Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 172 de 359

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Os Miseráveis

III — Surpresas de Mário

— L’Aigle! — interrompeu Mário. — Que belo nome!

— O caso é que Blondeau chega a este belo nome e grita: Laigle! Presente! respondo eu. Blondeau então fita-me um olhar de meiguice como o do gre e diz-me, sorrindo: Se o senhor é Pontmercy, não é Laigle. Frase que ao senhor não lhe pode soar muito bem,

mas que só para mim era lúgubre. Dito isto, riscou-me.

— Oh! Senhor, eu sinto imenso!... — exclamou Mário.

— Antes de mais nada — atalhou-o Laigle — peço que me deixe embalsamar Blondeau em algumas frases de sen do elogio. Eu suponho-o morto, porque a sua magreza, a sua palidez, a sua frieza e cheiro, aquela sua postura hirta, já não eram muito de homem vivo. Por isso digo: Erudimini qui judica s terram. Aqui jaz Blondeau, Blondeau Nariz, Blondeau Nasica, o boi da disciplina, bos disciplinam, o molosso da pauta, o anjo da chamada, que foi recto, jus ceiro, pontual, rígido, honesto e medonho.

Riscou-o Deus, como ele me riscou a mim!

Mário continuou:

— Sinto-me contristado...

— Mancebo, sirva-lhe de lição. Para o futuro seja pontual.

— Peço-lhe mil desculpas...

— Não queira expor os outros a que sejam riscados.

— Aflige-me em extremo...

Laigle desatou a rir.

— E eu gostei imenso! Estava quase a receber a sentença de advogado e a tal riscadela salvou-me! Renuncio aos triunfos do foro. Nem defenderei a viúva, nem atacarei o órfão!

Adeus, toga; adeus, maçadas jurídicas! Estou salvo e devo-lho a si, senhor Pontmercy!

Hei-de ir fazer-lhe uma visita em forma para lhe agradecer. Onde mora?

— Neste cabriolé — disse Mário.

— Sinal de opulência — respondeu Laigle com serenidade. — Dou-lhe os meus parabéns. É uma habitação que lhe fica por nove mil francos cada ano.

Nesta ocasião vinha Courfeyrac a sair do café.

Mário sorriu tristemente e continuou:

— Há duas horas que me vejo aqui me do e que estou morto por sair; mas, acredite-me, não sei para onde hei-de ir.

— Para minha casa, se quiser — disse Courfeyrac.

— Eu devia ter o primeiro lugar — observou Laigle — mas, infelizmente, não posso dizer a ninguém: Venha para minha casa, porque a não tenho.

— Cala-te, Bossuet! — tornou Courfeyrac.

— Bossuet?— disse Mário. — Eu cuidei que o senhor se chamava Laigle.

— De Meaux — respondeu Laigle. — Bossuet é uma metáfora.

Courfeyrac entrou para o cabriole e disse ao cocheiro:

— Para a Porta de S. Jacques.

E, nessa mesma noite, achava-se Mário na Porta de S. Jacques, hospedado na mesma casa em que morava Courfeyrac.

III — Surpresas de Mário

Em poucos dias, Mário nha travado relações de estreita amizade com o mancebo. A mocidade é a quadra das prontas ligações e das cicatrizações rápidas. Na companhia de Courfeyrac, Mário respirava livremente, o que para ele era uma coisa bastante nova.

Quanto ao mancebo que o agasalhava, não lhe dirigiu uma só pergunta nem disso se

lembrou. Naquela idade, os rostos dizem logo tudo, e, portanto, a palavra torna-se inú l. Há mancebos que dizem mais com o rosto do que com a boca. Naquelas idades basta olharem-se para ficarem logo conhecidos.

Todavia, uma manhã, Courfeyrac dirigiu-lhe de improviso esta pergunta:

— É verdade, o senhor tem alguma opinião política?

— Ora, é boa a pergunta! — respondeu Mário, quase ofendido.

— Então que opinião é?

— Eu sou democrata bonapartista.

— Cambiante pardo de rato sossegado — disse Courfeyrac.

No dia seguinte, Courfeyrac introduziu Mário no Café Musain.

Depois murmurou-lhe ao ouvido com um sorriso:

— É preciso que lhe dê entrada na revolução.

E conduziu-o para a sala dos amigos do ABC, onde o apresentou aos outros camaradas, dizendo a meia voz estas simples palavras, cuja significação Mário não compreendeu:

— Um discípulo.

Mário caíra num vespeiro de espíritos. Todavia, posto que silencioso e grave, não era ele nem o menos alado nem o menos armado.

Mário, até então solitário e propenso ao monólogo e ao aparte, por costume e gosto, ficou um pouco assustado ao ver-se rodeado daquele bando de rapazes. Atraíam-no e arrastavam-no todas aquelas diversas inicia vas, ao mesmo tempo. O vaivém tumultuoso daqueles espíritos livres funcionando, fazia-lhe redemoinhar as ideias. As vezes, estas, no meio da perturbação, voejavam-lhe por tão longe, que lhe custava a dar com elas.

O mancebo ouvia falar de filosofia, de literatura, de arte, de história, de religião, de uma maneira inteiramente nova para ele. Entrevia aspectos estranhos, e, como os não punha em perspec va, não nha a certeza se o que Via era o caos ou não. Quando abandonara as opiniões de seu avô pelas de seu pai, julgara que não tornaria a mudar; agora, porém, receava, sem tal coisa ousar confessar, que não lhe aconteceria o que supusera. O ângulo sob o qual ele via as coisas principiava de novo a deslocar-se.

Uma certa oscilação abalava todos os horizontes do seu cérebro. Estranho desarranjo interior que quase o incomodava.

Parecia que para aqueles mancebos não havia «coisas consagradas». Mário ouvia a respeito de tudo uma linguagem singular, que lhe molestava o espírito, ainda timorato.

Aparecia pelas esquinas um cartaz ornado com o tulo de alguma tragédia do an go reportório, chamado clássico.

— Abaixo a tragédia querida dos burgueses! — gritava Bahorel.

E Mário ouvia replicar a Combeferre: