Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 270 de 359

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Os Miseráveis

VI — Recrutas

P’rã Chateau.

Eu sem pão, sem pau, sem pedra,

Vou daqui a Pontevedra.

Numa fresca madrugada,

Vi dois pardais sentados

A comer e a beber vinho.

Como dois homens casados.

Zi, zi, zi,

Pra Passy.

Eu sem pão, sem pau, sem pedra,

Vou daqui a Pontevedra.

Mais além vi dois lobinhos.

Fartos já de bons bocados,

E três tigres numa gruta,

Rindo muito descansados.

Don, don, don,

Pra Mendon.

Eu sem pão, sem pau, sem pedra,

Vou daqui a Pontevedra.

Ai, que noite tão bonita.

Tão amena de luar;

Ai, que noite tão serena!

Quem não quer vir passear?

Tim, tim, tim,

P’ra Pantin.

Eu sem pão, sem pau, sem pedra,

Vou daqui a Pontevedra.

E assim caminhavam em direcção a Saint-Merry.

VI — Recrutas

O bando engrossava de instante a instante. Nas alturas da rua das Billetes, reuniu-selhes um homem, de meia idade, que nenhum deles conhecia, mas que, pela sua elevada estatura, aspecto rude e ousado, chamou a atenção de Enjolras, Courfeyrac e Combeferre Gavroche, entre do a cantar, a assobiar, a produzir variados sons com a boca, a bater com a coronha da sua pistola sem fechos nas portadas das lojas, nem dele deu fé.

Como o ajuntamento se encaminhava pela rua dos Vidraceiros, onde ficava a casa de Courfeyrac, este julgou a propósito separar-se do bando para subir ao seu quarto buscar o que quer que fosse e exclamou:

— Não deixa de fazer conta. Uma vez que passam pela minha porta, deixem-me ir buscar a bolsa, que me esqueceu, e um chapéu, que o outro... foi-se!

E saindo apressadamente do ajuntamento, foi direito a casa, subiu ao seu quarto, pegou na bolsa e num chapéu velho, e foi igualmente buscar uma espécie de caixa ou baú que jazia enterrado debaixo da roupa suja a um canto. Na ocasião, porém, em que a toda a pressa descia as escadas, a porteira gritou-lhe:

— Senhor de Courfeyrac!

— Como se chama, senhora porteira? — replicou Courfeyrac.

A porteira olhou-o com gesto de estúpido assombro e depois exclamou:

— Ora, o senhor sabe perfeitamente que sou a tia Veuvain!

— Muito bem; pois fique sabendo que, se me torna a tratar por senhor de Courfeyrac, tratá-la-ei por tia de Veuvain. Agora diga lá. Que temos? Que há de novo?

— Está ali uma pessoa que lhe quer falar.

— Quem é?

— Não sei.

— Onde está?

— No meu quarto.

— Ó diabo! — disse Courfeyrac.

— E há mais de uma hora que o espera! — tornou a porteira.

Ao mesmo tempo saiu do cubículo da porteira uma espécie de operário, muito moço, magro, pálido, de pequena estatura, muito sardento, ves do com uma blusa esburacada, umas calças de belbu na remendadas, e que apresentava mais depressa o aspecto de uma rapariga ves da de rapaz do que o de um homem; saiu do cubículo, dirigiu-se a Courfeyrac, e disse-lhe com uma voz que nem por sombras era a de uma mulher:

— Tem a bondade de me dizer se sabe do senhor Mário?