Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 61 de 359

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Os Miseráveis

VIII — Entrada de favor

— Leve isto ao senhor juiz.

O oficial de diligências pegou no papel, lançou-lhe os olhos e obedeceu.

VIII — Entrada de favor

O maire de Montreuil-sur-mer, sem que mesmo o suspeitasse, nha uma certa celebridade. Havia sete anos que a sua reputação de virtude percorria todo o Baixo Bolonnais, acabando por ultrapassar os limites de um pequeno território e espalhando-se pelas províncias vizinhas. Além do serviço que prestara à capital do distrito, restaurando ali a indústria dos vidrilhos pretos, não havia uma só das cento e quarenta comunas de Montreuil-sur-mer que lhe não devesse algum bene cio. Tinha até achado o modo de ajudar e fecundar as indústrias dos outros distritos. Fora assim que ele, numa ocasião crí ca, sustentara com o seu crédito e fundos a fábrica de filós de Bolonha, a fiação mecânica de linho de Prevent e a manufactura hidráulica de tecidos de Boubers-sur-Canche. Por toda a parte se pronunciava com veneração o nome do senhor Madelaine. Arras e Douai invejavam o maire da pequena mas feliz cidade de Montreuil-sur-mer.

O conselheiro do supremo tribunal de Douai que presidia à audiência conhecia, como toda a gente, aquele nome tão profundo e universalmente respeitado. Quando o oficial de diligências, abrindo discretamente a porta que comunicava a casa do conselheiro com a sala da audiência, se inclinou por detrás da cadeira do presidente e lhe entregou o papel que lhe nham dado, acrescentando: «Este senhor deseja assis r à audiência», opresidente fez um gesto de deferência e solicitude, pegou numa pena, escreveu algumas palavras no mesmo papel, tornou a dá-lo ao oficial de diligências, dizendo-lhe ao mesmo tempo:

— Mande entrar.

O desgraçado de quem contámos a história ficara junto da porta da sala no mesmo lugar em que o oficial de diligências o deixara. Atrás da sua meditação ouviu que alguém lhe dizia:

— O senhor maire dá-me a honra de me seguir?

Era o mesmo oficial de diligências que pouco antes lhe voltara as costas e que agora o cumprimentava, curvando-se até ao chão. Ao mesmo tempo entregou-lhe o papel.

Madelaine desdobrou-o e, como se encontrava próximo do candeeiro, pôde ler: «O

presidente do tribunal apresenta os seus respeitos ao senhor Madelaine».

Amarrotou o papel nas mãos, como se vesse achado nas poucas palavras que ele

continha um sabor estranho e amargo. Em seguida acompanhou o oficial de diligências.

Dali a pouco achava-se numa espécie de gabinete estucado, de aspecto severo e alumiado por duas velas, colocadas sobre uma mesa de pano verde. Tinha ainda no ouvido as palavras do oficial de diligências, que acabara de o deixar: «Aqui é a casa do conselho, não tem mais do que levantar o fecho desta porta para se encontrar na sala da audiência, por detrás da cadeira do senhor presidente».

Estas palavras confundiram-se-lhe no pensamento com uma vaga recordação dos corredores estreitos e das escuras escadas que acabava de percorrer.

O oficial de diligências deixara-o só. Chegara o momento supremo. Diligenciava recolher o espírito, mas não o conseguia. É principalmente nos momentos em que há maior necessidade de ligar às pungentes realidades da vida todos os fios do pensamento, que eles se quebram no cérebro. Achava-se no sí o em que os juízes deliberam e condenam. Observava com estúpida tranquilidade aquela casa pacífica e temível, onde se nham destruído tantas existências, onde o seu nome ia em breve ressoar e que o seu des no atravessava naquele momento. Olhava para si e admirava-se de ser aquela uma tal casa e de ser ele quem ali se encontrava.

Havia vinte e quatro horas que não tomava alimento algum, nha o corpo pisado pelos solavancos do carro, mas não o sentia; parecia-lhe que não sentia nada.

Aproximou-se de uma moldura preta que estava pendurada na parede e sob cujo vidro se via uma velha carta autografada de Nicolau Pache, ministro e maire de Paris, datada, decerto por engano, de 9 de Junho, do ano XI, e na qual Pache enviava à administração do concelho a lista dos ministros e deputados presos em suas casas.

Quem o vesse observado naquela ocasião, teria sem dúvida julgado que lhe causava grande interesse aquela carta, por isso que não afastava dela os olhos. Leu-a duas ou três vezes; leu-a maquinalmente e quase a seu pesar.

Naquele momento era em Fan ne e em Cose e que ele pensava. No meio da sua meditação, voltou-se e viu o puxador da porta que o separava da sala da audiência.