Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 205 de 359

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Os Miseráveis

XI — A miséria oferece-se para obsequiar a dor

conseguiram evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu nome — PANCHAUD — audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalação, numa das suas tentativas de evasão.

Em 1832 já a polícia o vigiava, porém ainda ele não nha feito a sua estreia de um modo sério.

XI — A miséria oferece-se para obsequiar a dor Mário subiu a escada vagarosamente; e no momento em que ia a entrar no seu quarto, notou atrás de si, no corredor, a Jondre e mais velha, que o seguia. A rapariga tornou-se-lhe odiosa à vista. Fora ela quem lhe levara os cinco francos; era já muito tarde para lhos pedir, o cabriole já se tinha afastado, e o carro ia, decerto, muito longe. E

depois não lhos res tuiria. Enquanto a fazer-lhe perguntas sobre a morada das pessoas que havia pouco ali nham ido seria inú l; era evidente que o não sabia, por isso que a carta assinada com o nome de Fabantou fora dirigida ao benfeitor da igreja de S. Jacques do Haut-Pas.

Mário entrou para o seu quarto e cerrou a porta, mas não a podendo fechar de todo, voltou-se, e viu a mão de alguém que a conservava entreaberta.

— Quem é? — perguntou ele. — Quem está aí?

Era a filha de Jondrette.

— É você! — tornou Mário quase com dureza. — Que me quer?

A rapariga parecia pensa va e não olhava para ele; não apresentava o mesmo desembaraço que ostentara de manhã; não entrava e conservava-se na sombra do corredor, onde Mário a via apenas pela greta da porta.

— Então não responde? — disse Mário. — Que me quer?

A rapariga dirigiu-lhe um olhar triste, onde parecia mostrar-se um vago clarão e disselhe:

— Senhor Mário, o senhor tem um ar tão triste!... Diga-me, o que tem?

— Eu?! — disse Mário.

— Sim, o senhor

— Não tenho nada.

— Tem, decerto.

— Já disse que não.

— E eu digo que sim!

— Deixe-me.

Mário empurrou novamente a porta e a rapariga continuou a sustê-la.

— Olhe, senhor Mário, o senhor faz mal. O senhor não é rico, e assim mesmo mostrou-se bom para comigo ainda esta manhã. Seja-o também agora. De manhã deu-me com que matar a fome; diga-me agora o que é que tem. O senhor tem coisa que lhe dê cuidado; isso vê-se. Eu não queria que es vesse triste. O que é preciso fazer para isto? Se posso servir para alguma coisa, disponha de mim. Eu não lhe digo que me conte os seus segredos; mas enfim, talvez que lhe possa fazer algum serviço. Uma vez que ajudo meu pai, posso ajudá-lo ao senhor. Quando é preciso levar cartas, ir a alguma casa, perguntar por alguém de porta em porta até achar-lhe a morada, seguir alguma pessoa, então posso ser ú l; para isso sirvo eu. O senhor pode dizer o que tem, porque eu irei falar a alguma pessoa que o senhor queira; às vezes basta que alguém fale com as pessoas para que as coisas se saibam e tudo se arranje. Disponha de mim.

Uma ideia perpassou pelo espírito de Mário. Quem se sente cair não escolhe ramo para se apegar.

Aproximou-se pois da filha de Jondrette e disse-lhe:

— Escuta...

A rapariga interrompeu-o com a expressão da alegria nos olhos.

— Assim, sim... trate-me por tu, gosto mais disso.

— Pois sim — tornou ele — tu é que trouxeste aqui aquele sujeito velho e sua filha?

— Fui.

— Sabes a sua morada?

— Não.

— Vê se a podes saber.

Os olhos da rapariga, de tristes tornaram-se alegres, de alegres tornaram-se sombrios.

— É isso o que o senhor quer? — perguntou ela.

— É.

— O senhor conhece-os?

— Não.

— Já sei — disse ela com vivacidade — não a conhece, mas quer conhecê-la.

Esta mudança de os em a tinha não sei quê de significativo e amargo.

— Mas enfim, podes saber onde moram?

— Há-de saber a morada daquela linda menina, deixe estar...

As palavras «linda menina» foram ainda ditas de modo que importunou Mário, o qual acrescentou:

— A morada do pai ou da filha... a morada deles enfim.

A rapariga fitou os olhos nele.

— E o que me dará?

— Tudo o que tu quiseres.

— Tudo o que eu quiser?

— Sim.

— Pois então há-de saber onde moram.

A filha de Jondrette baixou a cabeça, e depois, com um movimento inopinado puxou a porta, que logo tornou a fechar-se.

Mário tornou a achar-se só.

Deixou-se cair então numa cadeira, com a cabeça e ambos os cotovelos encostados à cama, abismado em pensamentos que não podia fixar e presa de uma espécie de vertigem. Tudo o que ocorrera desde manhã, a aparição do anjo, o seu desaparecimento, o que a rapariga acabara de lhe dizer, um vislumbre de esperança num imenso desespero, era o que lhe preenchia confusamente o cérebro.