Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 226 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

IV — Aparição a Mário

— Dizendo-me onde mora o senhor Mário.

— Que Mário? — perguntou o ancião sem saber de quem a rapariga queria falar e pondo-se a olhar para o ar como procurando colher alguma longínqua reminiscência.

— Um rapaz que vinha dantes a sua casa.

— Ah, sim! — exclamou o senhor Mabeuf, como que tendo, enfim, encontrado uma ideia fugi va. — Bem sei!... Mário... o barão de Pontmercy! Ele mora... espere... parece-me que já não... Olhe, não sei.

E continuou logo em seguida, agachando-se, a compor uma haste do rododendro:

— Espere, agora me lembro. Ele passa aqui quase todos os dias pelo boulevard, como quem se encaminha para a Glacière. Na rua de Croule-Barbe. No Campo da Cotovia. É

procurá-lo por esses sítios, que não lhe há-de custar a dar com ele.

Quando o senhor Mabeuf, depois de concluir a operação em que nha estado ocupado, se endireitou, já não viu ninguém; a rapariga tinha desaparecido.

Esta súbita desaparição amedrontou-o um pouco.

— Realmente — disse ele consigo —, que eu acreditaria que foi algum espírito que me apareceu, se o jardim não estivesse regado!

Uma hora depois, na ocasião em que se ia a deitar, lembrou-lhe o que se nha passado, e ao pegar no sono, nesse instante turvo em que o pensamento, semelhante à fabulosa ave que se transforma em peixe para passar o mar, vai gradualmente tomando a forma de sonho para atravessar o sono, dizia ele confusamente:

— O que se passou hoje comigo quase parece o que la Rubaudière conta dos duendes.

Seria, realmente, algum?

IV — Aparição a Mário

Na manhã da seguinte segunda-feira, poucos dias depois daquela aparição «do espírito» ao o Mabeuf, Mário saiu de casa, depois de meter no bolso os cem soldos que todas as semanas, em igual dia, costumava pedir emprestados a Courfeyrac para dar a Thenardier, porém em vez de ir imediatamente levá-los ao seu des no, resolveu primeiro «dar uma volta», esperando assim recolher-se a casa mais disposto a retomar o trabalho. Era o seu expediente habitual. Logo que se levantava, sentava-se à sua mesa de trabalho com um livro e uma folha de papel diante de si, tentando dar rápido andamento a alguma das traduções, que de ordinário trazia entre mãos, e falecia-lhe a vontade antes de dar princípio à tarefa que se impunha. Nesse tempo era esta a versão para francês da célebre questão entre Gans e Savigny; pegava em Savigny, pegava em Gans, lia quatro linhas, tentava escrever uma e não podia. Via uma estrela entre ele e o papel, e tanto se embrenhava em cogitações alheias ao objecto em que se ocupava, que, por fim, levantava-se da cadeira, dizendo:

— Vou sair a ver se isto me passa.

E dirigia-se para o Campo da Cotovia, onde a estrela que evitava ainda mais luzente se lhe oferecia aos olhos e cada vez mais lhe desaparecia diante deles o texto de Gans e Savigny.

Ao recolher-se a casa, por mais que fizesse para con nuar o interrompido trabalho, era debalde. Vendo então a inu lidade dos seus esforços para reatar os fios que lhe quebravam no cérebro as abstracções em que se embevecia, exclamava com gesto decisivo:

— Amanhã não sairei. Preciso de trabalhar!

Mas saía todos os dias.

Habitava mais o Campo da Cotovia do que a casa de Courfeyrac. O seu verdadeiro domicílio era a sé ma árvore do boulevard da Saúde, principiando a contar da rua do Croule-Barbe para diante.

Nessa manhã de que falamos, o mancebo deixara o seu costumado pouso junto à sétima árvore do boulevard para se ir sentar no parapeito do regato dos Gobelinos.

Um sol reanimador penetrava a folhagem toda tenra e viçosa e a escorrer em ondas

de luz. Mário pensava nela . E, dolorosamente, ao mesmo tempo exprobrava a sua ociosidade, aquela paralisia de alma, que ia manso e manso adormentando-o e lhe apresentava ao espírito a ideia da escuridão, que de instante a instante se espessava em torno dele, a ponto de já não ver o Sol.

Não obstante, porém, o doloroso curso das suas ideias, que, mal dis ntas como eram, nem monólogo se podiam chamar, porque nem ele já se sen a com forças para oferecer o coração em pasto à dor, ainda assim, dizemos, as sensações externas conseguiam impressioná-lo através daquela melancólica abstracção. Apesar dela, Mário ouvia, de um e de outro lado do regato dos Gobelinos, as lavadeiras batendo a roupa na pedra dos lavadouros e por cima de si o gárrulo chilrear dos pássaros empoleirados sobre os olmos, sal tando de fronde em fronde. Em cima, o sussurro da liberdade, da indiferença ditosa, do ócio, que tem asas; em baixo, o estrépito do trabalho; porém um e outro rumor alegre, reparo que profundamente o fazia cismar, senão reflectir.

No meio do seu doloroso êxtase, eis que ouviu de repente uma voz conhecida, dizendo:

— Oh! Ele cá está!

Mário levantou a cabeça e deu com os olhos na desventurada rapariga que um dia o fora procurar ao quarto, a filha mais velha de Thenardier, Eponina, enfim, para a designarmos pelo seu verdadeiro nome, que para Mário também já não era desconhecido. Singular contraste! Beleza e miséria! No meio da sua crescente indigência, a formosura, longe de desmaiar ao contacto das privações, realçara de novos atrac vos aquele rosto de jovem. O seu vestuário indicava maior miséria, o rosto respirava-lhe mais donairosos atrac vos. Vinha descalça; descalça e coberta de andrajos, como o rapaz a vira no dia em que desempenadamente lhe entrara no quarto. A única diferença era que os andrajos contavam mais dois meses, que eram maiores os rasgões, maior a sordidez. A mesma voz roufenha, a mesma fronte rugosa e snada, o mesmo despejado olhar, como dantes, desvairado e indeciso. Demais, na fisionomia, só nha essa indefinível expressão de terror e angústia, que o viver das prisões acrescenta à miséria.

De entre os cabelos emaranhados saíam-lhe vastas pontas de palha e feno, não por ter enlouquecido, como Ofélia, contagiada pela loucura de Hamlet, mas por ter dormido em algum palheiro.

E, apesar de tudo isto, era bela. Que grande poder o teu, ó astro da juventude!

Eponina, em cujo lívido rosto transparecia uma leve sombra de alegria, que lhe fazia desabrochar os lábios, no que dificilmente chamaríeis sorriso, acercou-se do rapaz, parou e deteve-se por instantes, como se alguma força oculta a vedasse de ar cular a menor palavra. Por fim, exclamou:

— Até que, finalmente, dei consigo! Bem me dizia o o Mabeuf que o procurasse aqui! O que eu tenho corrido a ver se o encontrava; nem o senhor sabe! É verdade! Não sabe? Es ve quinze dias «à sombra». Mas puseram-me na rua por falta de provas e mesmo por eu não ter a idade da razão. Faltavam-me dois meses! Ora, mas o que eu tenho corrido há seis semanas para cá! Pelo que vejo, o senhor já não mora lá em casa?

— Não — disse Mário.

— Ah, já sei! Por via daquela história! São dessas «porcarias» com que a gente embirra! O caso é que o senhor mudou. Ui! Sempre traz um chapéu, coisa mais esquisita! Já sem pêlo nenhum! Um rapaz como o senhor quer-se bem trajado! Não quer saber, senhor Mário? Olhe, o o Mabeuf chama-lhe o barão não sei de quê! Mas o senhor não é barão, pois não? Barões são uns Velhos que vão tomar o Sol para o largo do Luxemburgo e dão um soldo para ler a Quotidiana. Eu uma vez fui levar uma carta a um barão e era assim como eu digo. Tinha mais de cem anos o bom do homem!... Mas, diga-me, onde é que mora agora?

Mário não respondeu.

— Que buraco que o senhor tem na camisa! É preciso que lho cosa.

E continuou com expressão cada vez mais triste:

— O senhor parece que não gostou de me ver?

Mário con nuava calado: ela guardou também silêncio por um instante e depois exclamou:

— Se eu quisesse, bem sabia como havia de o ver contente!

— O que é? — disse Mário. — O que quer dizer?

— Ora! O senhor dantes tratava-me por tu!

— Pois sim, o que queres tu dizer?

A rapariga mordeu os lábios, parecia hesitar, como que presa de uma espécie de combate interior. Finalmente pareceu decidir-se:

— Ora! Que importa! O senhor está triste e eu quero que esteja alegre. Prometa-me só que se há-de rir. Quero vê-lo rir. Pobre senhor Mário! Bem sabe que me nha prometido dar-me tudo o que eu quisesse.

— Sim, mas fala.

A rapariga fitou Mário e disse-lhe:

— Sei a morada!

Mário empalideceu. Todo o sangue lhe refluiu ao coração.

— Qual morada?

— A que o senhor me tinha perguntado!

E acrescentou, como se fizesse um esforço.

— A morada... o senhor bem sabe...

— Sim. — balbuciou Mário.

— Daquela menina.

A rapariga pronunciando estas palavras, suspirou profundamente.

Mário saltou do parapeito onde estava sentado e pegou-lhe desorientadamente na mão.

— Então diz-me onde é! Leva-me lá! Pede-me tudo o que quiseres! Onde mora?

— Venha comigo — respondeu a rapariga. — Não sei bem a rua nem o número; é muito longe daqui, mas conheço bem a sua casa e vou mostrar-lha.

A rapariga re rou a mão e disse num tom que teria entristecido um observador, mas que nem mesmo foi notado por Mário, que estava em perfeito estado de embriaguez:

— Como ficou alegre!

De repente passou uma nuvem pelo rosto de Mário, o qual segurou Eponina por um braço.

— Jura-me uma coisa!

— Jurar! — disse ela. — Que quer isso dizer? Então quer que eu jure?

E riu-se.

— Teu pai... Promete-me, Eponina, jura-me que não indicarás a teu pai essa morada!

A rapariga voltou-se para ele com ar estupefacto.

— Eponina! Como sabe o senhor que me chamo Eponina?

— Prometes-me o que te disse?

Ela porém pareceu não ouvir.

— Que graça que tem! Chamar-me Eponina!

Mário pegou-lhe em ambos os braços.

— Mas — responde-me, — dá atenção ao que te digo: jura-me que não dirás a morada a teu pai!

— Meu pai? — disse ela. — Ah, sim, meu pai! Fique descansado. Está no segredo. E

depois, importa-me cá meu pai!

— Mas tu não me prometes! — exclamou Mário.

— Largue-me! — disse ela, soltando uma gargalhada. — Sim, sim, prometo! Juro! Que me custa a mim isso? Não direi a morada a meu pai. Então, já viram? Não querem lá ver?

— Nem a pessoa nenhuma? — retorquiu Mário.

— A ninguém!

— Agora — tornou Mário — indica-me onde é.