Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 240 de 359

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Os Miseráveis

IV — Um coração debaixo duma pedra

Nem as portas de uma cadeia ficam mais seguras! Mas duas mulheres sozinhas!, faz estarrecer só semelhante ideia! Imagine a menina: ver a gente entrar-lhe de noite no quarto um bando de homens de má catadura, que, se vêem que uma pessoa faz algum movimento, dizem logo: «Nem um pio!» e principiam a cortar o pescoço à gente! Não é lá por morrer, que enfim, a gente, afinal sempre vem a morrer, ou mais hoje ou mais amanhã mas o horror da gente se ver tocada, de sen r no corpo as mãos destes malvados! E sentir na carne aquelas facas que nem são amoladas nem nada! Meu Deus!

— Toussaint, cale-se com essas coisas e tenha sempre cuidado em olhar que fique tudo bem fechado!

Cose e, apavorada com o melodrama improvisado pela pobre mulher e talvez com a lembrança das aparições da semana antecedente, nem força teve para lhe dizer que

fosse olhar a pedra que nham posto em cismado banco, com medo de tornar a abrir a porta do caramanchel e entrarem os «homens». Mandou fechar cuidadosamente todas as portas e janelas, fez visitar a casa toda por Toussaint, desde a loja até ao sótão, fechou-se no quarto por dentro, olhou debaixo da cama, e, após tudo isto, deitou-se, mas dormiu mal. Toda a noite lhe pareceu que nha diante de si a pedra, mas a pedra com as proporções de uma montanha e toda cheia de cavernas.

Ao nascer do Sol, o qual tem a propriedade de nos fazer rir dos nossos terrores nocturnos, e rir com tanta mais vontade quanto maior foi o susto que vemos. Cose e acordou, e, tomando os seus terrores como simples efeito de um pesadelo, disse entre si:

— Eu que sonhei? É como noutro dia à noite imaginar que nha ouvido passos e visto gente no jardim, e sai-me a sombra de uma chaminé! Querem ver que eu me vou a fazer medrosa?

E de tal modo se sen u desoprimida ao aspecto do Sol, que se coava pelas fendas das janelas, purpureando o damasco do cor nado, que todas as imagens negras, inclusive a da pedra, se lhe varreram do pensamento.

— Qual pedra nem meia pedra! Foi sonho meu como o mais! Exis a tanto a pedra do banco como o tal homem do chapéu redondo que vi no jardim!

A jovem ves u-se, desceu ao jardim, correu ao banco, e, ao dar com os olhos na pedra, que, efectivamente, lá estava, sentiu correr-lhe um suor frio pelo corpo.

Momentânea foi, porém, tal impressão. O medo de noite troca-se em curiosidade de dia.

— Não, sempre hei-de ver o que isto é!

E, levantando a pedra, que era bastante volumosa, deparou com um objecto semelhante a uma carta, que tirou para fora.

Era um sobrescrito em branco e aberto, que facilmente se reconhecia conter dentro o que quer que fosse.

A jovem revolveu-o um instante nas mãos, e, por fim, resolveu-se a abri-lo. O que ela sen a já não era medo nem curiosidade, era um princípio de ansiedade. O misterioso sobrescrito encerrava um caderno numerado, contendo em cada página algumas linhas escritas por letra que Cosette achou bonita e sobremodo elegante.

Ávida de saber quem podia ser o autor daquele escrito, procurou um nome e não achou nenhum; procurou uma assinatura e não a encontrou. A quem era aquilo dirigido?

Decerto a ela, visto que sobre o banco onde ela devia vir sentar-se é que mão oculta nha colocado o embrulho. De quem vinha ele? Assenhoreou-se da jovem uma fascinação irresis vel, tentou desviar os olhos daquele papel, que segurava nas mãos trémulas, fitou os olhos no céu, na rua, nas acácias resplendentes de luz, nuns pombos que esvoaçavam sobre um telhado vizinho, depois baixou-os repen namente para o manuscrito, firmemente resolvida a saber o que ele continha. Eis o que a jovem leu: IV — Um coração debaixo duma pedra

Redução do Universo a uma só criatura, dilatação de uma só criatura até Deus, eis definido o amor.

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O amor é a saudação dos anjos aos astros.

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Como é triste a alma, quando é o amor a causa da sua tristeza!

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Que vácuo imenso deixa após si o ente que se ausenta e abandona as solidões de que era encanto único! Oh, como é verdade ser o ente amado imenso como Deus! Natural seria mostrar-se Deus invejoso dele, se o Pai de todas as coisas com certeza não houvera feito a criação para a alma e a alma para o amor.

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Um sorriso basta, entrevisto de longe nos lábios de uma fronte emoldurada num chapelinho de crepe branco, para fazer entrar a alma no palácio dos sonhos.

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Deus habita em tudo, mas oculto a nossos olhos. As coisas são negras, opacas as criaturas. Amar um ente é torná-lo transparente.

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Há pensamentos que valem por orações e momentos em que, qualquer que seja a atitude do corpo, a alma está de joelhos.

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Os amantes separados iludem a ausência por meio de mil coisas quiméricas, que têm, todavia, mais ou menos realidade. Impedem-nos de se verem, roubam-lhes os meios de se escreverem, mas eles acham um sem número de misteriosos modos de correspondência. Enviam-se mutuamente o canto das aves, o perfume das flores, os risos infan s, a luz do Sol, os suspiros do vento, os fulgores das estrelas, a criação inteira. E

porque não há-de ser assim, se todas as obras de Deus foram feitas para servir o amor e se ele tem sobeja grandeza para fazer da natureza inteira sua mensageira? Ó primavera, tu és uma carta que eu lhe escrevo.

***

O futuro pertence ainda mais aos corações do que aos espíritos. Amar, é a única coisa capaz de ocupar a eternidade. Ao que não tem fim, o que nunca se exaure.

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O amor participa da alma, como ela tem idêntica natureza, como ela é centelha divina, como ela é incorrup vel, indivisível, imperecível. É um foco que temos dentro em nós, foco imortal e infinito, que não pode ser limitado nem ex nto. Sen mo-lo queimar-nos até à medula dos ossos, vê-lo inundar de seus reflexos a terra e elevar os seus clarões até à amplidão do céu.

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Ó amor, adorações, voluptuosidade de dois espíritos que se compreendem, de dois corações que se consubstanciam, de dois olhares que se confundem! Quando vos gozarei, ó venturas! Quando nos vereis, ó aves do céu, vagueando enlaçados, mutuamente unidos, no silêncio da solidão! Quando vos gozarei, ó dias fúlgidos e abençoados, vividos do Sol da nossa ventura! Por vezes tenho sonhado que de longe a

longe caem do céu algumas par culas do viver dos anjos e vêm ao mundo misturar-se no destino dos homens.

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Em nada pode Deus aumentar a ventura dos que se amam, a não ser que os opulente com a duração sem fim. Após uma vida de amor, uma eternidade de amor, é um aumento, sem dúvida, mas aumentar em intensidade a felicidade inefável que o amor neste mundo proporciona à alma é impossível, mesmo a Deus. O amor é a plenitude do homem, como Deus é a plenitude do céu.

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Por dois mo vos fitais uma estrela: por ela ser luminosa e por ser impenetrável.

Descei, porém, a vista e vereis junto de vós mais suave luz, mais indecifrável mistério — a mulher.

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Todos nós, quem quer que sejamos, temos os nossos entes respiráveis. Se eles nos faltam, falece-nos o ar, breve sufocamos. Então é certa a morte. Morrer por falta de amor! Oh, que terrível morte! A asfixia da alma!

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Achado está o segredo da vida de dois entes, se os fundiu e consubstanciou numa angélica e sagrada unidade, o amor. Tornam-se os dois termos de um mesmo des no, as duas asas de um mesmo espírito. Amar é voar!

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Desde o momento em que vedes aureolada de luz a mulher que passou por vós, estais perdidos, amais. Só vos resta então pensar nela tão fixamente, que ela se veja forçada a pensar em vós.

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Só Deus pode acabar o que o amor principia.

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É o amor verdadeiro sensível à angús a de uma luva perdida ou às alegrias de um lenço achado, e só a eternidade lhe basta às suas esperanças e às suas dedicações. É que o amor compõe-se da grandeza infinita e da infinita pequenez.

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Se sois pedra, sede imã; sensitiva, se sois flor; se sois homem, sede amor.

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É o amor de sua natureza insaciável. Dai-lhe a felicidade, pede-vos o paraíso; dai-lhe o paraíso, pede-vos o céu.

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Ó almas que vos amais, sabei procurar e vereis que tudo isso contém o amor em si!

Tendes nele a contemplação que vale o céu, e, demais que no céu, a voluptuosidade.

***

— Ela tem vindo ao Luxemburgo?

— Não, senhor.

— A esta igreja é que ela vem ouvir missa, não?

— Já cá não vem.

— Ainda mora aqui?

— Mudou-se.

— Para onde?

— Não disse.

Que triste é ignorarmos a morada da nossa alma!

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O amor tem criancices, as outras paixões têm pequenezas. Vergonha às paixões que tornam o homem pequeno! Honra à que o faz criança!

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Estranha coisa, que talvez ignoreis. Desde que me levaram o céu, vivo imerso em profundas trevas!

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Oh, como eu me dera por contente da minha eternidade, se no mesmo túmulo repousássemos a par, com a minha mão unida a tua, sen ndo de espaço a espaço a suave pressão dos teus nos meus dedos!

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Se o amor vos faz sofrer, amai ainda mais. Morrer de amor é viver!

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Amai que o amor é o suplício entremeado de uma transfiguração estrelada, agonia em que a alma se abre à amplidão de dulcíssimos êxtases.

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Ó alegria das aves! Se vos não fora o ninho, como cantaríeis?

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O amor é uma respiração celeste do ar do paraíso.

***

Corações profundos, espíritos ilustrados, recebei a vida como ela vos vem da mão de Deus — longa provação, preparação ininteligível para um des no que não conheceis e que para o homem começa verdadeiramente no primeiro degrau do interior do túmulo.

Então as visões e um confuso entrever do defini vo o defini vo, notai bem. Os vivos vêem o infinito, mas só aos mortos é dado ver o defini vo. Até lá, amai e sofrei, esperai e contemplai. Infeliz o que só ver amado corpos, formas, aparências, que tudo lhe tirará a morte! Amai as almas, se quereis além do túmulo encontrá-las.

***

Passei uma ocasião por um rapaz, pobre de fortuna, mas opulento de amor. Trazia um chapéu sem pêlo, um casaco desbotado e roto nós cotovelos; através dos sapatos corria-lhe a água, através da alma passavam-lhe os astros.

***

Oh, que sublime coisa o ser amado! Que coisa maior ainda amar! Torna-se heróico o coração à força de paixão! Então não se compõe senão do que é puro, então não se apoia senão no que é elevado e grande. É tão di cil germinar nele um pensamento indigno, como à ur ga aferrar raízes no gelo. A alma alta e serena, inacessível às paixões