroche voltou-se e disse para os pequenos:

— É verdade, ó pequerruchos, vocês jantaram?

— Não, senhor — respondeu o mais velho — nós desde pela manhã que não comemos!

— Então vocês não têm pai nem mãe? — tornou Gavroche majestosamente.

— Perdão, nós temos papá e mamã, mas não sabemos onde eles estão.

— Às vezes vale mais isso do que sabê-lo! — disse Gavroche, que nha seu tanto ou quanto de filósofo.

— Há duas horas que andamos perdidos — con nuou o mais velho — e, por mais que tenhamos procurado pelo chão, a ver se achávamos alguma coisa, não temos achado nada!

— Eu bem sei porquê — disse Gavroche. — É porque os cães comem tudo!

E, após uma pausa, continuou:

— De modo que vocês perderam-se e não sabem o que é feito dos paizinhos. Não lhes devia acontecer isso, porque vocês já não estão nessa idade. Mas, enfim, o remédio agora é gemê-lo e tratar de arranjar abrigo.

Quanto ao mais, não lhes fez perguntas. Não ter domicílio era a coisa mais natural do mundo.

Decorridos alguns instantes, o mais velho dos pequenos exclamou, voltando quase inteiramente à pronta negligência da infância:

— Que pena! Logo nesta ocasião que a mamã nos nha prome do levar-nos domingo de Ramos à igreja para trazermos buxo bento!

— Ora vejam que desgraça!

— A mamã tornou o mais velho é uma senhora que mora com Mademoiselle Miss.

— Sim? Pois fiquemos nisso — replicou Gavroche.

A este tempo nha o gaiato parado, e havia alguns minutos apalpava e revistava todos os esconderijos do seu maltrapilho vestuário. Por fim, levantou a cabeça com um modo que queria tornar apenas satisfeito, mas, na realidade, triunfante:

— Caluda, seus pequerruchos! Já temos com que cear todos três.

E tirou um soldo de um dos bolsos.

Sem lhes dar tempo de se espantarem, empurrou-os para dentro da loja do padeiro e deitou o soldo para cima do balcão, gritando:

— Rapaz, cinco cêntimos de pão!

O padeiro, que era o próprio dono da padaria, pegou num pão e numa faca e dispôs-se a parti-lo.

— Em três bocados, rapaz! -tornou Gavroche, e acrescentou com dignidade: — Somos três!

E, vendo que o padeiro, depois de examinar os três convivas, pegara num pão negro, meteu o dedo no nariz, com tão imperiosa aspiração como se sorvesse a pitada do grande Frederico, e atirou ao rosto do padeiro esta indigna apóstrofe:

— Que diabo é isso?

— Ora, que há-de ser! — respondeu o padeiro. — É pão, óp mo pão de segunda qualidade.

— Tem tanto de bom como eu de inglês! — replicou Gavroche, serena e friamente desdenhoso. — Pão branco é que eu quero, rapaz! Dou hoje um banquete!

O padeiro não pôde ter-se que não sorrisse, e, ao mesmo tempo que par a o pão, contemplava-os com um ar de compaixão, que ofendeu a susceptibilidade de Gavroche.

— Olá, ó seu padeiro — disse ele — que diabo está você aí a olhar para nós com essa cara?

Todos três, postos em linha, apenas mediriam uma toesa.

Partido o pão, o padeiro guardou o soldo e Gavroche disse para os companheiros:

— Vamos a suquir!

Os rapazinhos olharam para ele estupefactos.

Gavroche pôs-se a rir e acrescentou:

— Ah, é verdade, são muito pequenos, ainda não sabem nada!

E tornou:

— Toca a comer!

Ao mesmo tempo dava a cada um deles um bocado de pão.

E, lembrando-se que o mais velho, que lhe parecia mais digno da sua conversa, merecia alguma animação especial e devia ser desembaraçado de qualquer hesitação em satisfazer o seu apetite, acrescentou, dando-lhe o bocado maior:

— Anda, ferra-me com isso no fole da gaita

Em seguida pegou no bocado mais pequeno e guardou-o para si. Todos eles, sem exceptuar o próprio Gavroche, estavam com fome. Em lugar de sair, puseram-se a comer sofregamente o pão, mesmo dentro da loja do padeiro, que, como já tinha recebido o dinheiro, os olhava com má cara.

— Vamos para a rua — disse Gavroche.

Saíram e continuaram o seu caminho em direcção à Bastilha.

De espaço a espaço, ao passarem por alguma loja iluminada, o mais pequeno parava para ver as horas num relógio de chumbo que trazia preso ao pescoço por um cordão.

— Sempre é ser muito palerma! — dizia Gavroche, ao vê-lo naquelas averiguações.

Depois dizia por entre dentes com ar pensativo:

— Eu cá, se vesse crianças, sempre as havia de trazer mais bem arranjadas do que estas.

Ao comerem o úl mo bocado das suas respec vas rações e ao chegarem à esquina, dessa extensa rua dos Baileis, ao cabo da qual se dis ngue o estreito e ominoso pos go da Force, disse uma voz:

— Olá! És tu, Gavroche?

— Olha o Montparnasse?! — exclamou o gaiato.

Um homem acabava de se aproximar de Gavroche e este homem era Montparnasse, que, disfarçado com óculos azuis, não deixou de ser reconhecido pelo gaiato.

— Irra! — prosseguiu Gavroche. — Tens uma pele cor de cataplasma de linhaça e uns óculos azuis que nem um médico! Tens estilo, palavra de velho!

— Fala devagar — disse Montparnasse.

E afastou-se rapidamente com Gavroche para fora da esfera de luz proveniente das lojas.

Os dois pequenos seguiram-nos maquinalmente pela mão um do outro. Chegados a um lugar menos frequentado, meteram-se num portal, ao abrigo das vistas curiosas e da chuva e Montparnasse perguntou:

— Sabes onde vou?

— À abadia de Mont-à-Regret (Ao cadafalso) — disse Gavroche.

— Trocista!

E Mont-Parnasse prosseguiu:

— Vou falar com o Babei.

— Ah! — disse Gavroche. — Ela chama-se Babet?

— Não é ela, é ele.

— Ah! O Babet.

— Sim, o Babet,

— Julgava-o «estardado» (Preso).

— Esteve, mas safou-se — respondeu Montparnasse.

E contou rapidamente ao gaiato como na manhã daquele mesmo dia, tendo sido Babet transferido para o Conciergerie, se evadira, tomando para a esquerda em vez de tomar para a direita no «corredor da instrução».

Gavroche admirou a habilidade.

— Que dentista! — exclamou ele.

Montparnasse acrescentou alguns pormenores sobre a evasão de Babet e terminou, dizendo:

— Mas ainda não é tudo.

Gavroche, enquanto escutava, apoderara-se de uma bengala que Mont-Parnasse nha na mão; puxara-lha maquinalmente pela parte superior e logo aparecera a folha de um punhal.

— Oh, c’os diabos! — disse ele, escondendo apressadamente o punhal. — Trouxeste o teu gendarme disfarçado em, burguês?

Montparnasse piscou um olho.

— Mas então vais riscar com os guitas? 17

— Quem sabe lá? — respondeu Montparnasse. — Sempre é bom ter a gente um alfinete consigo.

Gavroche insistiu:

— O que vais tu fazer esta noite?

Montparnasse tomou novamente a corda grave e disse, mastigando as sílabas:

— Algumas coisas.

E mudando rapidamente de assunto:

— A propósito...

— O quê!

— Uma história dum dia destes. Ora imagina. Encontrei um burguês que me fez

presente dum sermão e da sua bolsa. Me tudo na algibeira e daí a bocado não encontrei nada.

— Achaste só o sermão — disse Gavroche.

— Mas tu onde vais agora? — prosseguiu Montparnasse.

Gavroche indicou-lhe os seus dois protegidos, dizendo-lhe:

— Vou deitar estas crianças.

— Deitá-las onde?

— Em minha casa.

— Onde é a tua casa?

— É em minha casa.

— Tu moras nalguma parte?

— Sim, moro.

— Mas onde moras?

— No elefante — disse Gavroche.

Montparnasse conquanto de natureza pouco suscep vel de se admirar, não pôde conter uma exclamação.

— No elefante?!

— Sim, no elefante, que diabo de admiração há nisso?

A profunda observação do gaiato res tuiu Montparnasse à sua primi va serenidade e bom senso, e não só isto, mas até parece que o bandido ficou tendo em melhor conta o alojamento de Gavroche.

— Ai, sim, o elefante; e que tal?

— Óp mo — disse Gavroche. — É um paraíso! Ao menos, não encana o vento como pelos arcos das pontes.

— E como diabo entras?

— Perfeitamente.

— Então por algum buraco? — perguntou Montparnasse.

— Vá lá com a breca, mas nada de dar com a língua nos dentes... Entro por um buraco que ele tem entre as pernas dianteiras, de que

os «cabritos»18 ainda não deram fé.

— E depois trepas? Já entendo.

— Aquilo é um abrir e fechar de olhos, e agarrem-me nas batas!

E, após uma pausa, Gavroche acrescentou:

— Mas cá para os pequenos hei-de arranjar-lhes uma escada.

— Onde diabo foste tu descor nar esta ganilhada? — perguntou Montparnasse, soltando uma risada.

— Estes pe zes fez-me presente deles um barbeiro — respondeu Gavroche com simplicidade.

Montparnasse, porém, tornara-se pensativo.

— Diabo! — murmurou ele. — Conheceste-me logo!

E, apenas dissera isto, rou do bolso dois objectos, que eram simplesmente dois canudos de pena embrulhados em algodão, e introduziu um de cada lado do nariz, o que lho mudava completamente.

— Agora, sim, ninguém te conhece! — atalhou Gavroche.

— Já não pareces tão feio. Para bem, havias de andar sempre assim!

Montparnasse tinha bonita figura, porém, Gavroche tornara-se escarnecedor.

— Agora sério — perguntou Montparnasse — fala a verdade: que tal te pareço?

E, ao dizer isto, o som de voz do bandido era inteiramente diferente. Montparnasse, num abrir e fechar de olhos, transformara-se completamente.

— Estás mesmo um Polichinelo! — exclamou Gavroche.

A este nome, os dois pequenos, que até então nada

nham escutado, tão

embevecidos estavam a esgaravatar no nariz, aproximaram-se e puseram-se a olhar para Montparnasse entre alegres e admirados.

Por desgraça, Montparnasse parecia ter coisa que o afligia.

Decorrido um instante, pôs a mão no ombro de Gavroche e disse-lhe, acentuando intencionalmente cada palavra:

— Ora olha o que eu digo, meu digno rapaz; se eu es vesse na praça com o meu dogue, a minha dengue e a minha adaga e te dignasses dizer—me: «Diga, diga», eu indignava-me e só responderia: «Não te digo nada».

Esta frase extravagante produziu um singular efeito no gaiato. Voltou-se este rapidamente, circunvagou os olhos em torno de si, e, ao avistar a poucos passos de distância um agente de polícia, que estava de costas voltadas, deixou escapar um: «Ah, já entendo!», que imediatamente reprimiu. Depois exclamou, apertando a mão a Montparnasse:

— Bem, adeus; recolho-me ao elefante com os pe zes. No caso de teres necessidade de mim alguma noite, procura-me lá, que me hás-de encontrar. Moro no sótão. Porteiro é coisa que lá não há. Se fores, pergunta pelo senhor Gavroche.

— Está bem — disse Montparnasse.

E, após isto, separaram-se, dirigindo-se Montparnasse para a Greve e Gavroche para a Bas lha. Mais de uma vez, o pequeno mais novo, que ia pela mão do mais velho, o qual também ia a reboque de Gavroche, voltou a cabeça para trás, para ver afastar-se

«Polichinelo».

A frase anfigúrica pela qual Montparnasse adver ra Gavroche da presença do agente não encerrava outro talismã além da consonância dig cinco ou seis vezes repe da sob formas variadas. Esta sílaba dig, não pronunciada isoladamente, mas ar s camente combinada com as palavras de uma frase, quer dizer: «Sen do, que não se pode falar livremente». Além disto, havia na frase de Montparnasse uma beleza literária, que escapou a Gavroche: era meu dogue, minha dengue, e minha adaga, locução da gíria do Templo, que significa meu cão, minha mulher e minha navalha, locução muito vulgar entre os caudas vermelhas do grande século em que Molière escrevia e Callot desenhava.

Há vinte anos, via-se ainda no ângulo sudeste da praça da Bas lha, próximo à estação do Canal, cavada no an go fosso da prisão-cidadela, um extravagante monumento, hoje inteiramente esquecido dos parisienses, conquanto tal esquecimento seja imerecido, por ser aquele monumento uma recordação do «membro do Ins tuto, general-em-chefe do

exército do Egipto».

Chamamos-lhe monumento, conquanto não fosse mais do que um esboço. Mas este mesmo esboço prodigioso, cadáver grandioso de uma ideia de Napoleão, que duas ou três rajadas de vento sucessivas nham arrebatado e lançado de cada vez para mais longe de nós, tornara-se histórico e assumira não sei que de defini vo, que contrastava com o seu aspecto provisório. Era um elefante de quarenta pés de alto, construído de madeira e de alvenaria, sustentando sobre o lombo a sua torre, que se assemelhava a um prédio, outrora pintado de verde por um pintor qualquer, e depois de preto pelo céu, pela chuva e pelo tempo. Naquele ângulo deserto e descoberto da praça, a longa fronte do colosso, a tromba, os dentes, a torre, a enorme garupa, os quatro pés, semelhantes a colunas, projectavam de noite, no céu estrelado, uma sombra surpreendente e terrível. Não se sabia o que aquilo queria dizer: era uma espécie de símbolo da força popular. Era sombrio, enigmá co e imenso. Era não sei que poderoso fantasma visível, de pés ao lado do espectro invisível da Bastilha.

Poucos estrangeiros visitavam aquele edi cio, e nem um só transeunte olhava para ele. Ia-se arruinando; as porções de caliça que o mau tempo em todos os anos lhe arrancava, deixavam-lhe umas como hediondas chagas. «Os edis» como se diz no dialecto elegante, nham-se esquecido dele desde 1814. Estava ali no seu canto, triste, doente, prestes a desabar, rodeado de um tapume apodrecido, manchado a todos os instantes pelos cocheiros embriagados; nha o ventre cheio de fendas; do rabo saía-lhe um barrote, a erva crescia-lhe em torno das pernas; e como o nível da praça se elevava à roda dele, havia trinta anos, pelo movimento vagaroso e con nuo que ergue insensivelmente o solo das grandes cidades, estava numa cova e parecia que a terra ia abatendo debaixo dele. Estava imundo, desprezado, repugnante e soberbo, feio aos olhos dos burgueses, melancólico aos olhos do pensador. Tinha o que quer que era de uma imundície que se vai varrer e de uma majestade que vai ser decapitada.

Como temos dito, à noite mudava de aspecto. A noite é o verdadeiro meio de tudo o que é a sombra. Desde que anoitecia, transfigurava-se o elefante; assumia um todo tranquilo e temível na formidável serenidade das trevas. Pertencendo ao passado, pertencia à noite; a escuridão harmonizava-se com a sua grandeza.

Este monumento rude, membrudo, pesado, áspero, austero, quase disforme, mas inques onavelmente majestoso e impregnado de uma espécie de gravidade magnífica e selvá ca, desapareceu, para deixar reinar em paz a espécie de fogão gigante, ornado com o seu tubo, que substituiu a sombria fortaleza de nove torres, pouco mais ou menos como a burguesia subs tui o feudalismo. É uma coisa simples que um fogão simbolize uma época, cujo poder é con do numa panela. Esta época há-de passar, vai passando já; começa-se a compreender, que se pode haver força numa caldeira, só num cérebro pode haver poder; noutros termos: o que leva e conduz o mundo, não são as locomo vas, são as ideias.

Tomai as ideias pelas locomotivas, mas não tomeis o cavalo pelo cavaleiro.

Seja como for e para voltarmos à praça da Bas lha, o arquitecto do elefante conseguira fazer com pedra e cal, uma coisa grande; o arquitecto da chaminé de fogão,

conseguira com bronze fazer uma coisa pequena.

A chaminé do fogão que foi bap zada com um nome sonoro e denominada Coluna de Julho, aquele monumento falido de uma revolução abortada, estava ainda em 1832

envolvido numa imensa camisa de madeira, de que pela nossa parte temos pena, e de uma vasta paliçada feita de tábuas, que acabava de isolar o elefante.

Foi para este canto da praça, apenas alumiado pelo reflexo de um lampião distante, que o gaiato conduziu os dois pequenos.

Seja-nos aqui permi da uma interrupção, para recordarmos que estamos em simples realidade, e que há vinte anos veram os tribunais correccionais de julgar por vadiagem e deterioração de um monumento público, um rapaz que fora surpreendido deitado no interior do elefante da Bastilha.

Registado este facto, continuemos.

Chegando Gavroche junto do colosso, compreendeu o efeito que o infinitamente grande pode produzir sobre o infinitamente pequeno e disse:

— Nada de ter medo.

Depois entrou por uma abertura do tapume ao recinto do elefante e ajudou os pequenos a penetrar na brecha. As duas crianças, um tanto assustadas, seguiam Gavroche sem dizer palavra, e confiavam-se àquela Providência coberta de farrapos, que lhes dera pão e que lhes prometera um abrigo.

Havia ali, deitada ao longo do tapume, uma escada de mão, que servia durante o dia aos operários de uma obra próxima. Gavroche ergueu-a com singular vigor e aplicou-a a uma das mãos do elefante. No ponto em que a estacada ia terminar descobria-se uma espécie de buraco negro no ventre do colosso

Gavroche mostrou a escada e o buraco negro aos seus hóspedes e disse-lhes:

— Subam e entrem.

Os dois pequenos olharam um para o outro aterrados.

— Vocês têm medo! — exclamou Gavroche.

E acrescentou:

— Ora vejam!

E num abrir e fechar de olhos, abraçando-se ao pé rugoso do elefante, sem se dignar servir da escada, chegou ao buraco. Meteu-se por ele como uma cobra, desapareceu e, passado um momento, os dois pequenos viram aparecer vagamente, como uma forma esbranquiçada e lívida, o rosto pálido de Gavroche à beira do buraco cheio de trevas.

— Então — gritou ele — subam! Verão como se está bem aqui! Anda, tu! — disse ao mais velho. — Segura-te à minha mão.

Os pequenos empurraram-se um ao outro com o ombro; o gaiato me a-lhes medo e tranquilizava-os ao mesmo tempo; e depois a chuva caía em torrentes. O mais velho arriscou-se. O mais pequeno, vendo subir o irmão, e achando-se só entre as quatro patas daquele enorme bicho, tinha bastante desejo de chorar, mas não se atrevia.

O mais velho ia subindo, a cambalear, os degraus da escada; Gavroche ao mesmo tempo animara-o com exclamações de mestre de armas a seus discípulos, ou de arrieiro às suas mulas:

— Não tenhas medo!

-Assim!

— Vá para diante!

— Põe o pé ali!

— Põe a mão acolá!

— Vá, vá!

E, apenas lhe chegou com a mão, segurou-o de repente com força por um braço e puxou-o para si.

— Pronto! — disse ele.

O pequeno tinha entrado para o buraco.

— Agora — disse Gavroche — espera aqui. Queira dar-se ao incómodo de se sentar.

E saindo do buraco pelo mesmo modo porque entrara, deixou-se escorregar com a agilidade de um acrobata pela perna do elefante, caiu em pé na erva, pegou no pequeno de cinco anos, pô-lo no meio da escada e começou a subir atrás dele, gritando ao mais velho:

— Eu empurro-o e tu puxa-o para ti.

Num momento subiu o pequeno, sendo impelido, puxado, arrastado e encafuado no buraco, antes que vesse tempo de se reconhecer; e Gavroche entrando atrás dele, empurrou com o pé a escada, que logo caiu em baixo e começou batendo as palmas, gritando ao mesmo tempo:

— Já cá estamos! Viva o general Lafayette!

Passada esta explosão, acrescentou:

— Olá, petizada! Estão em minha casa!

Gavroche estava, com efeito, em sua casa.

Ó u lidade inesperada do que é inú l, caridade das grandes coisas, bondade dos gigantes! Aquele monumento descomunal, que con vera um pensamento do imperador, tornara-se boceta dum gaiato. A criança fora aceita e abrigada pelo colosso. Os burgueses, que com os seus fatos domingueiros passavam pela frente do elefante da Bas lha, diziam ordinariamente, olhando para ele com ar de desprezo e fitando-o com os seus grandes olhos à flor do rosto:

— Para que serve aquilo?

Aquilo servia para salvar do frio, da geada, da neve e da chuva, para abrigar do vento do Inverno, para livrar do sono na lama que produz a febre e do sono sobre a neve que produz a morte um entezinho sem pai, sem mãe, sem pão, sem asilo. Aquilo servia para recolher o inocente que a sociedade repelia. Aquilo servia para atenuar a falta pública.

Era uma toca aberta àquele para quem se fechavam todas as portas. Parecia que o velho mastodonte miserável, invadido pelos vermes e pelo esquecimento, coberto de verrugas, de bolor e de úlceras, cambaleante, carunchoso, abandonado, condenado, espécie de mendigo colossal, pedindo em vão a esmola de uma vista benévola no meio da encruzilhada, vera dó, ele, daquele outro mendigo, do pobre pigmeu que caminhava sem sapatos nos pés, sem tecto por sobre a cabeça, soprando os dedos enregelados, ves do de farrapos e alimentado do que se deita fora. Eis para que servia o elefante da

Bas lha. Aquela ideia de Napoleão, desdenhada pelos homens, fora adoptada por Deus O imperador, para realizar o que meditava, precisaria de pórfiro, de bronze, de ferro, de ouro, de mármore, a Deus bastara aquele velho montão de tábuas, de barrotes e de alvenaria. O que só era ilustre, tornara-se augusto. O imperador vera um sonho de génio; naquele elefante tânico, armado, prodigioso, erguendo a tromba, sustentando a sua torre e fazendo brotar de todos os lados, em torno de si, alegres e vivificantes águas, queria encarnar o povo. Deus tornara-o uma coisa maior; alojara nele uma criança.

O buraco por onde Gavroche entrara era uma brecha, que mal se via da parte de fora, oculta como estava, já o dissemos, sob o ventre do elefante, e tão estreita que só gatos e crianças poderiam caber por ela.

— Comecemos por dizer ao porteiro que não estamos cá — observou Gavroche E penetrando na escuridão como quem conhece os cantos à casa, pegou numa tábua e tapou com ela o buraco.

Depois disto, Gavroche tornou a mergulhar na escuridão. Os pequenos ouviram a fungadela do fósforo me do na garrafa fosfórica O fósforo químico não exis a ainda; o fuzil Fumado representava naquela época o progresso.

A claridade súbita fez-lhes piscar os olhos. Gavroche acabava de acender uma torcida embebida em resina, das que se chamam rolos. O rolo, que produzia mais fumo que luz, só muito confusamente deixava ver o interior do elefante.

Os dois hóspedes de Gavroche olharam à roda de si e sen ram alguma coisa semelhante ao que sen ria o indivíduo que fosse encerrado no grande tonel de Heidelberg, ou melhor ainda, o que sen u Jonas no ventre bíblico da baleia. Viam-se rodeados e envolvidos de todos os lados por um esqueleto gigante. Na parte superior, uma comprida viga parda, donde par am de distância em distância outras peças arqueadas, figurava a coluna vertebral com as costelas; dali pendiam, quais vísceras, estalac tes de gesso; e de uma ou outra costela vastas teias de aranha formavam empoeirados diafragmas. Por um e outro lado, aos cantos, viam-se grandes manchas negras, que pareciam vivas e que mudavam rapidamente de lugar, com um movimento súbito e assustado.

Os fragmentos caídos do lombo do elefante sobre o ventre, nham-lhe enchido a concavidade, de modo que se podia ali andar como num sobrado.

O mais pequeno chegou-se muito para o irmão e disse-lhe a meia voz:

— É tão escuro!

Estas palavras provocaram uma exclamação de Gavroche.

O ar petrificado dos dois pequenos tornava necessário um repelão.

— O que estão vocês para aí a grunhir? Façam-se agora finos! Queriam talvez umas Tulherias? Vocês são brutos? Se o são, digam-mo! Eu cá aviso-os de que não sou do regimento dos bananas!

No meio do espanto não deixa de ser proveitoso um pouco de arrebatamento. É uma coisa que tranquiliza. Os dois pequenos aproximaram-se mais de Gavroche.

Este, paternalmente enternecido, passou do «grave ao doce» e dirigindo-se ao mais pequeno disse, acentuando a injúria com um certo cambiante acariciador:

— Meu palerma , lá fora é que é escuro. Da banda de fora é que chove, aqui não chove; da banda de fora é que faz frio, aqui não há nem uma migalha de vento; da banda de fora é que há montões de gente, e aqui só estamos nós; lá fora nem ao menos há luar, e aqui há a minha luz, com seiscentas pipas!

Após esta cena, os dois pequenos principiaram a olhar o aposento com menos temor, porém, Gavroche não lhes deu tempo para os vagares da contemplação e acrescentou quase imediatamente:

— Vamos e muito ligeiros!

E empurrou-os para o que, com demasiada liberdade talvez, apelidaremos o fundo da sala, onde ficava a cama do gaiato.

O leito de Gavroche era completo. Isto é, constava de um enxergão e de um cobertor no meio de uma alcova com cortinado.

O enxergão era uma esteira bastante grossa, o cobertor uma pesada manta de lã escura, muito quente e quase nova Quanto à alcova, eis no que ela consistia: Três compridas estacas enterradas com segurança na caliça que formava o pavimento, isto é, na barriga do elefante, duas adiante e uma atrás, reunidas na extremidade por meio de uma corda, de maneira a formar um feixe piramidal Assentava nesta armação uma rede de arame, simplesmente posta por cima, porém ar s camente aplicada e segura por ganchos também de arame, de modo que cobria inteiramente as três estacas.

Acabava de a segurar na parte inferior uma fiada de pedras volumosas, que não deixavam passar nada por baixo. Esta rede não era mais do que o fragmento de uma dessas grades de metal que costumam tapar a parte dianteira dos viveiros Deste modo, pois, a cama de Gavroche, rodeada pela grade, ficava como que dentro de uma gaiola, assemelhando-se todo aquele aparelho a uma tenda de esquimó.

O cortinado, portanto era a rede de que acabamos de falar Gavroche afastou as pedras que seguravam a grade por baixo, na parte dianteira, e os dois panos de arame, que fechavam um sobre o outro, imediatamente se abriram.

— Vamos, meus amiguinhos, mãos no chão e toca a entrar!

Ajudou-os a entrar com cautela na gaiola e em seguida entrou ele também, de rastos, achegou as pedras e fechou hermeticamente a abertura.

Um instante depois, jaziam todos três deitados sobre a esteira, pois apesar de pequenos, nenhum deles se poderia pôr de pé dentro da alcova.

— Agora toca a ferrar o luzio, que eu vou suprimir o candelabro! — disse Gavroche, que ainda conservava na mão o rolo aceso.

— Para que é aquilo? — perguntou o mais velho dos dois irmãos a Gavroche, apontando para a grade.

— Isto — disse Gavroche gravemente — é para não deixar entrar as ratazanas! Mas toca a ferrar o luzio.

Como, porém, se julgasse obrigado a acrescentar algumas palavras para instrução das duas crianças, continuou:

— Isto foi uma herança que me veio do Jardim das Plantas e estava lá a tapar as gaiolas dos animais ferozes. Há lá um armazém atacado disto. Basta saltar uma parede,

trepar a uma janela, passar por baixo de uma porta e têm-se quantas se queiram!

Ao mesmo tempo que o gaiato falava, embrulhava com uma ponta da manta o mais pequeno, que murmurou:

— É tão bom, tão quentinho!

Gavroche deitou um olhar de satisfação para o cobertor e prosseguiu:

— Isto também é um traste que eu herdei do Jardim das Plantas. Tirei-o aos macacos!

E mostrando ao mais velho a esteira em que estavam deitados, esteira muito espessa e admiravelmente tecida, acrescentou:

— Isto era da girafa.

Depois de uma pausa, prosseguiu:

— Os animais nham tudo isto. Tirei-lhes o que precisava, mas eles não se zangaram.

Disse-lhes que era para o elefante.

Tornou a calar-se por um momento e depois continuou:

— Salta-se por cima dos muros e ri-se a gente do governo. Não tem mais nada.

As duas crianças contemplavam com um respeito temeroso e estupefacto aquele ente intrépido e inventivo, vagabundo, isolado, raquítico como eles, que tinha o que quer que era de admirável e de omnipotente, que lhes parecia sobrenatural e cuja fisionomia se compunha de todas as caretas de um velho sal mbanco aliadas ao mais ingénuo e encantador sorriso.

— O senhor então não tem medo dos soldados? — perguntou midamente o mais velho.

Gavroche limitou-se a responder:

— Não se chamam soldados, chamam-se guitas.

Quanto ao mais novo, nha os olhos desmesuradamente abertos, mas não proferia uma só palavra. Como era ele o que ficava na borda e o mais velho no meio, Gavroche meteu-lhe o cobertor por baixo do corpo, como o teria feito uma mãe, e levantou a esteira, metendo-lhe por baixo uns poucos de farrapos, de modo a formar um travesseiro. Depois voltou-se para o mais velho e exclamou:

— Heim!? Não se está aqui magnificamente?

— É verdade — respondeu o mais velho, contemplando Gavroche com uma expressão de anjo salvo.

Os dois pobres pequenos, que ritavam com a humidade que lhes trespassava a roupa, principiavam a aquecer.

— Mas porque diabo choravam vocês há bocado?

E indicando o pequeno mais novo ao irmão, continuou:

— Um pe z como esse, não digo que não, mas já taludo como tu, é que não tem jeito; fica assim com ar de bezerro.

— Ora! disse o pequeno. — Pois nós não sabíamos onde havíamos de ir ficar, não tínhamos casa!

— Pacóvio! — replicou Gavroche. — Não se diz casa, diz-se «cote».

— E depois tínhamos medo de andar assim sozinhos de noite.

— Não se diz noite, diz-se «choina».

— Muito obrigado, senhor — retorquiu o pequeno.

— Escuta — tornou Gavroche — é preciso não tornar a chiar por coisa nenhuma. Eu tratarei de vocês. Verão como a gente se diverte. No Verão iremos à Glacière com o Navelt, que é um camarada que eu tenho, tomaremos banhos na gare e correremos nus em pêlo, por diante da ponte de Austerlitz: é uma coisa que faz danar as lavadeiras.

Gritam e fazem uma tal chiada! Verão como são reinadias! Iremos ver o homem esqueleto, mas que está vivo, nos Campos Elíseos; é magro como um bacalhau o tal freguês. E depois levá-los-ei ao teatro. Hei-de levá-los a ver Frederico Lemaire. Tenho bilhetes, conheço actores, e até já uma vez representei numa peça. Éramos todos assim pe zes, corríamos por baixo de um pano a fingir o mar. Deixem estar que hei-de fazer com, que sejam ajustados ao meu teatro. Iremos ver os selvagens. Mas não são selvagens verdadeiros. Têm fatos de meia cor-de-rosa, que fazem pregas, e os cotovelos cheios de passagens, feitas com linha branca Depois iremos à Ópera. Entraremos com os claqueurs. A claque da Ópera é composta por muito boa gente. Ao boulevard é que eu não vou com a claque. Na Ópera, imagina tu, há-os até de vinte soldos, mas são uns toleirões. Chamam-lhes esfregões. Iremos também ver guilho nar. Mostrar-lhes-ei o carrasco. Mora na rua do Marais; é o senhor Sansão, que tem à porta uma caixa para receber cartas. Verás, há-de a gente divertir-se a cair.

Neste momento, um pingo de cera caiu num dedo de Gavroche e chamou-o às realidades da vida.

— Diabo! — disse ele. — Lá se gasta o rolo todo. Atenção! Eu não posso gastar mais que um soldo cada mês com a iluminação. Quando a gente se deita é para dormir. Não temos tempo para ler os romances do senhor Paulo de Kock. E o pior é que a luz pode passar pelas frestas, e então os guitas só precisarão de ter olhos.

— E depois — observou midamente o mais velho, que era o que ousava conversar com Gavroche — pode cair algum morrão na palha, e é preciso tomar cuidado em não queimar a casa.

— Não se diz queimar a casa — observou Gavroche — diz-se frigir as pulgas.

A tempestade redobrava de fúria. Através dos ribombos do trovão ouvia-se o fragor da chuva, batendo no costado do colosso.

— É chuva até mais não — disse Gavroche. — Gosto de ouvir despejar a garrafa pelas pernas do prédio. O Inverno é um parvalhão, perde a fazenda e o trabalho e não é capaz de nos molhar; por isso é que está tão resmungão o tal velho aguadeiro.

Esta alusão ao trovão, do qual Gavroche, na sua qualidade de filósofo do século XIX

aceitava todas as consequências, foi seguido de um grande relâmpago, tão intenso que o seu clarão chegou a penetrar pelo buraco do ventre do elefante. Quase ao mesmo tempo ribombou o trovão, e muito furiosamente. Os dois pequenos soltaram um grito e levantaram-se com tanta vivacidade, que quase iam deslocando a grade; mas Gavroche voltou para eles o rosto atrevido e aproveitou o estampido do trovão para soltar uma gargalhada.

— Sosseguem, rapazes. Nada de remexer o edi cio. Bons trovões. Não é só a pieguice do relâmpago. Bravo, senhor Deus! São quase tão bem feitos como no Ambigu!

Dito isto, restabeleceu a ordem na grade, empurrou brandamente os dois pequenos para a cabeceira da cama, juntou-lhe os joelhos para os estender bem ao comprido e exclamou:

— Uma vez que Deus acende a sua vela, posso eu apagar a minha. Rapazes, é preciso dormir; é muito mau não dormir; faz mal à tosse. Tratem de se enroscar bem na pele!

Vou apagar o lampião. Estão prontos?

— Estamos — murmurou o mais velho —, já estou bem. Parece que tenho um travesseiro de penas debaixo da cabeça.

— Não se diz a cabeça — observou Gavroche — diz-se a tola.

Os dois pequenos chegaram-se muito um para o outro.

Gavroche acabou de os aconchegar na esteira, puxando-lhes a manta até as orelhas, depois repetiu pela terceira vez a recomendação, em língua hierática:

— Toca a sornar!

E apagou o rolo.

Apenas se apagou a luz, um singular estremecimento começou a abalar a grade, sobre a qual estavam deitadas as três crianças.

Era uma mul dão de fricções surdas que produziam um som metálico, como o raspar de dentes ou de unhas no arame da rede; e isto acompanhado por uma grande série de guinchos agudos.

O pequeno de cinco anos, ouvindo aquele mo m por cima da cabeça e sen ndo-se gelado pelo medo, tocou com o cotovelo em seu irmão mais velho, mas este sornava já, como Gavroche lhe recomendara Então o pequeno, não podendo conter-se com o medo, atreveu-se a chamar Gavroche, mas muito devagarinho, e contendo a respiração:

— Que é? — disse Gavroche, que acabava de fechar os olhos.

— O que é que faz esta bulha?

— São os ratos — respondeu Gavroche.

E tornou a deitar a cabeça na esteira.

Os ratos, com efeito, que pululavam dentro do elefante e que eram aquelas manchas negras e vivas de que há pouco falámos, nham sido con dos em respeito pela chama do rolo enquanto ela brilhara; mas desde que aquela caverna, que era como a cidade deles, tornara a ficar em escuridão, sen ndo ali o cheiro que o excelente narrador Perrault chama de «carne fresca», nham acome do em turba a tenda de Gavroche, nham-lhe trepado até ao cimo e mordiam-lhe nas malhas de arame, como se diligenciassem destruir a barreira que se lhes opunha.

O pequeno entretanto não dormia.

— O senhor ouve? — tornou ele.

— Que é? — disse Gavroche.

— O que é que são ratos?

— São ratos.

Esta explicação parece que tranquilizou em parte a amedrontada criança. Já uma ocasião tinha visto ratos brancos e não tivera medo. Contudo elevou novamente a voz:

— O senhor ouve?

— O que é? — tornou Gavroche.

— Porque não tem o senhor um gato?

— Já tive um — respondeu Gavroche — mas eles comeram-no.

A segunda explicação desfez a obra da primeira e o pequenito recomeçou a tremer.

O diálogo entre ele e Gavroche ligou-se pela quarta vez.

— O senhor ouve?

— Que é?

— Mas quem é que foi comido?

— O gato.

— Mas que foi que comeu o gato?

— Os ratos.

— Os ratos?

— Sim, os ratos.

O pequenito consternado por causa daqueles ratos que comiam gatos, prosseguiu:

— Os ratos comerão também a gente?

— Capazes disso são eles.

O terror do pequeno chegara ao seu auge. Gavroche acrescentou:

— Não tenhas medo, que não podem entrar. E depois estou eu aqui. Olha, toma a minha mão. Cala-te e trata de sornar!

Gavroche pegou ao mesmo tempo na mão do pequenito por cima de seu irmão. A criança apertou muito aquela mão contra si e sen u-se mais sossegado. O ânimo e a força têm destas comunicações misteriosas. O silêncio restabelecera-se em torno deles, o ruído das vozes espantara e afastara os ratos; passados alguns minutos fizeram bem em dar novo ataque: os três rapazes, já adormecidos, não ouviram nada.

As horas da noite passaram. As sombras cobriam a imensa praça da Bas lha, um vento de Inverno que acompanhava a chuva, soprava em rajadas, as patrulhas olhavam para as portas, para as áleas, para os tapumes, para os cantos mais escuros, e, procurando vagabundos nocturnos, passavam silenciosamente por diante do elefante; o monstro, em pé, imóvel, com os olhos no meio das trevas, parecia meditar sa sfeito da sua boa acção, de abrigar do céu e dos homens as três pobres crianças adormecidas.

Para se compreender o que vai seguir-se, é necessário lembrar que o corpo da guarda da Bas lha era situado na outra extremidade da praça, e não podia ser visto nem ouvido pela sentinela o que se passava junto do elefante.