Os Miseráveis
IV — Entra em cena uma boneca
Cosette insistiu, acrescentando com voz abafada pela angústia e que mal se ouvia:
— E até bebeu bastante!
— Vamos — tornou o feirante encolerizado — deixem-se de histórias, dêem de beber ao cavalo e acabemos com isto!
Cosette foi-se meter outra vez debaixo da mesa.
— Lá isso é justo — disse a Thenardier — se o cavalo não bebeu, é preciso dar-lhe de beber.
Depois acrescentou, olhando em volta de si:
— Então? Onde está este estafermo?
E, como se baixasse, descobriu Cose e acocorada na outra extremidade da mesa, quase debaixo dos pés dos bebedores.
— Vens daí? — exclamou a Thenardier.
Cosette saiu da espécie de buraco onde se tinha ido esconder e a Thenardier tornou:
— Senhora cadela sem nome, vá dar de beber ao cavalo.
— Senhora, mas é que não há água nenhuma em casa — disse Cose e com voz enfraquecida.
A estalajadeira abriu a porta da rua de par em par e acrescentou:
— Pois vai buscá-la!
Cose e curvou a cabeça e foi pegar num balde vazio que estava ao pé da chaminé e que era maior do que ela. A criança podia sentar-se e mover-se dentro dele à vontade.
A Thenardier voltou para a chaminé e provou com uma colher de pau o que estava na caçarola, murmurando ao mesmo tempo:
— Na fonte há muita. Se já se viu uma coisa assim! O que ela precisava sei eu.
Depois meteu a mão numa gaveta onde havia algum dinheiro em cobre, pimenta e alhos.
— Aqui tens minha lesma —, acrescentou ela — quando voltares passa pelo padeiro e traze um pão dos grandes. Aqui tens quinze soldos.
Cose e pegou na moeda sem dizer uma palavra e meteu-a numa algibeira que nha no avental.
Em seguida ficou imóvel, com o balde na mão, diante da porta aberta. Parecia estar à espera que viesse alguém em seu socorro.
— Então, avias-te? — gritou a Thenardier.
Cosette saiu e a porta tornou a fechar-se.
IV — Entra em cena uma boneca
Como estarão lembrados, a fileira de barracas que par a da igreja estendia-se até à estalagem de Thenardier, e como dali a pouco havia de passar a gente da aldeia para a missa do galo, estavam todas iluminadas com velas me das em cartuchos de papel, o que, como dizia o mestre-escola de Mon ermeil, naquela ocasião sentado a uma das mesas da taberna de Thenardier, fazia «um efeito mágico». Em compensação, não se via uma estrela no céu.
A úl ma destas barracas, situada exactamente em frente da porta da taberna, era uma loja de quinquilharias, resplandecente de ouropéis, avelórios e magníficas coisas de lata. Na primeira estante da frente, colocara o dono da loja, num fundo de pratos de folha, uma imensa boneca de dois pés de altura, ves da com um ves do de crepe corde-rosa, com espigas de ouro na cabeça, cabelos naturais e olhos de esmalte.