Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 95 de 359

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Os Miseráveis

IV — Entra em cena uma boneca

Cosette insistiu, acrescentando com voz abafada pela angústia e que mal se ouvia:

— E até bebeu bastante!

— Vamos — tornou o feirante encolerizado — deixem-se de histórias, dêem de beber ao cavalo e acabemos com isto!

Cosette foi-se meter outra vez debaixo da mesa.

— Lá isso é justo — disse a Thenardier — se o cavalo não bebeu, é preciso dar-lhe de beber.

Depois acrescentou, olhando em volta de si:

— Então? Onde está este estafermo?

E, como se baixasse, descobriu Cose e acocorada na outra extremidade da mesa, quase debaixo dos pés dos bebedores.

— Vens daí? — exclamou a Thenardier.

Cosette saiu da espécie de buraco onde se tinha ido esconder e a Thenardier tornou:

— Senhora cadela sem nome, vá dar de beber ao cavalo.

— Senhora, mas é que não há água nenhuma em casa — disse Cose e com voz enfraquecida.

A estalajadeira abriu a porta da rua de par em par e acrescentou:

— Pois vai buscá-la!

Cose e curvou a cabeça e foi pegar num balde vazio que estava ao pé da chaminé e que era maior do que ela. A criança podia sentar-se e mover-se dentro dele à vontade.

A Thenardier voltou para a chaminé e provou com uma colher de pau o que estava na caçarola, murmurando ao mesmo tempo:

— Na fonte há muita. Se já se viu uma coisa assim! O que ela precisava sei eu.

Depois meteu a mão numa gaveta onde havia algum dinheiro em cobre, pimenta e alhos.

— Aqui tens minha lesma —, acrescentou ela — quando voltares passa pelo padeiro e traze um pão dos grandes. Aqui tens quinze soldos.

Cose e pegou na moeda sem dizer uma palavra e meteu-a numa algibeira que nha no avental.

Em seguida ficou imóvel, com o balde na mão, diante da porta aberta. Parecia estar à espera que viesse alguém em seu socorro.

— Então, avias-te? — gritou a Thenardier.

Cosette saiu e a porta tornou a fechar-se.

IV — Entra em cena uma boneca

Como estarão lembrados, a fileira de barracas que par a da igreja estendia-se até à estalagem de Thenardier, e como dali a pouco havia de passar a gente da aldeia para a missa do galo, estavam todas iluminadas com velas me das em cartuchos de papel, o que, como dizia o mestre-escola de Mon ermeil, naquela ocasião sentado a uma das mesas da taberna de Thenardier, fazia «um efeito mágico». Em compensação, não se via uma estrela no céu.

A úl ma destas barracas, situada exactamente em frente da porta da taberna, era uma loja de quinquilharias, resplandecente de ouropéis, avelórios e magníficas coisas de lata. Na primeira estante da frente, colocara o dono da loja, num fundo de pratos de folha, uma imensa boneca de dois pés de altura, ves da com um ves do de crepe corde-rosa, com espigas de ouro na cabeça, cabelos naturais e olhos de esmalte.