Os Miseráveis
VI — Princípio de um enigma
Porém, a hora, o lugar, a escuridão, a preocupação de Jean Valjean, os seus gestos singulares, as suas idas e vindas, tudo isto principiava a incu r receios a Cose e. Outra qualquer criança que não fosse ela há muito que teria desatado aos gritos, porém ela limitou-se a puxar pela aba do casacão a Jean Valjean e a dizer-lhe em voz baixa, porque cada vez se ouvia mais dis ntamente o rumor dos passos da patrulha, que se ia aproximando:
— Ó pai, tenho medo! Quem é que vem lá?
— Cala-te! — respondeu o desditoso homem. — É a Thenardier.
Cosette estremeceu e ele acrescentou:
— Não digas nada. Deixa-me cá. Olha que se tu gritas ou choras, a Thenardier dá contigo e ela ao que vem é para te levar outra vez.
Jean Valjean então, sem se apressar, mas sem fazer movimentos desnecessários, com uma precisão firme e breve, tanto mais para notar em tal ocasião, por isso que Javert e a patrulha podiam aparecer de um instante para o outro, rou o lenço do pescoço, passou-o em roda do corpo de Cose e por baixo dos sovacos, tendo todo o cuidado em que ele não ferisse a criança, atou o lenço à ponta da corda com um nó a que os
marinheiros chamam de andorinha, segurou nos dentes a outra ponta, descalçou os sapatos e as meias, que a rou por cima da parede, subiu ao maciço de pedra e principiou a elevar-se pela esquina da parede e da empena com tanta solidez e firmeza como se vesse degraus onde apoiar os calcanhares e os cotovelos. Não havia decorrido meio minuto e já Jean Valjean estava em cima da parede.
Cose e contemplava-o cheia de pasmo e sem dizer palavra. Gelara-a a recomendação de Jean Valjean e o nome da Thenardier.
De repente, a criança ouviu a voz de Jean Valjean, que lhe dizia em voz baixa:
— Encosta-te ao muro.
Ela obedeceu.
— Não dês nem uma palavra e não tenhas medo — tornou Jean Valjean.
Cose e sen u-se então levantada do chão, e, antes de ter tempo de ver bem o que era, estava em cima do muro.
Jean Valjean agarrou nela, pô-la às costas, segurando-lhe com a mão esquerda as mãozinhas, deitou-se de bruços e foi-se arrastando por cima da parede até ao ponto em que esta formava o recanto. Como ele supusera, havia ali uma barraca de madeira, cujo telhado descia até muito próximo do solo, num plano suavemente inclinado e tocando a lia que se via na rua. Feliz circunstância, pois que o muro deste lado era muito mais alto do que pelo lado da rua. Jean Valjean só a grande profundidade é que via o chão.
Acabava ele de chegar ao plano inclinado do tecto, não tendo ainda largado a aresta do muro, quando um violento rumor anunciou a chegada da patrulha, ouvindo-se a atroadora voz de Javert, que gritava:
— Dêem busca ao beco. A rua do Muro Direito está guardada e a viela do Picpus também. Respondo em como ele está no beco.
A voz de Javert, os soldados precipitaram-se para o beco de Genrot.
Jean Valjean deixou-se escorregar pelo telhado, segurando ao mesmo tempo Cose e, e, chegado ao pé da lia, saltou ao chão. Fosse terror, fosse coragem, Cose e nem sequer respirava, apesar de ter as mãos um tanto esfoladas.
VI — Princípio de um enigma
Achava-se Jean Valjean numa espécie de jardim bastante vasto, mas de aspecto singular, um desses jardins melancólicos que parecem servir só para serem vistos de Inverno ou de noite. Era de forma oblonga, com uma rua de grandes choupos no fundo, a cada canto uma mata bastante alta e no meio um espaço sem sombra, em que se dis nguia uma grande árvore isolada, em seguida algumas árvores fru feras torcidas e eriçadas como grossos pés de tojo, canteiros semeados de legumes, um meloal, cujas campainhas brilhavam ao clarão da Lua, e uma pia velha. Aqui e ali viam-se alguns bancos de pedra, que pareciam negros com o musgo que os cobria. As ruas eram orladas por arbustozinhos escuros e muito direitos. Metade do jardim estava coberto de ervas; a outra metade, de uma camada verde de musgo.
Ao lado de si nha Jean Valjean o casebre de cujo telhado se servira para descer, um monte de lenha, e por trás deles, mesmo encostada à parede, uma estátua de pedra, cujo rosto mutilado era apenas uma informe máscara aparecendo vagamente por entre a
escuridão.
O casebre era uma espécie de pardieiro em que se dis nguiam alguns quartos desmantelados, um dos quais, todo em ruínas, parecia servir de alpendre.
Para este jardim nha a casa grande da rua do Muro Direito, que fazia esquina para a viela do Picpus, dois lados em esquadria. Estes lados de dentro ainda eram mais tétricos do que o de fora. Todas as janelas nham grades, através das quais se não entrevia uma só luz. Nos andares superiores havia cestos como nas prisões. Um dos lados projectava sobre o outro a sua sombra, que dava sobre o jardim como um imenso lençol preto.
Não se descobria outra casa. O fundo do jardim perdia-se por entre a escuridão e a cerração da neblina. Dis nguiam-se, porém, confusamente, alguns muros, que se cruzavam uns pelos outros, como se para lá deles houvesse mais quintais, e os telhados baixos da rua de Polonceau.
Não se podia imaginar coisa mais erma e solitária do que aquele jardim. Não se via vivalma, o que era muito simples em razão do adiantado da hora, mas é que realmente parecia que aquele sí o não servia para ninguém andar por ele, mesmo à luz do meio-dia.
O primeiro cuidado de Jean Valjean foi procurar os sapatos e calçá-los e em seguida meter-se com Cose e para o alpendre. Quem se evade nunca se julga bem escondido. A criança, que não nha ainda varrido da lembrança a Thenardier, par cipava do seu instinto de se ocultar o mais que lhe era possível.
Cose e tremia e chegava-se para ele. Para lá do muro ouvia-se o sussurro tumultuoso da patrulha a dar busca ao beco e à rua, as coronhadas de armas nas pedras, os apitos que Javert dava para chamar os espias que nha postado nas imediações do beco e as suas imprecações de envolta com algumas palavras que se não percebiam.
Ao cabo de um quarto de hora pareceu que todo aquele sussurro tempestuoso principiava a afastar-se. Jean Valjean, que não respirava, pusera também a mão na boca de Cosette.
O ermo porém em que ele se achava estava tão estranhamente sossegado, que todo aquele assustador ruído, tão furioso e tão próximo, nem por sombras lhe podia incu r medo. Parecia que aquelas paredes eram construídas com as pedras surdas de que fala a Escritura.
De súbito, no meio deste profundo sossego, elevou-se um novo rumor, um rumor celeste, divino, inefável, que nha tanto de arrebatador como o outro de horrível. Era um hino saindo das trevas, um arroubo de oração e harmonia na silenciosa e medonha escuridão da noite; vozes de mulheres, mas vozes simultaneamente compostas do acento puro das virgens e do tom ingénuo das crianças, dessas vozes que não são da terra, dessas vozes parecidas com as que os recém-nascidos ouvem ainda e o moribundos ouvem já. Este canto vinha do sombrio edifício que dominava o jardim.